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sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Banhos de acento, recomendam-se

Banho ao cão
Mandaram-no dar banho ao cão, e ele deu. Aproveitou para limpar e lubrificar as estrias, o ferrolho e o gatilho.

Era sábado, ao cair da folha, pela manhãzinha. Felizmente não chovia e faltava uma semana para as eleições autárquicas. Joel Cleto, historiador e estrela da televisão, ia falar aos seus discípulos. Estávamos no princípio do Passeio Atlântico, à beira da Anémona, o Porto ao lado, e uma pequena multidão com saquinhos com o logótipo da Câmara de Matosinhos às costas, numa mão sempre o telemóvel e noutra os auriculares, esperava a vinda. Pacientemente. Não os contei um a um, mas, assim por alto, seriam duas ou três dezenas de "irredutíveis socialistas" - foi desta forma que me apeteceu imaginá-los, tendo em conta o festival de iniciativas que naquela maré varria o País, com as câmaras e juntas, todas as câmaras e juntas, a gastarem os últimos cartuchos em excursões, passeios e passeatas, comezainas, cantorias, artistas da televisão, pão e circo para o povo, todo o tipo de iniciativas culturais ou nem por isso. Esta, segundo li depois, tinha inscrições limitadas e seria uma caminhada através da variante do Caminho Português de Santiago, pela frente marítima, até à Praia de Angeiras. Com Joel Cleto como guia, embora as explicações ao longo do percurso talvez já estivessem apalavradas numa aplicação predeterminada.
Cleto, que não é alto, chegou, empoleirou-se no pequeno muro do Passeio, pigarreou e disse: - Recomendo que liguem [a tal app]. Não demora mais do que dois segundos e é "gratuíto"...
"Gratuíto", valha-me Deus, foi o que o historiador disse. "Gratuíto" com acento no "í"! Havia necessidade?...
Eu, passando casualmente, arrepiaram-se-me os pêlos das pernas perante semelhante, e não resisti. Virei-me para trás e gritei: - É gratuito! Gratuito! A palavra gratuito não tem acento!...
Dois casais do grupo ouviram-me. Ficaram a rir-se de mim, do velho barbudo em calções e de mochila, que seguiu em frente e certamente é tolinho. A minha mãe continua a ter razão: estou sempre a destoar.

Agora. Gratuito é uma palavra grave e não leva acento gráfico. A sílaba tónica é constituída pelo ditongo ui. A pronúncia da palavra gratuito é, portanto, "gratúito" e não "gratuíto". Assim como se diz "fortúito" e não "fortuíto", "circúito" e não "circuíto", "intúito" e não "intuíto".
O bom Joel Cleto, que eu estimo, não está sozinho na gafe, infelizmente. Telejornais e noticiários radiofónicos abundam e redundam no erro, neste e noutros da mesma raça. A palavra rubrica, por exemplo, nunca se escreve com acento, mas lê-se sempre como palavra grave. A sílaba tónica é a penúltima, "bri". Isto é, e passo a fazer o desenho, diz-se sempre "rubríca", como se tivesse acento no i, e nunca "rúbrica", como se tivesse acento no u. Quer signifique assunto específico ou título de capítulo determinado, quer se refira a assinatura abreviada. É sempre rubrica, rubrica, rubrica. Dizendo-se sempre "rubríca", "rubríca", "rubríca".
E, já agora, é período que se diz e não "periúdo". Período, sempre, em todos os múltiplos significados da palavra, inclusive os mais íntimos. E diz-se medíocre, tal qual se escreve, e não "mediúcre". É medíocre.
O mesmo se aplica à palavra escrita "proíbido", mas ao contrário. "Proíbido" não existe, é proibido.

