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terça-feira, 3 de novembro de 2020

António Dacosta 5

O trabalho das nossas mãos

Eu era  novo e tu simulavas
tardes imóveis à porta do nosso medo
nas mais difíceis em que te ocupavas com gestos
e uma invencível entrega te
fazia invejar as chaminés e os seus fumos
tu, o teu sangue crepuscular, dissolvia o meu
remorso de ter nascido e
dissolvia o pez que os outros colavam ao nosso corpo.
O teu gesto de molhar a luz na tua pele disfarçava
com cuidado qual-
Quer asa de pecado.
O nosso receio não era já das cinzas que nos apoucam. A 
limpidez do Céu,
trabalho das nossas mãos, entreabrira-te os lábios
doutra sede, permanente como a chuva.
Eu era novo e tu simulavas os meus dedos desfolhando-se.
Porque o nosso peso era de símbolos,
decidiste criar outros.
A dormir os nossos frutos de alegria e
nunca ninguém nos importunou
com tarjas tristes à nossa porta.
A viver refizemos as coisas e
o seu gume, na evidência do que existe.
Despias sorridente, deslumbrada, aquele quê de
ausente na carne das estátuas,
e nada que não fosse exacto turbava os teus olhos.
A Terra abria-se para a chuva enquanto a semente do dia
entrava no bico dos
pássaros. Havia um gesto de elevação.
Eu simulava ver um barco incendiado, um mar de
lixívia a arder e as rendas da noite crepitando.
Ouves ainda o rumor das estrelas de que, nos
declives, dependiam nossos passos?
Um pedestal de ócio sustinha as estátuas do vale,
inertes de desterro, todas de rosto
semelhante, existindo de ausência erguida.
Nessa hora o linho que nos cobria tinha qualquer
coisa de feroz e reclamava sangue.
O branco ensinou-nos a espada. A espada a coragem
de a saber inútil.
Um dia disseste a fitar os olhos de imensas coisas -
que ao menos nos
salvemos nós! - dói-me o corpo de esperar...

António Dacosta

(António Dacosta nasceu no dia 3 de Novembro de 1914. Morreu em 1990.)

domingo, 3 de novembro de 2019

António Dacosta 4

Hoje não

Hoje não, a filha da (…) não é para tu veres
Mas vi tudo, despida a rapariga, ventre, seios
Lisas carnes duras da pedra com a lã vermelha do seu novo
Deu-lhe sete voltas ao corpo da cintura ao umbigo
Com alecrim em cruz começou a sua reza

Dança o Rei mais a Rainha

À roda os valetes as damas
Salta a tainha sem escamas
Canta o melro na vinha
Roda roda meu novelo
Vermelho como o Sol
Morde o peixe no anzol
Foge o touro do corvelo
Sete noites a fio
Come pão bem quente
Canela e leite muito
Se no mato ouvires o pio
Carda a lã com o teu pente
Trunfo é copas

"A Cal dos Muros", António Dacosta

(António Dacosta nasceu no dia 3 de Novembro de 1914. Morreu em 1990.)

sábado, 3 de novembro de 2018

António Dacosta 3

Venho do mar 

Venho do mar
Venho dos montes
Sê amiga do meu repouso

Se apeteço ser rei
Ter um barco e um cão
E dos meus amigos ser amigo

Sê benigna
Se me amas

"A Cal dos Muros", António Dacosta

(António Dacosta nasceu no dia 3 de Novembro de 1914. Morreu em 1990.)

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

António Dacosta 2

Tornam aqui as aves

Tornam aqui as aves
Sempre outras como eu
Longe de mim buscam
Outro que mim

O teu braço apontado ao céu
Semelhavas - no desabrochar
As flores o tempo que nos cercava

Não havia portas no teu jardim
Era como estar dentro do que vias
Tudo de ti estava em nós e era transparente

Via-te o vulto voltado à luz
Que o braço erguido apontava
E no tempo que nos cercava
Semelhavas
Que o nosso olhar não via
E de longe em ti buscava
O outro que mim

"A Cal dos Muros", António Dacosta

(António Dacosta nasceu no dia 3 de Novembro de 1914. Morreu em 1990.)

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

António Dacosta

Poema português

Ó minha terra de nevoeiros míticos
De imerecidas serras frescas
O sol que aquece os teus dias não é nulo
Nem os epistémicos deuses que te espreitam
Do alto sobre as tuas sete colinas
Ávidas estátuas tristes de serem velhas sombras
Antigas e só oníricas de vez em quando
Deixai pois ó pretas gravatas públicas da verdade
Deixai o sonho ser tão real como são
As pedras os muros as casas as amplas cidades
A morna brisa que te aquece as noites
Há-de amanhã soprar outra e outra vez
E tudo o que no redondo mundo é vivo
Será vida como agora a vejo eternamente a mesma.

"A Cal dos Muros", António Dacosta

(António Dacosta nasceu no dia 3 de Novembro de 1914. Morreu em 1990.)