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quinta-feira, 15 de abril de 2021

Fernando Namora 9

Um poema que se perdeu

Hoje o dia é um dia chuvoso e triste
amortalhado
Naquela monotonia doente dos grandes dias.

Hoje o dia...
(a pena caiu-me das mãos)

Acabou-se o poema no papel.
Cá por dentro
Continua...

Oh! este marulhar das almas no silêncio!


"Relevos", Fernando Namora

(Fernando Namora nasceu no dia 15 de Abril de 1919. Morreu em 1989.) 

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Fernando Namora 8

Poema da utopia

A noite
caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens largaram as máscaras de bons actores.
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.

No alto, a utópica Lua vela comigo
E sonha coalhar de branco as sombras do mundo.
Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.
Noite! Se o espectáculo findou
Deixa-nos também dormir.


"Relevos", Fernando Namora

(Fernando Namora nasceu no dia 15 de Abril de 1919. Morreu em 1989.) 

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Fernando Namora 7

Terra

Onde ficava o mundo?
Só pinhais, matos, charnecas e milho
para a fome dos olhos.
Para lá da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda.
E o mar? E a cidade? E os rios?
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos,
onde chiam carros de bois e há poças de chuva.
Onde ficava o mundo?
Nem a alma sabia julgar.
Mas vieram engenheiros e máquinas estranhas.
Em cada dia o povo abraçava outro povo.
E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves:
a estrada branca e menina é uma serpente ondulada
e dela nasce a sede da fuga como as águas dum rio.


"Novo Cancioneiro", Fernando Namora

(Fernando Namora nasceu no dia 15 de Abril de 1919. Morreu em 1989.) 

domingo, 15 de abril de 2018

Fernando Namora 6

Noite! Noite!
 
Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher
vago e belo e voluptuoso,
num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos e quedos.
Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele,
deixai que os caminhos da noite,
cegos e rectos como o destino,
suspensos como uma nuvem,
sejam os caminhos dos poetas
que lhes decoraram o nome.
Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher!
Esconde a vida no seio de uma estrela
e fá-la pairar, assim mágica e irreal,
para que a olhemos como uma lua sonâmbula.

"Mar de Sargaços", Fernando Namora

(Fernando Namora nasceu no dia 15 de Abril de 1919. Morreu em 1989.) 

sábado, 15 de abril de 2017

Fernando Namora 5

Balada de sempre

Espero a tua vinda
a tua vinda,
em dia de lua cheia.

Debruço-me sobre a noite
a ver a lua a crescer, a crescer...

Espero o momento da chegada
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas...

Rasgarás nuvens de ruas densas,
Alagarás vielas de bêbados transformadores.
Saltarás ribeiros, mares, relevos...
- A tua alma não morre
aos medos e às sombras! -

Mas...,
Enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí além,
sempre duvidoso,
desenha interrogações na areia molhada...


"Relevos", Fernando Namora

(Fernando Namora nasceu no dia 15 de Abril de 1919. Morreu em 1989.) 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Fernando Namora 4

Poema de amor

Se te pedirem, amor, se te pedirem
que contes a velha história
da nau que partiu
e se perdeu,
não contes, amor, não contes
que o mar és tu
e a nau sou eu.

E se pedirem, amor, e se pedirem
que contes a velha fábula
do lobo que matou o cordeiro
e lhe roeu as entranhas,
não contes, amor, não contes
que o lobo é a minha carne
e o cordeiro a minha estrela
que sempre tu conheceste
e te guiou - mal ou bem.

Depois, sabes, estou enjoado
desta farsa.

Histórias, fábulas, amores
tudo me corre os ouvidos
a fugir.


Sou o guerreiro sem forças
para erguer a sua espada,
sou o piloto do barco
que a tempestade afundou.

Não contes, amor, não contes
que eu tenho a alma sem luz.

...Quero-me só, a sofrer e a arrastar
a minha cruz.


