O festival LeV Literatura em Viagem está de volta a Matosinhos. O mote desta nona edição: "Conflito, ontem e hoje". A conferência inaugural, pelas 21h30 do dia 8 de Maio, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, estará a cargo de Jorge Sampaio, ex-Presidente da República.
Falarão também, até dia 11, Richard Zimler, Kim Young-Há, Paolo Giordano, Paloma Díaz-Mas, Tessa de Loo, Cătălin Dorian Florescu, Marc Pastor, Llucia Ramis, Artur Domoslawski, Joan Miquel Oliver, Pedro Abrunhosa, Luís Represas, Gonçalo M. Tavares, Francisco José Viegas, Rui Tavares, Joel Neto, Dulce Maria Cardoso, Rui Cardoso Martins, Rui Vieira Nery e João Pereira Coutinho. O escritor Mário Cláudio será entrevistado.
Debates, música, exposições e lançamento de livros fazem o resto, na Biblioteca Municipal Florbela Espanca. Não esquecer, portanto: de 8 a 11 de Maio, em Matosinhos. Programa completo e mais informação, aqui.
quinta-feira, 30 de abril de 2015
quarta-feira, 29 de abril de 2015
Jaime Cortesão 3
Ode à liberdade
Quero-te, como quero ao ar e à luz
Porque não sou a ovelha do rebanho,
Nem vendi ao pastor alma e a grei;
E onde não haja mais do que o redil,
És tu a minha pátria e a minha Lei.
Leva-me onde as estradas me pertençam.
Porque as vozes viris que me conduzem
Ninguém, melhor do que eu, sabe dizê-las;
Porque eu não temo as livres solidões,
Onde habitam os ventos e as estrelas.
Leva-me ao teu sopro, éter divino,
Porque me queima a sede das alturas
E o meu amor se oferece sem limite;
E és tu que abres as asas aos condores,
És tu que ergues os astros ao zénite.
Toma-me nas tuas mãos de sagitário,
Faze de mim o arco retesado
Pelo teu braço e a tua força inquieta,
Pois, quando o meu desejo atinge o alvo,
És tu o impulso que dispara a seta.
É lá, sempre mais longe, além do Oceano,
Nos limites do mundo conhecido,
Em plena selva e onde há que abrir a senda,
Que eu quero devorar os frutos novos
E erguer à beira de água a minha tenda.
Torna-me ágil e ardente, alma do Fogo,
Porque tu és a inspiradora inquieta
Dos bailados da morte e da alegria;
E eu prefiro ao aprisco a vida heróica,
A que devora o ser, mas alumia.
Queima-ma, embora custes, quando negas,
Quer o ódio fanático dos bonzos,
Quer o ciúme vil dos fariseus.
Sou dos que amam demais a Divindade
Para poder acreditar num deus.
Não és a flor da beira do caminho.
Bem sei que é preciso conquistar-te
A cada novo dia e duro preço.
Por ti tenho sofrido quanto os homens
Podem sofrer. Por isso te mereço.
Por ti sofri os transes da agonia,
Desde a fome da alma no deserto
Ao pão que, por amargo, se recusa.
E, náufrago da grande tempestade,
Cá vou sobre a jangada da Medusa!
Gerou-te, lentamente, com revolta
E dor, a consciência dos escravos;
Renasce mais perfeita a cada idade;
E, sempre, com as dores cruéis do parto,
Dá-te de novo à luz a Humanidade.
Querem mãos assassinas sufocar-te
Nas entranhas maternas. Mas em vão.
Virás como a torrente desprendida,
Porque és o sopro e a lei da Criação
E não há força que detenha a Vida.
Jaime Cortesão
(Jaime Cortesão nasceu no dia 29 de Abril de 1884. Morreu em 1960.)
Quero-te, como quero ao ar e à luz
Porque não sou a ovelha do rebanho,
Nem vendi ao pastor alma e a grei;
E onde não haja mais do que o redil,
És tu a minha pátria e a minha Lei.
Leva-me onde as estradas me pertençam.
Porque as vozes viris que me conduzem
Ninguém, melhor do que eu, sabe dizê-las;
Porque eu não temo as livres solidões,
Onde habitam os ventos e as estrelas.
Leva-me ao teu sopro, éter divino,
Porque me queima a sede das alturas
E o meu amor se oferece sem limite;
E és tu que abres as asas aos condores,
És tu que ergues os astros ao zénite.
Toma-me nas tuas mãos de sagitário,
Faze de mim o arco retesado
Pelo teu braço e a tua força inquieta,
Pois, quando o meu desejo atinge o alvo,
És tu o impulso que dispara a seta.
É lá, sempre mais longe, além do Oceano,
Nos limites do mundo conhecido,
Em plena selva e onde há que abrir a senda,
Que eu quero devorar os frutos novos
E erguer à beira de água a minha tenda.