Felizmente há instrução. "Instrução" é uma palavra antiga que significava saber ler e escrever e por aí acima ou adiante. Educação era outra coisa. "Instrução", para além da tropa, era também o conjunto de aulas teóricas ou práticas para tirar a carta de condução ou para se aprender a ser bombeiro, em Fafe, mas não é isso que vem aqui ao caso. Havia quem tivesse mais ou menos instrução, havia quem não tivesse instrução nenhuma, era muita gente assim naquele Portugal ressesso, povo que nunca pôde ir à escola, os analfabetos, mais de 25 por cento da população, sobretudo mulheres, no tempo de Salazar, começavam a trabalhar aos sete/oito anos de idade, as meninas postas "a servir" pelos pais pobres e ignorantes, e assinavam de cruz. "O vinho é que induca, o fado é que instrói", dizia-se, mas os sábios do fascismo diziam muitas outras parvoíces do género e mandavam encaixilhar, como, por exemplo, "quem não é do Benfica não é bom chefe família".
A bitola da "instrução" era a Escola Primária, o Exame da Quarta e ponto final. Aprendia-se o essencial, incluindo os acentos nas palavras, os acentos faziam parte. Coisa simples, escrever e dizer as palavras como elas devem ser escritas e ditas. As novas gerações são hoje, felizmente, muito mais instruídas, tituladas, copiosas em licenciaturas, mestrados, doutoramentos e pós-doutoramentos, mas amiúde não sabem de acentos, desprezam as concordâncias, ensarilham-se nas vírgulas, confundem palavras, escrevem "exitou" quando a ideia era escrever hesitou, ainda ontem vi isso num jornal, e fartam-se de conjugar o verbo "tar".
Um bom banho de acento é o que lhes recomendo. Do fundo do coração. Se fosse herpes genital, hemorróidas, ardências, dores ou comichões nas partes, então recomendaria o outro, o velho banho de assento. De caras.

(Versão revista, actualizada e bastante aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 5 de outubro de 2025

É gratuito, Joel Cleto, gratuito!

Foto Hernâni Von Doellinger

Um sábado qualquer, por acaso ontem, cerca das 8h15. Joel Cleto, historiador e estrela da televisão, ia falar aos seus discípulos. Era o princípio do Passeio Atlântico, à beira da Anémona, e uma pequena multidão com saquinhos com o logótipo da Câmara de Matosinhos às costas, numa mão sempre o telemóvel e noutra os auriculares, esperava a vinda. Não os contei um a um, mas, assim por alto, seriam duas ou três dezenas de "irredutíveis socialistas" - foi desta forma que me apeteceu imaginá-los, tendo em conta o festival de iniciativas autárquicas que por aí vai, aqui e em todo o lado, nas vésperas das eleições do próximo domingo. Esta, segundo li depois, com inscrições limitadas, seria uma caminhada através da variante do Caminho Português de Santiago, pela frente marítima, até à Praia de Angeiras. Com Joel Cleto como guia, embora as explicações ao longo do percurso talvez já estivessem apalavradas numa aplicação predeterminada.
Cleto, que não é alto, chegou, empoleirou-se no pequeno muro do Passeio, pigarreou e disse: - Recomendo que liguem [a tal app]. Não demora mais do que dois segundos e é "gratuíto"...
"Gratuíto", valha-me Deus, foi o que o historiador disse. "Gratuíto" com acento no "í"! Havia necessidade?...
Eu, passando casualmente, arrepiaram-se-me os pêlos das pernas perante semelhante, e não resisti. Virei-me para trás e gritei: - É gratuito! Gratuito! A palavra gratuito não tem acento!...
Dois casais do grupo ouviram-me. Ficaram a rir-se de mim, do velho barbudo em calções e de mochila, que seguiu em frente e certamente é tolinho. A minha mãe continua a ter razão: estou sempre a destoar.

Agora. Gratuito é uma palavra grave e não leva acento gráfico. A sílaba tónica é constituída pelo ditongo ui. A pronúncia da palavra gratuito é, portanto, "gratúito" e não "gratuíto". Assim como se diz "fortúito" e não "fortuíto", "circúito" e não "circuíto", "intúito" e não "intuíto".
O bom Joel Cleto, que eu estimo, não está sozinho na gafe, infelizmente. Telejornais e noticiários radiofónicos abundam e redundam no erro, neste e noutros da mesma raça. A palavra rubrica, por exemplo, nunca se escreve com acento, mas lê-se sempre como palavra grave. A sílaba tónica é a penúltima, "bri". Isto é, e passo a fazer o desenho, diz-se sempre "rubríca", como se tivesse acento no i, e nunca "rúbrica", como se tivesse acento no u. Quer signifique assunto específico ou título de capítulo determinado, quer se refira a assinatura abreviada. É sempre rubrica, rubrica, rubrica. Dizendo-se sempre "rubríca", "rubríca", "rubríca".
E, já agora, é período que se diz e não "periúdo". Período, sempre, em todos os múltiplos significados da palavra, inclusive os mais íntimos. E diz-se medíocre, tal qual se escreve, e não "mediúcre". É medíocre.
O mesmo se aplica à palavra escrita "proíbido", mas ao contrário. "Proíbido" não existe, é proibido.

sábado, 20 de setembro de 2025

E os direitos de autor?

