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sábado, 4 de maio de 2019

Carlos Pinhão 3

Em suma o meu barbeiro é um saudosista... Tão saudosista que continua adepto fervoroso do cinema mudo.
Diz e justifica:
- Charlot tem razão... O cinema mudo é que é... O cinema deve fazer-se mudo, tal como a "sueca" se deve jogar calado... As palavras é que estragam tudo... Veja-se o caso dos filmes portugueses, por exemplo... Um actor, numa cena dramática, tem um desabafo cá dos nossos e toda a gente desata a rir. Se dissesse: "porca miséria", tinha muito interesse.
"Os filmes portugueses são mesmo prejudicados por serem falados em português, acredite. Se o "rapaz" diz "se faz favor", ninguém acha graça, mas se ele dissesse "prego", tinha um piadão.

"O Meu Barbeiro", Carlos Pinhão

(Carlos Pinhão nasceu no dia 4 de Maio de 1924. Morreu em 1993.)

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Carlos Pinhão 2

O meu barbeiro, no primeiro dia em que lá fui, deixou-me a pior impressão.
Foi mesmo agressivo:
- Há quanto tempo não cortava o cabelo?
- Não faço ideia.
- Isto é cabelo para mais de três meses.
- Tanto, talvez não.
- Ah, sim, três meses, disto percebo eu, não se esqueça que eu sou barbeiro há mais de trinta anos.
- Não o esquecerei.
- Portanto, três meses.
- Se lhe dá jeito, assentemos nos três meses.

"O Meu Barbeiro", Carlos Pinhão

(Carlos Pinhão nasceu no dia 4 de Maio de 1924. Morreu em 1993.)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Carlos Pinhão

Tenho um amigo em Londres. Até tenho mais, mas agora, para o caso, o que interessa é este amigo velho, que é médico há pouco e londrino há muito.
Foi esperar-me ao aeroporto, mas desta vez não foi sozinho. Levou um amigo dele, jornalista. Fiquei a conhecê-lo e, a breve trecho, fiquei também a embirrar com ele, mas devo reconhecer que o jornalista, nessa noite, durante a farra, alinhou perfeitamente. Foi uma bela paródia a três, ou, melhor dizendo, a seis... porque andámos "individualmente" acompanhados.
Quando chegámos ao meu hotel já eram quase horas de o sol raiar, se chegasse a raiar, pois bem se sabe como em Inglaterra há muitos dias em que não raia nada... Os meus companheiros não só me acompanharam ao hotel como até subiram ao meu quarto e ajudaram-me a pôr o colchão no chão.

"Londres Sem Tamisa ou O Homem Que Dormia no Chão", Carlos Pinhão

(Carlos Pinhão nasceu no dia 4 de Maio de 1924. Morreu em 1993.)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Eu e o meu barbeiro comunicamos por sinais