Torna-me ágil e ardente, alma do Fogo,
Porque tu és a inspiradora inquieta
Dos bailados da morte e da alegria;
E eu prefiro ao aprisco a vida heróica,
A que devora o ser, mas alumia.
Queima-ma, embora custes, quando negas,
Quer o ódio fanático dos bonzos,
Quer o ciúme vil dos fariseus.
Sou dos que amam demais a Divindade
Para poder acreditar num deus.
Não és a flor da beira do caminho.
Bem sei que é preciso conquistar-te
A cada novo dia e duro preço.
Por ti tenho sofrido quanto os homens
Podem sofrer. Por isso te mereço.
Por ti sofri os transes da agonia,
Desde a fome da alma no deserto
Ao pão que, por amargo, se recusa.
E, náufrago da grande tempestade,
Cá vou sobre a jangada da Medusa!
Gerou-te, lentamente, com revolta
E dor, a consciência dos escravos;
Renasce mais perfeita a cada idade;
E, sempre, com as dores cruéis do parto,
Dá-te de novo à luz a Humanidade.
Querem mãos assassinas sufocar-te
Nas entranhas maternas. Mas em vão.
Virás como a torrente desprendida,
Porque és o sopro e a lei da Criação
E não há força que detenha a Vida.
Jaime Cortesão
(Jaime Cortesão nasceu no dia 29 de Abril de 1884. Morreu em 1960.)
João Penha
O fim
Já não tenho inspirações:
Debalde na tinta banho
A minha nervosa pluma!
Era pastor de ilusões,
E de todo o meu rebanho
Já não me resta nenhuma!
"Ecos do Passado", João Penha
(João Penha nasceu no dia 29 de Abril de 1838. Morreu em 1919.)
Já não tenho inspirações:
Debalde na tinta banho
A minha nervosa pluma!
Era pastor de ilusões,
E de todo o meu rebanho
Já não me resta nenhuma!
"Ecos do Passado", João Penha
(João Penha nasceu no dia 29 de Abril de 1838. Morreu em 1919.)
terça-feira, 28 de abril de 2015
Alberto de Oliveira 2
A janela e o sol
"Deixa-me entrar, - dizia o sol - suspende
A cortina, soabre-te! Preciso
O íris trêmulo ver que o sonho acende
Em seu sereno virginal sorriso.
Dá-me uma fresta só do paraíso
Vedado, se o ser nele inteiro ofende...
E eu, como o eunuco, estúpido, indeciso,
Ver-lhe-ei o rosto que na sombra esplende."
E, fechando mais, zelosa e firme,
Respondia a janela: "Tem-te, ousado!
Não te deixo passar! Eu, néscia, abri-me!
E esta que dorme, sol, que não diria
Ao ver-te o olhar por trás do cortinado,
E ao ver-se a um tempo desnudada e fria?!"
"Sonetos e Poemas", Alberto de Oliveira
(Alberto de Oliveira nasceu no dia 28 de Abril de 1857. Morreu em 1937.)
"Deixa-me entrar, - dizia o sol - suspende
A cortina, soabre-te! Preciso
O íris trêmulo ver que o sonho acende
Em seu sereno virginal sorriso.
Dá-me uma fresta só do paraíso
Vedado, se o ser nele inteiro ofende...
E eu, como o eunuco, estúpido, indeciso,
Ver-lhe-ei o rosto que na sombra esplende."
E, fechando mais, zelosa e firme,
Respondia a janela: "Tem-te, ousado!
Não te deixo passar! Eu, néscia, abri-me!
E esta que dorme, sol, que não diria
Ao ver-te o olhar por trás do cortinado,
E ao ver-se a um tempo desnudada e fria?!"
"Sonetos e Poemas", Alberto de Oliveira
(Alberto de Oliveira nasceu no dia 28 de Abril de 1857. Morreu em 1937.)
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Feira Medieval da Senhora da Hora 2015
domingo, 26 de abril de 2015
Condutora inteligentíssima
Um casal de idosos num daqueles carrinhos portáteis, os papa-reformas, como alguém teve a feliz ideia de lhes chamar. Nas calmas, obviamente. Atrás, uma condutora de um veículo a sério (à séria, se lido em Lisboa), uma verdadeira automobilista. A condutora, jovem e dinânima, tem óculos de sol de trabalho e pressa de ambulância: apita, buzina, assobia, gesticula, grita através da janela aberta:
- A passear!?...
Era domingo, duas da tarde, na ensolarada estrada à beira-mar. Condutora inteligentíssima: sim, às tantas os velhos iam mesmo a passear.
- A passear!?...
Era domingo, duas da tarde, na ensolarada estrada à beira-mar. Condutora inteligentíssima: sim, às tantas os velhos iam mesmo a passear.
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