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sábado, 8 de setembro de 2018

Camillo de Jesus Lima 4

Não estou só 

Não estou só, porque o piano invisível
Está repetindo a valsa clássica daquela noite, há muito tempo.

Não estou só, porque há palavras que foram ditas e não morreram de todo.

Não estou só, porque as amadas mortas ainda estão falando ao meu ouvido;
Mocinhas vestidas de branco das cidadezinhas tranquilas estão sorrindo para mim,
Comovendo minha estátua e o retrato em cima da mesa.

Não estou só, porque os olhos do retrato estão perdidos no passado e no presente.

A sala é pequena. O mundo parou. Tudo parou. Ainda assim não estou só,
Porque a noite chora sangue no pingo da estrela,
Parado, no rasgão da janela que dá para o mundo.

Camillo de Jesus Lima

(Camillo de Jesus Lima nasceu no dia 8 de Setembro de 1912. Morreu em 1975.)

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Camillo de Jesus Lima 3

Poeta

Como os velhos ascetas medievais,
Mato em volúpias o meu sofrimento.
Reage-me o sangue contra esse tormento
Como um bando faminto de chacais.

Na febre do meu sonho, muito mais
Alto que o sol eu vou na asa do vento.
E, encerrando em meu próprio pensamento,
Quebro montanhas, ergo catedrais.

Pedras lança-me o mundo. Do desdouro,
Transfigurando, rio-me, no empenho
De aperfeiçoar o mundo que construo,

Apertando nas mãos o meu tesouro:
Esse sonho que é tudo o que não tenho;
Esse sonho que é tudo o que eu possuo...

Camillo de Jesus Lima


(Camillo de Jesus Lima nasceu no dia 8 de Setembro de 1912. Morreu em 1975.)

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Camillo de Jesus Lima 2

Meditação

Quando eu pus os olhos no chão
E fitei as pegadas de Cristo,
Vi o rastro de todos os mártires
Da maldade humana e da incompreensão dos homens...


"Novos Poemas", Camillo de Jesus Lima

(Camillo de Jesus Lima nasceu no dia 8 de Setembro de 1912. Morreu em 1975.)

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Camillo de Jesus Lima

Solidão uma conversa! eu estou é no meio do mundo.
De que serve trancar a porta?
De que serve botar as mãos no ouvido?
De que serve fazer papel de surdo que não quer ouvir?
Gritos de homens na rua entram, apesar de tudo,
Uivos de seviciados entram, apesar de tudo.
Solidão uma conversa! eu estou é no meio do mundo.

Os enucos estão fazendo flores nas torres de marfim,
Mas eu estou é no meio do mundo.

O rumor das ruas confunde-se ao ritmo do teclado da máquina.
Metralhadoras escrevem poemas no teclado da máquina.
Cavalos estão batendo patas no teclado da máquina.
Gente lutando,
Suando,
Amando, nas cinco partes do mundo.

Quem pode escrever poemas de solidão,
Se portas trancadas nada valem,
Se mãos nos ouvidos nada valem,
Se, fazer o papel do surdo que não quer ouvir, nada vale,
Se os olhos dos morimbundos ficam, no alto, iluminando as páginas,
Se mãos alvas vem acender o cigarro, devagarinho,
Se o rumor da rua vem fazer coro ao ritmo do teclado da máquina?
Solidão uma conversa! eu estou é no meio do mundo.

Camillo de Jesus Lima

(Camillo de Jesus Lima nasceu no dia 8 de Setembro de 1912. Morreu em 1975.)