Foto Hernâni Von Doellinger

Eu e o meu barbeiro comunicamos por sinais. Ele sabe que comigo não há conversa: entro no estabelecimento, levanto a mão direita em saudação índia mas não digo "Ugh!", sento-me na zona de espera, espero, varejo O Jogo, olho com fastio para as folhas do Jornal de Notícias, vejo as figuras da revista Volta ao Mundo, coço a cabeça e eventualmente os colhões, espreito-me aos espelhos, espero, espero, levanto-me quando chega a minha vez, que me é indicada pelo meu barbeiro com um semigesto de cabeça, coisa cá entre os dois, aproveito os três passos de caminho para apontar se é só barba ou se é barba e cabelo, sento-me e está tudo dito. São muitos anos...
Conversa de barbeiro é uma seca. E um perigo. Os barbeiros sabem de tudo e nós, simples e indefesos clientes, não. Portanto, de navalha em punho, eles começam a falar na crise dos mísseis de Cuba de 1962 e só terminam, uma hora depois, já a socar-nos o tralhame com a escova, quando chegam ao caso do dono do café ao lado que tem a mania de deixar a janela do carro aberta, "Qualquer dia ainda se fode, com sua licença, senhoreee...", e, depois de termos saído e já irmos longe, ainda vão à porta gritar: - O senhoreee... também deixa a janela do carro aberta? Deixa? Ai é motorizada? Pois, nesse caso...
O meu barbeiro não. Comigo, nem se atreve a pegar no espelho mostra-carecas para me perguntar, no final do serviço, se está tudo bem. Já sabe que não vale a pena. Vamos direitos ao assunto, quero dizer à máquina registadora, espreito os numerozinhos verdes a ver se ainda é o mesmo preço, é, pago, recebo o troco, levanto a mão direita em saudação índia e saio sem dizer "Ugh!", que ele não estranha.
Mas, para termos chegado a este superior estádio de entendimento silencioso, precisei de me começar a impor logo no princípio, há mais de 30 anos. O meu barbeiro já sabe: som da televisão para baixo mal chego, porque a Praça da Alegria é-me insuportável. Mais: lavagem da cabeça, não. Nunca. Eu e o meu barbeiro até pode dizer-se que somos amigos, mas nada de convívio, de festinhas. Nestas coisas, a minha costela homofóbica dá de si. É uma costela flutuante, mas está lá. Por exemplo, incomoda-me também que o estabelecimento se chame "salão" em vez de "barbearia", e, ainda por cima, "salão de cabeleireiros". O meu barbeiro sabe do meu incómodo, mas neste particular mandou-me dar uma volta. São os tempos que vivemos e merecemos. Até a Barbearia Tralhão, isso sim sítio para homens de barba rija, agora também já é Cabeleireiros Pereira Tralhão. O que é que se há-de fazer?

Não sei o que deu hoje ao meu barbeiro. Resolveu falar. E eu, que até já me tinha convencido de que éramos mudos, mandei-o calar com os olhos, quase o fulminei. Mas ele fez-se de ceguinho e continuou com o relambório. Os barbeiros de um modo geral são assim, falam sempre mesmo que a gente não lhes responda. E o meu barbeiro ontem estava igual aos outros barbeiros, abriu o livro. Porque conversa de barbeiro tem técnica.
O meu barbeiro começou pela política, quer-se dizer Caixa Geral de Depósitos e declarações de rendimentos. O que até me veio a calhar para continuar calado, porque não percebo nada de política e, além disso, não gosto de dizer palavrões em público. Perante o meu militante silêncio, o meu barbeiro passou para o futebol, e eu nada: não sei porquê, mas para aí há coisa de dois meses que não gosto de falar de futebol (tirante a passada quarta-feira). O meu barbeiro tentou-me, então, com o Trump. Valha-me Deus, antes de almoço não, lá se me ia o apetite. E a noticiazinha do jornal, a  Cristina Ferreira que afasta a Teresa Guilherme dos reality shows? Também não. Mantive-me de boca fechada, até para não ter de lhe explicar o que está por detrás destas chamadas figuras públicas e destas alegadas notícias.
O meu barbeiro pareceu desistir. Calou-se, magoado. E assim esteve, desistente, calado e ressentido, durante uma boa meia hora. Até que, indo ao fundo da sua alma, arrancou um imenso suspiro (e eu logo a pensar: vem-me este agora falar do que lhe vai custar este Natal derivado à morte ainda tão fresca da mãezinha, coitadinha...), arrancou um grande suspiro, dizia eu, suspendeu a tesoura trabalhadeira num gesto teatral e atirou-me, certeiro : - E este tempo?!...
Ah!, bom, o tempo. Falando do tempo, assim já nos entendemos: tivemos ali conversa até à hora de almoço e despedimo-nos de abraço...

("O Meu Barbeiro" é título de um divertidíssimo livro do jornalista e escritor português Carlos Pinhão (1924-1993). Tenho-o cá em casa, ao livro, autografado e roubado em boa hora, e apresenta-se assim:)

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segunda-feira, 28 de abril de 2014

