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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Cláudio de Sousa 4

Sentamo-nos num banco de jardim público, ainda sob a influência das palavras quentes de Bedford. Arrisquei-me a lembrar a Nunes o que me dissera de Paris, de suas orgias, de sua bacanal desenfreada. E, entretanto, é onde, justamente, a civilização latina tem seu auge, ao passo que em outros países, como a Itália, a Espanha, Portugal, da repressão dos costumes não resultou progresso algum. O Portugal das conquistas, o Portugal glorioso que, pequenino, conseguira dominar a vastidão de oceanos inexplorados, faleceu beatamente encapuchado num hábito fradesco à porta de uma catedral. A Espanha, a Espanha ferrabrás, contra cujo escudo inamolgável se quebrara a lança do infiel, fenecia nas vielas escuras junto ao nicho dos santos.

"As Mulheres Fatais", Cláudio de Sousa

(Cláudio de Sousa nasceu no dia 20 de Outubro de 1876. Morreu em 1954.)

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Cláudio de Sousa 3

Acabaram-se as aulas. Rara era a análise que ainda se fazia. Eu continuava a ir diariamente ao laboratório.
Trazia um livro, punha-me a lê-lo. Ou enchia as páginas de um caderno com anotações relativas a meu professor de Química.
Bedford veio certa tarde ao laboratório, agradeceu-me a dedicação e dispensou-me a assistência, lamentando nada poder oferecer-me.
Conservaria, apenas, o rapaz que lhe estava fazendo, ao mesmo tempo, o serviço de recados. (Os recados eram pedidos de dinheiro a uns e a outros. A mim não mo pedira ainda, talvez por acanhamento.)
- Se quiser vir prosear, é com prazer.
A fórmula era de simples polidez, porque ele passava os dias ao lado de Mariana.
Continuei a frequentar o laboratório, entretanto. Por que, se nada havia ali que fazer?
É o que só agora compreendo, ao escrever estas notas.
Era o eflúvio imponderável, a emanação fatal daquela carne lúbrica de mulher que se ia apoderando de mim... Como vim a sentir-lhe o doce e cruel apelo!...

"As Mulheres Fatais", Cláudio de Sousa

(Cláudio de Sousa nasceu no dia 20 de Outubro de 1876. Morreu em 1954.)

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Cláudio de Sousa 2

Entrei num cinematógrafo. Todos os cartazes eram de beijos, de abraços, de cenas mais ou menos lúbricas. No maior deles, lia-se "Afrodite", evocação das cenas antigas de amor que Bedford me descrevera. Havia um aviso ditado pelo Juízo dos Menores: "Impróprio para senhoritas e menores." E senhoritas e menores entravam, aos bandos, com habeas-corpus requerido por seus próprios pais...
Na tela, beijos longos, infindáveis, a perda de hálito, nos quais se sentia a sucção, a dentada, o glotismo.
A sala fremia. Os pais confraternizavam com as filhas. Os seios das mulheres palpitavam de excitação. Os rapazes estalavam bucotas. Meninas impúberes iniciavam-se nos mistérios de Afrodite. Eram as classes do Didascalion, talvez mais completas... E as velhas mães complacentes sorriam... Terminado o beijo, as outras artes de sedução feminina. O sorriso, o gesto provocante, a carícia de surpresa, o retraimento, toda a gama... que vinha, de novo, morrer, em abraços violentos e em beijos tão vivos, tão quentes, tão impetuosos que, agora, até mesmo as cadeiras das velhas mamãs estremeciam. Vaporizadores espalhavam no ar perfumes capitosos que se casavam com as emanações animais...
E no escuro, outras bocas se juntavam, excitadas, enquanto carícias se trocavam, e o ar se enchia do mesmo bafo quente de sensualidade do bosque de Afrodite. As luzes vacilantes das lâmpadas de mão dos indicadores pareciam as pupilas dos sátiros montados nas cabras montesas que decoravam o zoóforo do antigo templo. E eu que nunca havia percebido aquilo? Fora preciso que Bedford me abrisse os olhos! Terminara a fita naquele frêmito de sensualidade. A luz mostrou olheiras roxas, fisionomias quebradas e olhos ainda cheios de desejos não satisfeitos.
E há um cinema em cada rua nas cidades modernas de Afrodite... Nunes colheu-me o braço na saída.
- Que decepção? - disse-me ele. - O reclamo fez-me supor que a fita fosse mais ousada. Exploradores!
Vi que toda gente saía com a mesma impressão. Queriam mais? Por cinco mil réis só aquilo?... Exploradores!

"As Mulheres Fatais", Cláudio de Sousa

(Cláudio de Sousa nasceu no dia 20 de Outubro de 1876. Morreu em 1954.)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Cláudio de Sousa

Certa tarde, ao sair de um livreiro, se me deparou o Nunes, que havia muito não encontrava. Acabava de doutorar-se em medicina. Arrastou-me para um café sonolento e vazio. Contou-me as peripécias da defesa de tese, suas esperanças, a alegria de se ver, enfim, livre e senhor de si. Ouvia-o distraído. Entraram, sucessivamente, duas mulheres, e tomaram assento, olhando-nos com insistência. Uma era rubicunda e grosseira. A outra, ruiva e seca, tinha a pele picada pela varíola, cujas cicatrizes lhe davam o aspecto da fruta de conde. A imaginação povoada pelas sacerdotizas de Afrodite, mirei-as com repugnância.
Queres ouvir-me ou não? - disse-me o Nunes, que logo acrescentou, ao ver para onde me iam os olhos: - A ruiva é graciosa, mas a gorducha só como domingo de Páscoa após alguma quaresma severa.

"As Mulheres Fatais", Cláudio de Sousa

(Cláudio de Sousa nasceu no dia 20 de Outubro de 1876. Morreu em 1954.)