9 de Julho
Troa um férvido rebate
Como sinal de combate
Dentro dos muros sagrados!
Sejamos dignos herdeiros
Dos indomáveis guerreiros
Dos nossos dias passados!
Rindo, afrontemos os crimes,
Como apóstolos, sublimes!
Valentes, como soldados!
Saudemos a ideia santa
Que aos pés dos livres suplanta,
Quebra, esmaga as gargalheiras!
A ideia que nestes muros
Acossa os corvos escuros,
Ergue as sagradas bandeiras,
E, ante um deus mentido e falso,
Riu do algoz no cadafalso,
Riu das balas nas trincheiras!
Sim! dessa ideia aos impulsos
Que o Porto desprenda os pulsos
Dos ferros da iniquidade!
Entremos na luta ardente,
Filhos da raça valente,
Filhos da heróica cidade!
Com frenético delírio,
Entre a glória, entre o martírio,
Saudemos a liberdade!
A liberdade! a estrela redentora,
Cheia de imensa luz,
Que fulgia, serena como a aurora,
Na fronte de Jesus!
A liberdade! a ideia tormentosa,
Mil vezes numa só,
Que rugia, tremenda e clamorosa,
Na voz de Mirabeau!
Se, à luz de mil granadas coruscantes,
Lhe ergueram novo altar
Nossos pais, ao saudá-la agonizantes,
Na serra do Pilar,
Sem medo aos sabres nus entre as espadas
Que ferem nossa mãe
Sobre estas velhas aras derrubadas,
Saudemo-la também!
Mas ah! Porque a seus pés a nova guarda assoma,
E altiva lhe consagra os hinos do futuro,
Tem nas veias o arder o torvo filtro impuro,
Dos Bórgias e veneno! O bálsamo de Roma!
O escudo umbra et nihil, que Roma tinha à porta,
Negreja agora aqui nas armas da cidade!
O altar é mausoléu! Filhos da liberdade,
Enramai de lauréis a campa dessa morta!
Guilherme Braga
(Guilherme Braga nasceu no dia 22 de Março de 1845. Morreu em 1874.)
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quarta-feira, 22 de março de 2017
terça-feira, 22 de março de 2016
Guilherme Braga
Amor
Olha estas velhas árvores frondosas
Que enchem de sombra a solitária rua,
E esse chão de verduras, e aquelas rosas
Que dos muros se pendem curiosas
Para verem passar a imagem tua.
Não te diz tudo amor? Ouves? Suspende!
Lá derramam as aves pela selva
As doces notas que tua alma entende:
Vês? Mais pálido um raio a lua estende
Para beijar-te os pés na escura relva.
Quando sabem que vens, tudo prepara
Recepção festival, como se fosse
Cousa do céu que por aqui passara;
Então a luz dos astros é mais clara,
Das florinhas o hálito mais doce.
Gorjeia o rouxinol já de mais perto,
Gemem as auras melodioso idílio,
Em tudo há um som de cânticos incerto,
E do livro das árvores aberto
Chovem rimas de Horácio e de Virgílio.
Eu pela tua mão, calcando a alfombra
Do verde musgo, absorto em sonhos vagos,
Cismo no teu amor que esta alma assombra,
E julgo que nos céus por entre a sombra
Nos está rindo a estrela dos Reis Magos.
É que, se a natureza, que te admira,
O musgo e o cedro, as rosas e o perfume,
Formam, para cantar-te, ignota lira,
Nos seios de minha alma outra suspira
Que mais poesia e mais amor resume.
"Heras e Violetas", Guilherme Braga
(Guilherme Braga nasceu no dia 22 de Março de 1845. Morreu em 1874.)
Olha estas velhas árvores frondosas
Que enchem de sombra a solitária rua,
E esse chão de verduras, e aquelas rosas
Que dos muros se pendem curiosas
Para verem passar a imagem tua.
Não te diz tudo amor? Ouves? Suspende!
Lá derramam as aves pela selva
As doces notas que tua alma entende:
Vês? Mais pálido um raio a lua estende
Para beijar-te os pés na escura relva.
Quando sabem que vens, tudo prepara
Recepção festival, como se fosse
Cousa do céu que por aqui passara;
Então a luz dos astros é mais clara,
Das florinhas o hálito mais doce.
Gorjeia o rouxinol já de mais perto,
Gemem as auras melodioso idílio,
Em tudo há um som de cânticos incerto,
E do livro das árvores aberto
Chovem rimas de Horácio e de Virgílio.
Eu pela tua mão, calcando a alfombra
Do verde musgo, absorto em sonhos vagos,
Cismo no teu amor que esta alma assombra,
E julgo que nos céus por entre a sombra
Nos está rindo a estrela dos Reis Magos.
É que, se a natureza, que te admira,
O musgo e o cedro, as rosas e o perfume,
Formam, para cantar-te, ignota lira,
Nos seios de minha alma outra suspira
Que mais poesia e mais amor resume.
"Heras e Violetas", Guilherme Braga
(Guilherme Braga nasceu no dia 22 de Março de 1845. Morreu em 1874.)
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