O meu barbeiro

Foto Hernâni Von Doellinger

Eu e o meu barbeiro comunicamos por sinais. Ele sabe que comigo não há conversa. Entro, levanto a mão direita em saudação índia mas não digo "Ugh!", sento-me na zona de espera, espero, levanto-me quando chega a minha vez, que me é indicada com um semigesto de cabeça, coisa cá entre os dois, aproveito o caminho para apontar se é só barba ou é barba e cabelo, sento-me e está tudo dito. São muitos anos.
Conversa de barbeiro é uma seca. E um perigo. Os barbeiros sabem de tudo e nós, simples e indefesos clientes, não. Portanto, de navalha em punho, eles começam a falar na crise dos mísseis de Cuba de 1962 e só terminam, uma hora depois, já a socar-nos os tomates com a escova, quando chegam ao caso do dono do café ao lado que tem a mania de deixar a janela do carro aberta, "Qualquer dia ainda se fode, com sua licença, senhoreee...", e, depois de termos saído e já irmos longe, ainda vão à porta gritar: - O senhoreee... também deixa a janela do carro aberta? Deixa? Ai é motorizada? Pois, nesse caso...
O meu barbeiro não. Comigo, nem se atreve a pegar no espelho mostra-carecas para me perguntar, no final do serviço, se está tudo bem. Já sabe que não vale a pena. Vamos direitos à máquina registadora, espreito a ver se ainda é o mesmo preço, pago, recebo o troco, levanto a mão direita em saudação índia e saio sem dizer "Ugh!", que ele não estranha.
Mas para termos chegado a este superior estádio de entendimento silencioso, precisei de me começar a impor logo no princípio, há quase 30 anos. O meu barbeiro já sabe: som da televisão mais baixo quando chego, porque a Praça da Alegria é-me insuportável. Mais: lavagem da cabeça, não. Nunca. Somos amigos, mas nada de convívio. Nestas coisas, a minha costela homofóbica dá de si. É uma costela flutuante, mas está lá. Por exemplo, incomoda-me também que o estabelecimento se chame "salão" em vez de "barbearia", e, ainda por cima, "salão de cabeleireiros". O meu barbeiro sabe do meu incómodo, mas neste particular mandou-me dar uma volta. São os tempos que vivemos e merecemos. Até a Barbearia Tralhão, isso sim sítio para homens de barba rija, agora também já é Cabeleireiros Pereira Tralhão. O que é que se há-de fazer?

Não sei o que deu ontem ao meu barbeiro. Resolveu falar. E eu, que até já me tinha convencido de que éramos mudos, mandei-o calar com os olhos, quase o fulminei. Mas ele fez-se de ceguinho e continuou com o relambório. Os barbeiros são assim, falam sempre mesmo que a gente não lhes responda. E o meu barbeiro ontem estava igual aos outros barbeiros, abriu o livro. Porque conversa de barbeiro tem técnica.
O meu barbeiro começou pela política. O que até me veio a calhar para continuar calado, porque não percebo nada de política e, além disso, não gosto de dizer palavrões em público. Perante o meu militante silêncio, o meu barbeiro passou para o futebol, e eu nada. Não sei porquê, mas para aí há coisa de mês e meio que não gosto de falar de futebol. O meu barbeiro tentou-me, então, com o Duarte Lima. Valha-me Deus, antes de almoço não, lá se me ia o apetite. E a noticiazinha do jornal, os dois larápios que foram apanhados e quase linchados pela população ali para os lados de Guimarães? Também não. Mantive-me de boca fechada, até para não ter de lhe explicar o que está por detrás de acções e notícias daquelas.
O meu barbeiro pareceu desistir. Calou-se. E assim esteve, desistente, calado e ressentido, durante uma boa meia hora. Até que, indo ao fundo da sua alma, arrancou um imenso suspiro (e eu logo a pensar: vem-me este agora falar da emoção da visita de terça-feira à campa da mãezinha, coitadinha...), arrancou um grande suspiro, dizia eu, suspendeu a tesoura num gesto teatral e atirou-me, certeiro : - E este tempo?!...
Ah!, bom, o tempo. Assim já nos entendemos. Tivemos ali conversa até à hora do tacho.

(Texto escrito e publicado no dia 4 de Novembro de 2011. Junto-lhe hoje a fotografia, que apanhei na Foz. Quem tiver vagar, pode ler mais do mesmo em O meu barbeiro 2.)

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"O Meu Barbeiro" é também título de um divertidíssimo livro do jornalista e escritor português Carlos Pinhão (1924-1993):

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