Mostrar mensagens com a etiqueta António Patrício. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Patrício. Mostrar todas as mensagens

domingo, 7 de março de 2021

António Patrício 5

O que é viver?

Viver é só sentir como a Morte caminha
E como a Vida a quer e como a vida a chama...
Viver, minha princesa pobrezinha,
É esta morte triste de quem ama…

Viver é ter ainda uma quimera erguida
Ou um sonho febril a soluçar de rastos;
É beijar toda a dor humana, toda a Vida,
Como eu beijo a chorar os teus cabelos castos...

Viver é esperar a Morte docemente,
Beijando a luz, beijando os cardos, e beijando
Alguém, corpo ou fantasma, que nos venha amando…

É sentir a nossa alma presa tristemente
Ao mistério da Vida que nos leva
Perdidos pelo sol, perdidos pela treva... 


António Patrício 

(António Patrício nasceu no dia 7 de Março de 1878. Morreu em 1930.)

sábado, 7 de março de 2020

António Patrício 4

É o poema de quem rasga os versos

É o poema de quem rasga os versos
porque os sentiu demais para os dizer
e os ouve nas ondas tão dispersos
como os sonhos que teve e viu morrer


António Patrício 

(António Patrício nasceu no dia 7 de Março de 1878. Morreu em 1930.)

quinta-feira, 7 de março de 2019

António Patrício 3

De que me rio eu?

De que me rio eu?... Eu rio horas e horas
só para me esquecer, para me não sentir.
Eu rio a olhar o mar, as noites e as auroras;
passo a vida febril inquietantemente a rir.

Eu rio porque tenho medo, um terror vago
de me sentir a sós e de me interrogar;
rio pra não ouvir a voz do mar pressago
nem a das coisas mudas a chorar.

Rio pra não ouvir a voz que grita dentro de mim
o mistério de tudo o que me cerca
e a dor de não saber porque vivo assim.


António Patrício 

(António Patrício nasceu no dia 7 de Março de 1878. Morreu em 1930.)

quarta-feira, 7 de março de 2018

António Patrício 2

Unge-me de perfumes

"Gosto tanto de ti...", dizes. É pouco.
É das tuas mãos erguidas que eu preciso.
Vê bem, Amor: não é orgulho louco.
Para os outros eu sou apenas riso.


Unge-me de perfumes, minha amada,
Como certa Maria de Magdala,
Ungiu os pés d´Aquele cuja estrada
Só começou para além da vala. 


Ama-me mais ainda, ó meu amor
Como aquela mulher ungiu o Cristo,
Unge o meu corpo todo, a minha dor...


Ela ungiu-o para o túmulo, para a Cruz.
Unge-me teu, para o Sol por quem existo:
Viver é ir morrendo a beijar luz.

António Patrício 

(António Patrício nasceu no dia 7 de Março de 1878. Morreu em 1930.)

terça-feira, 7 de março de 2017

António Patrício

Saudade do teu corpo

Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo - como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?...

Anda a saudade do teu corpo (sentes?...)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: "vem, meu todo amado..."

É o teu corpo em sombra esta saudade...
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade...

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra...
Vês?! A saudade é um escultor antigo!

António Patrício

(António Patrício nasceu no dia 7 de Março de 1878. Morreu em 1930.)