Velho negro
Vendido
e transportado nas galeras
vergastado pelos homens
linchado nas grandes cidades
esbulhado até ao último tostão
humilhado até ao pó
sempre sempre vencido
É forçado a obedecer
a Deus e aos homens
perdeu-se
Perdeu a pátria
e a noção de ser
Reduzido a farrapo
macaquearam seus gestos e a sua alma
diferente
Velho farrapo
negro
perdido no tempo
e dividido no espaço!
Ao passar de tanga
com o espírito bem escondido
no silêncio das frases côncavas
murmuram eles:
pobre negro!
E os poetas dizem que são seus irmãos.
"Sagrada Esperança", Agostinho Neto
(Agostinho Neto nasceu no dia 17 de Setembro de 1922. Morreu em 1979.)
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quinta-feira, 17 de setembro de 2020
terça-feira, 17 de setembro de 2019
Agostinho Neto 3
Adeus à hora da largada
Minha mãe
(todas as mãe negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis
Mas a vida
matou em mim essa mística esperança
Eu já não espero
sou aquele por quem se espera
Sou
eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida
Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areias ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz eléctrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos
Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura
Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
vão em busca de vida.
"Sagrada Esperança", Agostinho Neto
(Agostinho Neto nasceu no dia 17 de Setembro de 1922. Morreu em 1979.)
Minha mãe
(todas as mãe negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis
Mas a vida
matou em mim essa mística esperança
Eu já não espero
sou aquele por quem se espera
Sou
eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida
Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areias ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz eléctrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos
Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura
Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
vão em busca de vida.
"Sagrada Esperança", Agostinho Neto
(Agostinho Neto nasceu no dia 17 de Setembro de 1922. Morreu em 1979.)
segunda-feira, 17 de setembro de 2018
Agostinho Neto 2
Comboio africano
Um comboio
subindo de difícil vale africano
chia que chia
lento e caricato
Grita e grita
quem esforçou não perdeu
mas ainda não ganhou
Muitas vidas
ensoparam a terra
onde assenta os rails
e se esmagam sob o peso da máquina
e no barulho da terceira classe
Grita e grita
quem esforçou não perdeu
mas ainda não ganhou
Lento caricato e cruel
o comboio africano...
"Sagrada Esperança", Agostinho Neto
(Agostinho Neto nasceu no dia 17 de Setembro de 1922. Morreu em 1979.)
Um comboio
subindo de difícil vale africano
chia que chia
lento e caricato
Grita e grita
quem esforçou não perdeu
mas ainda não ganhou
Muitas vidas
ensoparam a terra
onde assenta os rails
e se esmagam sob o peso da máquina
e no barulho da terceira classe
Grita e grita
quem esforçou não perdeu
mas ainda não ganhou
Lento caricato e cruel
o comboio africano...
"Sagrada Esperança", Agostinho Neto
(Agostinho Neto nasceu no dia 17 de Setembro de 1922. Morreu em 1979.)
domingo, 17 de setembro de 2017
Agostinho Neto
Amanhecer
Há um sussuro morno
sobre a terra;
digladiam-se
luz e trevas
pela posse do Universo;
sente-se a existência
a penetrar-nos nas veias
vinda lá de fora
através da janela;
cresce a alegria na alma
a Vida murmura-nos doces fantasias.
Tangem sinos na madrugada
vai nascer o sol.
"Amanhecer", Agostinho Neto
(Agostinho Neto nasceu no dia 17 de Setembro de 1922. Morreu em 1979.)
Há um sussuro morno
sobre a terra;
digladiam-se
luz e trevas
pela posse do Universo;
sente-se a existência
a penetrar-nos nas veias
vinda lá de fora
através da janela;
cresce a alegria na alma
a Vida murmura-nos doces fantasias.
Tangem sinos na madrugada
vai nascer o sol.
"Amanhecer", Agostinho Neto
(Agostinho Neto nasceu no dia 17 de Setembro de 1922. Morreu em 1979.)
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