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sábado, 22 de agosto de 2026

Classe pura

Foto enviada por Adelino Teixeira, ex-jogador da AD Fafe

Tabaia a pecha!
"Tabaia a pecha!", ameaçava o Silvino, de fueiro em punho, solavancando-se sem sucesso atrás da moçarada que lhe invadia o campo e lhe fugia sempre por entre os dedos, dando-lhe um baile desnecessário. O campo era dele, como a praça era do outro, no "Cinema Paraíso". O Silvino queria dizer "Trabalha a precha!", sendo precha uma variante muito fafense da palavra percha, que significa vara de madeira ou pau. Mas o nosso "Chibino" não dizia os erres nem os lhes, entre outras letras, sílabas e ditongos que também omitia ou deformava e realmente não lhe faziam falta nenhuma. O campo, alisado e marcado de fresco, era um brinquinho.

Esta extraordinária fotografia foi-me enviada pelo ilustre fafense Adelino Teixeira. Já lhe agradeci. E a primeira coisa racional que me veio à cabeça, logo que me passou a emoção de a ter recebido, foi - "Olha-me estes tipos! Olha-me que categoria! Que classe!", assim pensei, sem me ter apercebido de que tinha falado alto, e a minha mulher acudiu aflita a ver o que era, não era nada, era só isto, e concordou logo comigo, que nem é a sua especialidade.
Este é um documento de 1966 e apresenta a comitiva da AD Fafe posando nas escadarias de Santa Luzia certamente antes de um jogo contra o Vianense que acabaríamos por perder por 5-0, mas esta última parte não interessa para nada. O Adelino, que consta no retrato, atrás do Gil Lobo e do Costa, quis que eu tivesse finalmente um registo do Nelinho, como era meu desejo antigo, fez-me a gentileza e o grande Nelinho cá está na primeira fila, com o Dr. Marques Mendes, o Barrinhos e o Zeca Barros.
No pólo oposto, lá em cima, ainda dá para reconhecer o menino Berto Dantas na galhofa com o João Americano, realmente um pândego que se ouvia a quilómetros, tanto que até foi contar liornas para o Riopele. E o Toneca. O Toneca, com quem tive a honra de acamaradar anos mais tarde numas belas saltadas à Pica para despacharmos numa fervurinha dois ou três quartilhos de tinto. O Toneca tomava conta da piscina e eu, moço de 21 ou 22, fazia a secretaria do Fafe. Fechávamos portas e lá íamos de motorizada com aqueles capacetes de plástico cómicos e irrelevantes enfiados na cabeça, o velho Toneca à frente e eu atrás, agarrado a ele. Era ir num pé e vir no outro. Mas isso já é outra história e por acaso dá-me saudades...
Tornemos à fotografia, que é o que aqui interessa. A fotografia e os jogadores de futebol. Que conjunto perfeito! Um grupo onde nem faltam o motorista da Mondinense nem, espero estar a ver bem, o bom do Silvino, todo tirone. Num tempo em que não havia "fatos oficiais", em que os jogadores corriam por gosto, num amadorismo quase perfeito, assim se apresentavam, asseados por conta própria, os formidáveis representantes da AD Fafe, da vila e do concelho de Fafe, em última instância, por esse país fora. Não me lembrava disto assim, juro. Reparai na magnífica planta destes jovens! Que aprumo! Que pinta! Todos eles, a equipa completa, sem excepção, mas, se me permitis, era capaz de voltar ao Costa, porque ele realmente sobressai. O Costa, que toda a vida foi um homem elegante, em todos os sentidos, atentai bem nele, é o primeiro da direita de quem vê na segunda fila, na mais perfeita pose de três quartos, fazei o favor de notar a presença, apreciai a profundidade de olhar, e ainda as selfies não tinham sido inventadas - parece um modelo de catálogo, um artista de cinema dos de agora. Tomaram muitos...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Publicado originalmente em Agosto de 2023 e replicado noutros locais, às vezes sem identificação da fonte ou autor. O texto é meu. E a AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

sábado, 25 de maio de 2024

Até a chorar era bonito...


"Umas senhoras da Granja que trabalhavam no Posto Médico e passavam pelo nosso Santo Velho diziam que eu "até a chorar era bonito" - contava-me a minha mãe, cheia de vaidade, fazendo-me festinhas nos caracóis, e eu gostava. E eu gosto, mãe. Quando a minha mãe se zangava comigo - e eu enchia-a de razões para isso -, dizia-me que eu tinha sido deixado lá em casa pelos ciganos..."

