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quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Artur Augusto da Silva 4

Sorriso português

Lanço os olhos para o Norte
e vejo Lisboa, a mais pequena cidade do mundo,
porque cabe inteira no meu coração;
lanço os olhos para o Sul
e vejo as terras de Angola,
tão grandes que meu coração teve de crescer
para que elas nele pudessem caber;
lanço os olhos para o Ocidente
e vejo o Mundo - Novo - Brasileiro,
tão vasto que só Deus nos altos céus
o pode ver;
lanço os olhos para o Oriente
e vejo a grande babel de Macau
nascer das águas como uma flor de lótus.

E por todas essas terras que meus olhos vêem,
por todos os oceanos que as banham,
por todos os sóis que as cobrem,
vejo pairar o doce sorriso português
- O terno sorriso de minha mãe...

"E o Poeta Pegou Num Pedaço de Papel e Escreveu", Artur Augusto da Silva

(Artur Augusto da Silva nasceu no dia 14 de Outubro de 1912. Morreu em 1983.)

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Artur Augusto da Silva 3

Morreu o homem

Mamadú Baldé, filho de Salifo, filho de lndjai, filho de Tchamo, filho de Monjur, filho de Mutari, cuja linhagem se perde há mais de dois mil anos nas terras do Egipto e de quem os antepassados remotos viram Moisés e Maomé e com eles conversaram sobre o tempo e as colheitas.
Mamadú Baldé morreu. Mamadú Baldé, o sábio que falava com Alá e era bom e era justo, morreu.
Cavaleiros e tambores levaram a notícia a toda a parte: subiram as encostas do Futa-Djalon e desceram para o mar. Percorreram o Sudão até Cao e Tombucutú e desceram ao lago Tchade.
E toda a terra dos fulas repetiu: morreu Mamadú Baldé:
O sol parou o seu caminho, espreitou para Labé, viu Mamadú morto, e continuou. A lua parou também o seu caminho, espreitou e continuou.
Os rios que nascem no tecto do mundo pararam na sua corrida para o mar e prosseguiram. E o poeta pegou num pedaço de papel e escreveu.

"E o Poeta Pegou Num Pedaço de Papel e Escreveu", Artur Augusto da Silva

(Artur Augusto da Silva nasceu no dia 14 de Outubro de 1912. Morreu em 1983.)

domingo, 14 de outubro de 2018

Artur Augusto da Silva 2

Ela

Tu que tens o andar gracioso das gazelas
e a quem nenhuma companheira se iguala,
tu que tens a força do touro branco
e a elasticidade da onça:
tu que cresceste como o arroz em ano de chuva
e és uma espiga alta e farta
quando entras no terreiro para dançar
pareces uma estrela brilhante em noite de nuvens.

Tu és a que tem as ancas largas
e os seios grandes e firmados
e com quem todos os homens querem casar.

A tua pele é luzidia
como a lama das bolanhas depois das lavras:
o teu sorriso é igual ao primeiro arroz que germina
e os teus dentes são brancos...

Não preciso de dizer o teu nome
porque todos sabem quem tu és.

"E o Poeta Pegou Num Pedaço de Papel e Escreveu", Artur Augusto da Silva

(Artur Augusto da Silva nasceu no dia 14 de Outubro de 1912. Morreu em 1983.)

sábado, 14 de outubro de 2017

Artur Augusto da Silva

Canção para uma fula 

No teu andar gracioso e feminino,
lembras uma tanagra;
no teu rosto moreno e anguloso
brilham dois sóis;
no teu corpo leve como a brisa,
tens dois seios como os da Sulamita.


És o perfume das flores da selva que se evola
e inebria os homens;
és um vulcão jorrando lava;
és o luar que inunda a terra
e ainda fica luar para toda a vida;
és aquela que embriaga os homens
como o mel fermentado.

És mansa como a palavra de Maomé,
sábia como os seus ensinamentos,
prudente como os seus conselhos
e caridosa como os seus pensamentos.

És uma delicada flor de carne
que estremece ao desejo dos homens
como o bambu estremece à brisa da manhã.

"E o Poeta Pegou Num Pedaço de Papel e Escreveu", Artur Augusto da Silva

(Artur Augusto da Silva nasceu no dia 14 de Outubro de 1912. Morreu em 1983.)