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quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Carvalho Calero 8

[Calquer lugar é bom para morrer]

Calquer lugar é bom para morrer.
Nom se distingue o home da mulher.
A morte é neutra - das Tod - em alemám.
Género e sexo nom sempre vam da mam.
Pois umha cousa é a anatomia
e outra a gramática - falaz dicotomia.
Nom vejo a morte feminista ser.
Calquer lugar é bom para morrer.

Donas do tempo passado ou do actual,
a morte a todas trata-vos igual
que aos cavaleiros. Violenta, a história o di.
Muitas mulheres morrerom assi.
Em Rouen foi Joana d'Arco queimada;
Antoinette em Paris guilhotinada;
Em Chappaquiddick, Jo foi perecer.
Calquer lugar é bom para morrer.

Eis umha flor para o lume e o mar,
a praça, o paço ou calquer lugar
onde a mulher tenha o seu passamento.
Erga-se a rosa sobre o moimento.
Nesta matéria nom é discriminada.
Inês ferida, Mariana agarrotada,
Mary Jo sulagada, Jeanne a arder.
Calquer lugar é bom para morrer.

"Cantigas de Amigo e Outros Poemas", Carvalho Calero

(Carvalho Calero nasceu no dia 30 de Outubro de 1910. Morreu em 1990.)

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Carvalho Calero 7

Esquecida vivia

Esquecida vivia
do meu corpo. Umha pobre mulher
cumha filla de vinte e cinco anos,
que tem à sua vez
umha filha de três, e vive longe.
Umha muller já bem
madura, porque tem
umha filha de vinte e cinco anos.
Umha mulher abandonada
polo marido, sem recursos,
sem estudos, que tivo que empregar-se
numha oficina para um trabalho
rotineiro, há muitos anos, já.
E assi vive, entre companheiros
indiferentes, apressados, descontentes;
descontente, apressada, indiferente.
Vestida sem cuidado,
penteada sem esmero.
Sem horizonte, só, sem ilusom.
E apareceste ti,
um parente remoto
e que necessitava um documento
que se expedia na minha oficina,
e eu lhe facilitei.
Um parente remoto
a quem nom vira nunca, e que vivia
numha grande cidade de além-mar.
E, surprendentemente,
achaste-me formosa.
Dixeste-mo,
e no teu rosto lim que eras sincero.
E foi um terramoto para mim.
No meu apartamento, pola noite,
dispo-me
perante o espelho, e acho
que tés razom, que o meu corpo é formoso
ainda, e gostaria
de que o visses assi, sem véu algum.
E, nua, entro no leito
pensando em ti, para sonhar contigo,
e renace entre a escuma dos lençóis
umha esquecida voluptuosidade,
e fecho os olhos, porque em sonhos ponho
neles os lábios teus.
Manhá convidarei-te a visitar-me;
a tomar umha copa,
ao sair do trabalho,
no meu apartamento.
Tomaremos a copa, e cando eu veja
que a hora soou
nos teus olhos, nos teus
beiços, nas tuas mans,
farei o mesmo que hoje fago,
decidida, tranquila,
sem temor, sem rubor.
Despirei-me, mas nom
ante o espelho: ante ti.
Nua, sulagarei-me
no leito: mas contigo.

"Cantigas de Amigo e Outros Poemas", Carvalho Calero

(O Día das Letras Galegas de 2020 será dedicado a Carvalho Calero)