Pedro Duarte, que vai pelo PSD à Câmara do Porto, diz que Manuel Pizarro, que vai ao mesmo mas pelo PS, é um "candidato Remax". Foi numa entrevista ao jornal Público. Candidato Remax. A expressão até tem piada, mas não é original. Eu usei-a primeiro, aqui no Tarrenego!, nas autárquicas de 2021, e ninguém me bateu palmas.

domingo, 31 de agosto de 2025

De rapina, mas pouco

Foto Hernâni Von Doellinger

Saiu em todos os jornais e deu em todas as televisões. A Câmara de Matosinhos contratou duas águias para afastar as gaivotas daquele bocado de praia que vai desde a Anémona ao Paredão. Rico emprego. "Todos os dias, das 7h00 às 9h00 e, depois, das 17h00 às 21h00, até ao fim do Verão", diziam as notícias. Grande tanga!
Quer-se dizer. As águias lá andam diariamente dependuradas nos braços dos "tratadores", muito sossegadas, muito envergonhadas, passeando de uma ponta à outra do areal, de cu tremido, dando nas vistas como atracção turística, tirando fotos com os praieiros, espreguiçando as asas de vez em quando, calaceiras até mais não, mas vigiar gaivotas é que nada, afugentar gaivotas é que nada, afastar gaivotas é que nada, enxotar gaivotas é que nada. As gaivotas estão em casa, chegaram primeiro, dali não saem, dali ninguém as tira! Agora, na Praia de Matosinhos, são as gaivotas do costume mais duas águias, de visita, compinchas, em mansa confraternização, em amena cavaqueira, conversando talvez a respeito das eleições de 12 de Outubro.
As gaivotas riem-se e eu também. Eu sou pelas gaivotas.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Tourada em Fafe

Campo da Granja, 1963. Uma tourada que terá sido a primeira realizada em terras de Fafe e que, se não me engano, foi a única, até hoje, com touros. Fui lá com o meu vizinho Zé da SIF "ajudar" a instalar os altifalantes. O redondel não era assim tão redondo como o próprio nome poderia indicar: digamos que foi montada uma espécie de lua cheia fanada, cortada em linha recta na zona da bancada, que era para o excelentíssimo público poder estar em cima do acontecimento. Pronto. Lembram-se da bancada do Campo da Granja? Lembram-se sequer do Campo da Granja? Sabem onde era o Campo da Granja? Sabem ao menos o que era o Campo da Granja, para além da óbvia redundância? Ai a memória...
E era isto. Se, por causa do título e da lamentável agenda política local, pensavam que era outra coisa é porque confundem as prioridades da vida. Já agora: a tourada foi igualmente uma merda. E olé!...

P.S. (nem de propósito) - Escrevi e publiquei este texto no dia 7 de Outubro de 2013, mas hoje também está bem...

sábado, 25 de fevereiro de 2017

António Costa passa a fazer praia em Matosinhos

Foto Hernâni Von Doellinger

O primeiro-ministro António Costa veio em Dezembro a Matosinhos inaugurar o conjunto escultórico, assim lhe chamaram, de homenagem aos irmãos Passos - Manuel da Silva Passos, o tal Passos Manuel, e José da Silva Passos.
O primeiro-ministro António Costa veio hoje a Matosinhos visitar pela primeira vez, assim se disse, o Terminal de Cruzeiros de Leixões.
É. As próximas eleições autárquicas e o PS de Matosinhos, o tal saco de gatos, estão a dar muito trabalho ao primeiro-ministro António Costa.

E por mim falo: conto cá com o primeiro-ministro António Costa na procissão do Senhor de Matosinhos e na bênção ao mar do Mártir São Sebastião. Pelo menos...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Narciso entra na corrida à Câmara de Matosinhos

                                                                                                     Foto Hernâni Von Doellinger

Narciso Miranda anunciou hoje no jornal Público que no próximo mês de Fevereiro vai anunciar a sua candidatura à Câmara de Matosinhos. Também está bem.