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domingo, 18 de abril de 2021

Antero de Quental 8

Idílio

Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos dum fôlego as colinas
Dos rocios da noite inda orvalhadas;

Ou, vendo o mar das ermas cumeadas
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas
Ao longo, no horizonte, amontoadas:

Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão e empalideces...

O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.

"Sonetos", Antero de Quental

(Antero de Quental nasceu no dia 18 de Abril de 1842. Morreu em 1891.)  

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

A questão coimbrã

- A menina dança?
- Não, muito obrigado.
- Não tem nada que agradecer.
- Mas eu faço questão.
- Coimbrã?
- Oliveira do Hospital, mais concretamente. 

P.S. - A Questão Coimbrã teve o seu início no dia 2 de Novembro de 1865, com a publicação da violenta carta-opúsculo "Bom Senso e Bom Gosto" que Antero de Quental dirigiu a António Feliciano de Castilho.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Antero de Quental 7

O inconsciente

O espectro familiar que anda comigo,
Sem que pudesse ainda ver-lhe o rosto,
Que umas vezes encaro com desgosto
E outras muitas ansioso espreito e sigo,

É um espectro mudo, grave, antigo,
Que parece a conversas mal disposto...
Ante esse vulto, ascético e composto,
Mil vezes abro a boca... e nada digo.

Só uma vez ousei interrogá-lo:
- Quem és (lhe perguntei com grande abalo),
Fantasma a quem odeio e a quem amo?

- Teus irmãos (respondeu), os vãos humanos,
Chamam-me Deus, há mais de dez mil anos...
Mas eu por mim não sei como me chamo...


"Sonetos", Antero de Quental 

(Antero de Quental nasceu no dia 18 de Abril de 1842. Morreu em 1891.)  

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Antero de Quental 6

A um poeta

Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

"Sonetos", Antero de Quental 

(Antero de Quental nasceu no dia 18 de Abril de 1842. Morreu em 1891.)  

terça-feira, 18 de abril de 2017

Antero de Quental 5

Na mão de Deus

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depois do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!


"Sonetos Completos", Antero de Quental 

(Antero de Quental nasceu no dia 18 de Abril de 1842. Morreu em 1891.)  

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Antero de Quental 4

Uma amiga

Aqueles que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo, que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que à noite evoca o sentimento...

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos... que eu invejo...
Passam por mim... mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal... e escarnecê-lo!

"Primaveras Românticas", Antero de Quental 

(Antero de Quental nasceu no dia 18 de Abril de 1842. Morreu em 1891.)  

quinta-feira, 14 de maio de 2015

sábado, 18 de abril de 2015

Antero de Quental 3

Divina comédia

Erguendo os braços para o céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: - "Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,

Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
Num turbilhão cruel e delirante...

Pois não era melhor, na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?"
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: - "Homens! por que é que nos criastes?"


"Sonetos Completos", Antero de Quental 

(Antero de Quental nasceu no dia 18 de Abril de 1842. Morreu em 1891.)  

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Antero de Quental 2

À Virgem Santíssima

Num sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza...

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade...
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza...

Um místico sofrer... uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira...

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!


"Sonetos Completos", Antero de Quental 

(Antero de Quental nasceu no dia 18 de Abril de 1842. Morreu em 1891.) 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Antero de Quental

O Palácio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais
!


"Sonetos Completos", Antero de Quental

(Antero de Quental nasceu no dia 18 de Abril de 1842. Morreu em 1891.)