"Relevos", Fernando Namora

(Fernando Namora nasceu no dia 15 de Abril de 1919. Morreu em 1989.) 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Fernando Namora 3

A vila é uma rua. Vem do alto dos eucaliptos pedindo licença à planície para lhe interromper o sono, atravessa uma encruzilhada de estradas por onde corre o aceno de Espanha ou do mar e, bruscamente, num ímpeto de ousadia, trepa o planalto ao encontro de uma igreja que foi covil de moiros e abades, e ali se fica, arrogante, a desafiar o pasmo da campina. À volta da igreja, as casinhas brancas, com altas chaminés que lhes furam o dorso atarracado, fecham-se num reduto que a voracidade calma do trigo não consegue romper. As mulheres vêm ansiosas às portas saber quem chegou, caçar uma novidade em primeira mão ou inventá-la, se for preciso; os homens vestem samarrões de pele de ovelha e falam e caminham lentos, austeros; os garotos correm aos sítios em que a bolota cai das árvores no regaço do mato, pela graça de Deus. Ao longo da rua há tabernas, onde o rumor brando da vida se encrespa, às vezes, em redemoinhos. Muitas tabernas. Os camponeses, depois do trabalho, sentam-se junto do balcão, apoiam os cotovelos no mármore da mesa, e ouvem. As palavras fatigam. E, por isso, um homem que saiba atirar com uma frase bem recheada e oportuna preenche uma boa hora de cogitações. Às vezes, à vila, chega gente vária. São pedras atiradas a um lago adormecido.

"O Trigo e o Joio", Fernando Namora

(Fernando Namora nasceu no dia 15 de Abril de 1919. Morreu em 1989.) 

terça-feira, 15 de abril de 2014

Fernando Namora 2

Do alto das furnas via-se o burgo dormindo; uma névoa de Primavera, fria, engelhava as casas e o arvoredo. Era dia santo, com feira no Salgueiral. Tinha de se partir cedo, dando tempo à mula para arrastar a velhice e vencer os solavancos do caminho, a subida da serra escalvada, onde a urze e os corvos vigiavam a solidão.
Ainda chegariam à vila com o nariz arroxeado da geada. Apetecia encostar a cabeça nos xailes e adormecer ao embalo penoso e lento do carro. O patrão segurava as rédeas com moleza, descaindo a cabeça a cada ressalto das rodas, olhar fixo na estrada, a pensar sabia-se lá em quê. Não se lhe arrancava uma palavra. Abílio levara oito dias a moê-lo com o aceno de uma boa feira no Salgueiral - e ele ouvia, ouvia de olhos e ouvidos ensonados, até que, repuxando o cinto à altura das virilhas, como nos momentos das decisões arriscadas, acedera:
- Vamos lá então.

"Casa da Malta", Fernando Namora

(Fernando Namora nasceu no dia 15 de Abril de 1919. Morreu em 1989.) 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Fernando Namora

Talvez o amanhecer ainda viesse longe. Mas não queria certificar-se pelo relógio. Ia esperar o novo dia junto da árvore a que se encostara horas antes (havia quanto tempo?), esperá-lo como a um acontecimento solene e infalível, mas do qual não se prevê de que lado surge nem a hora da chegada. No entanto, por cima do perfil desmantelado das casas, esboçava-se já uma levíssima claridade. Podia ser o alvorecer na sua silente caminhada ou qualquer outra coisa mais decisiva ainda. Ele queria imaginar que fosse outra coisa. O que viesse, porém, assim tão subtil e inevitável, vinha para purificá-lo. Vinha para decidi-lo.
Já não era noite, e ainda não era o amanhecer; nessa transição esvaziada a única coisa real e definitiva era a árvore. A árvore, as raízes. Tudo o mais pertencia a um espaço sem limites e distorcido, com a avenida, a cidade e as casas alongadas, feitas de uma pasta mole, esticada de um e outro lado por dedos oblongos; era um espaço sem espessura e sem contornos.

"O Homem Disfarçado", Fernando Namora

(Fernando Namora nasceu no dia 15 de Abril de 1919. Morreu em 1989.)