João Ubaldo Ribeiro morreu no dia 18 de Julho de 2014, aos 73 anos. Nasceu na Baía, mas optou-se carioca. Autor de "Sargento Getúlio", "Viva o Povo Brasileiro", "O Sorriso do Lagarto" e "A Casa dos Budas Ditosos", entre outros tantos títulos igualmente notáveis, venceu o Prémio Camões 2008. O seu avô paterno era natural de Fafe, e Ubaldo considerava-se dos nossos. É, para todos os efeitos, um fafense excelentíssimo. "[Fafe] é efectivamente minha terra, pois terra dos meus ancestrais paternos, [uma terra] da qual, de certa forma, nunca saí", afirmou um dia o famoso escritor brasileiro. E eu, à pala, enchi-me de orgulho, esbordei de vaidade.
A esse respeito. Em 2008, no foguetório pós-Prémio Camões, a Câmara de Fafe, então presidida por José Ribeiro, prometeu "futuramente" uma rua ao nome de João Ubaldo Ribeiro e ao próprio, que teve a amabilidade de agradecer antecipadamente o rapapé a haver. Sinceramente, não sei se a autarquia fafense já cumpriu a promessa, passados apenas estes quinze anos, e nove anos após a morte de Ubaldo, hoje cumpridos. Isto é, eu procurei a rua e não a encontrei. Procurei rua, avenida, praça, praceta, alameda, travessa, viela, bairro, urbanização, rotunda, campo, jardim e até sala e auditório, mas nada! Melhor dizendo, encontrei realmente a Rua João Ubaldo Ribeiro, mas em Aracaju, no Brasil, que não me dá jeito nenhum. Estarei a procurar mal? Alguém me pode ajudar?
E entretanto aqui deixo este mimo do nosso João Ubaldo Ribeiro, tirado com todo o respeito de "Viva o Povo Brasileiro":
Quando os padres chegaram, declarou-se grande surto de milagres, portentos e ressurreições. Construíram a capela, fizeram a consagração e, no dia seguinte, o chão se abriu para engolir, um por um, todos os que consideraram aquela edificação uma atividade absurda e se recusaram a trabalhar nela. Levantaram as imagens nos altares e por muito tempo ninguém mais morria definitivamente, inclusive os velhos cansados e interessados em se finar logo de uma vez, até que todos começaram a protestar e já ninguém no Reino prestava atenção às cartas e crônicas em que os padres narravam os prodígios operados e testemunhados.
Deitava-se um velho morto ao pé da imagem e, depois de ela suar, sangrar ou demonstrar esforço igualmente estrênuo, o defunto, para grande aborrecimento seu e da família, principiava por ficar inquieto e terminava por voltar para casa vivo outra vez, muitíssimo desapontado. Assim, não se pode alegar que os padres só obtiveram êxitos, mas conseguiram bastante de útil e proveitoso, apesar de tudo isso haver piorado os sofrimentos da cabeça do caboco Capiroba.
De manhã, assim que o sol raiava, punham as mulheres em fila para que fossem à doutrina. Depois da doutrina das mulheres, que então eram arrebanhadas para aprender a tecer e fiar para fazer os panos com que agora enrolavam os corpos, seguia-se a doutrina dos homens, sabendo-se que mulheres e homens precisam de doutrinas diferentes. Na doutrina da manhã, contavam-se histórias loucas, envolvendo pessoas mortas de nomes exóticos.
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terça-feira, 18 de julho de 2023
quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
João Ubaldo Ribeiro 6
Quando os padres chegaram, declarou-se grande surto de milagres,
portentos e ressurreições. Construíram a capela, fizeram a consagração e, no dia
seguinte, o chão se abriu para engolir, um por um, todos os que consideraram
aquela edificação uma atividade absurda e se recusaram a trabalhar nela.
Levantaram as imagens nos altares e por muito tempo ninguém mais morria
definitivamente, inclusive os velhos cansados e interessados em se finar logo de
uma vez, até que todos começaram a protestar e já ninguém no Reino prestava
atenção às cartas e crônicas em que os padres narravam os prodígios operados e
testemunhados.
Deitava-se um velho morto ao pé da imagem e, depois de ela
suar, sangrar ou demonstrar esforço igualmente estrênuo, o defunto, para
grande aborrecimento seu e da família, principiava por ficar inquieto e
terminava por voltar para casa vivo outra vez, muitíssimo desapontado. Assim,
não se pode alegar que os padres só obtiveram êxitos, mas conseguiram
bastante de útil e proveitoso, apesar de tudo isso haver piorado os sofrimentos
da cabeça do caboco Capiroba.