Aquele bocadinho escrevi-o num texto publicado originalmente no meu blogue Tarrenego!, no dia 25 de Julho de 2014, e repetido aqui, no Fafismos, quase dez anos depois. Aquilo da minha meninice passou-se há quase sessenta anos.
E quereis saber a melhor? O Adelino Teixeira, que faz questão de apresentar-se como "sobrinho do Toninho da Luísa", e só lhe fica bem, voltou a contactar-me um destes dias e, entre outras amabilidades, fez o favor de revelar-me o seguinte:"Suponho que quem dizia que, quando eras pequeno, mesmo a chorar eras bonito, devia ser a minha tia Irene da Costa Novais, que mora no Bairro da Granja e hoje com 102 anos, pois passava pela vossa casa e ia para o Posto Médico, onde trabalhou toda a sua vida."
E é que era mesmo, acabei de confirmá-lo com a minha mãe. Era realmente a Senhora Dona Irene quem me mimava e gabava como menino chorão, aliás em curioso contraciclo com o seu feitio por regra mandão e absolutamente intolerante em relação a miúdos ou até graúdos mais exuberantes ou desalinhados, por assim dizer, que dessa parte também me lembro.
Fiquei tão contente por saber da senhora! Daqui lhe mando um beijinho, Senhora Dona Irene, e muito obrigado por fazer parte das minhas memórias.

E a fotografia, é isso que perguntais? Bom, a fotografia não tem nada a ver com o assunto em questão, mas também me foi mandada pelo Adelino Teixeira e é, mais uma vez, um documento interessantíssimo. Trata-se de uma das últimas linhas, se não mesmo a derradeira, do Futebol Clube de Fafe, nas vésperas da fusão com o Sporting Clube de Fafe e da consequente fundação da Associação Desportiva de Fafe, em 1958.
Devo dizer, não sem uma ponta de orgulho, que identifiquei meia dúzia de nomes logo à primeira, uma vez que tive o privilégio de conhecer este povo todo, se bem que mais tarde, todos mais velhos e à paisana. Para mim, eram senhores. E eis os heróis. Atrás, de pé, da esquerda para a direita de que vê: António Von Doellinger, Toninho da Luísa, Mário Túbal, Miguel, Estafete e Agostinho. À frente, de joelhos, no mesmo sentido: Lemos, Mário Freitas, Mário Costa, Hernâni e Albano.

(Publicado originalmente no meu blogue Fafismos)

sábado, 26 de agosto de 2023

Excelentíssimos senhores jogadores de futebol

Foto enviada por Adelino Teixeira, ex-jogador da AD Fafe

Esta fotografia, esta extraordinária fotografia que o Adelino Teixeira fez o favor de enviar-me, vai dar-nos pano para mangas. Voltará aqui certamente mais vezes para ser dissecada até à exaustão, porque ela bem o merece, mas por hoje foco-me apenas na primeira coisa racional que me veio à cabeça logo que me passou a emoção de a ter recebido. "Olha-me estes tipos! Olha-me que categoria! Que classe!", pensei, sem me ter apercebido de que tinha falado alto, e a minha mulher acudiu aflita a ver o que era e concordou logo comigo, que nem é a sua especialidade.
Este é um documento de 1966 e apresenta a comitiva da AD Fafe posando nas escadarias de Santa Luzia certamente antes de um jogo contra o Vianense que acabaríamos por perder por 5-0, mas esta última parte não interessa para nada. O Adelino, que consta no retrato, atrás do Gil Lobo e do Costa, quis que eu tivesse finalmente um registo do Nelinho, como era meu desejo antigo, fez-me a gentileza e o grande Nelinho cá está na primeira fila, com o Dr. Marques Mendes, o Barrinhos e o Zeca Barros.
No pólo oposto, lá em cima, ainda dá para reconhecer o menino Berto Dantas na galhofa com o João Americano, realmente um pândego que se ouvia a quilómetros, tanto que até foi para o Riopele. E o Toneca. O Toneca, com quem tive a honra de acamaradar anos mais tarde numas belas saltadas à Pica para despacharmos numa fervurinha dois ou três quartilhos de tinto. O Toneca tomava conta da piscina e eu, moço de 21 ou 22, fazia a secretaria do Fafe. Fechávamos portas e lá íamos de motorizada com aqueles capacetes de plástico cómicos e irrelevantes enfiados na cabeça, o velho Toneca à frente e eu atrás, agarrado a ele. Era ir num pé e vir no outro. Mas isso já é outra história e por acaso dá-me saudades...
A fotografia, que é o que aqui interessa. A fotografia e os jogadores de futebol. Que conjunto perfeito! Um grupo onde nem faltam o motorista da Mondinense nem, espero estar a ver bem, o bom do Silvino, todo tirone. Num tempo em que não havia "fatos oficiais", em que os jogadores corriam por gosto, num amadorismo quase perfeito, assim se apresentavam, asseados por conta própria, os formidáveis representantes da AD Fafe, da vila e do concelho de Fafe, em última instância, por esse país fora. Não me lembrava disto assim, juro. Reparem na magnífica planta destes jovens! Que aprumo! Que pinta! Todos eles, a equipa completa, sem excepção, mas permitam-me que volte ao Costa, porque sobressai. O Costa, que toda a vida foi um homem elegante, em todos os sentidos, olhem bem para ele, é o primeiro da direita de quem vê na segunda fila, façam o favor de notar a presença, apreciem a pose - parece um modelo de catálogo, um artista de cinema. Tomaram muitos...

P.S. - Foto e texto publicados originalmente no meu blogue Fafismos.