De manhã, assim que o sol raiava, punham as
mulheres em fila para que fossem à doutrina. Depois da doutrina das mulheres,
que então eram arrebanhadas para aprender a tecer e fiar para fazer os panos
com que agora enrolavam os corpos, seguia-se a doutrina dos homens,
sabendo-se que mulheres e homens precisam de doutrinas diferentes. Na doutrina da manhã, contavam-se histórias loucas, envolvendo pessoas mortas de nomes exóticos.
"Viva o Povo Brasileiro", João Ubaldo Ribeiro
(João Ubaldo Ribeiro nasceu no dia 23 de Janeiro 1941. Morreu em 2014.)
terça-feira, 23 de janeiro de 2018
João Ubaldo Ribeiro 5
Amleto enterneceu-se, tremeu-lhe o queixo, andou para a mãe, tocou-lhe as mãos, quase a abraçou. Ah, senhora minha mãezinha, se pudesse abraçar-te e envolver-te em meus braços, era o que fazia agora! Ah, mãezinha, bem sabes quanto me dói também esta situação, pensas que não tenho sentimentos, que não choro à noite em pensar na minha mãezinha lá sozinha e eu sem poder nem sair à rua com ela! Se não fossem essas malditas negras tagarelas que aqui podem entrar a qualquer momento, ou algum dos meninos, que hoje é domingo e de nada se ocupam, se não fosse isso, cobrir-te-ia agora de beijos e afagos, bem sabes que o faria, adorada mãezinha! Mas não sabes, diz-me, diz-me, por caridade diz-me, não sabes que isto, esta horrível situação, é para o nosso próprio bem? Sabes nada, sempre parece que não sabes! Mas entendes, não entendes, mãezinha adorada? É para o nosso próprio bem, não sabes?
Sim, ela sabia e sabia também dos seus dele sofrimentos, pois lhe conhecia de sobra os bons sentimentos e não lhe ocorria um sequer defeito. Mas não poderia, talvez, assistir ao batizado, mesmo discretamente, à distância, sem se meter nas conversas, sem sair de seu lugar, apresentada talvez como uma ama-de-leite da infância dele, uma criada mais chegada, uma ama-seca ou governanta?
"Viva o Povo Brasileiro", João Ubaldo Ribeiro
(João Ubaldo Ribeiro nasceu no dia 23 de Janeiro 1941. Morreu em 2014.)
Sim, ela sabia e sabia também dos seus dele sofrimentos, pois lhe conhecia de sobra os bons sentimentos e não lhe ocorria um sequer defeito. Mas não poderia, talvez, assistir ao batizado, mesmo discretamente, à distância, sem se meter nas conversas, sem sair de seu lugar, apresentada talvez como uma ama-de-leite da infância dele, uma criada mais chegada, uma ama-seca ou governanta?
"Viva o Povo Brasileiro", João Ubaldo Ribeiro
(João Ubaldo Ribeiro nasceu no dia 23 de Janeiro 1941. Morreu em 2014.)
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
João Ubaldo Ribeiro 4
- Aqui a tem Vossa Excelência! - dissera o padreco, um desses velhos que não conseguem rir mesmo quando têm vontade, fazendo apenas uma caretinha débil e fibrilante, os lábios tremelicando como se temessem afastar-se um do outro durante mais que um segundo.
- Reverendíssimo! - respondera Amleto, que, poucos minutos antes, tinha relido, no topo da lista das providências: "Certidão Dutton". Tomou o papel, chegou a fazer-lhe um pequeno rasgão numa das margens, tal a avidez com que o desenrolou, leu em voz alta. - Amleto Henrique Nobre Ferreira-Dutton! Ferreira-Dutton! Não acho Vossa Reverendíssima que soa bem, soa muitíssimo bem?
O padre não respondeu, tentou sorrir outra vez, bateu delicadamente a bainha da manga direita contra os cantos da boca, para enxugar os filetinhos de baba que não paravam de lhe correr das comissuras dos lábios. Mas percebeu que o momento requeria um comentário menos desentusiasmado.
- Sim, sim, tem um belo som. Ferreira-Dupom!
- Não, não, Ferreira-Dutton. Dutton, Dutton, é um nome inglês, não sabe? Do meu pai, John Dutton, John Malcolm Dutton.
- Ah, sim, queira Vossa Excelência desculpar-me, julguei tratar-se de um apelido francês.
- Não, não, inglês. Meu pai era inglês, acho até que parente distante de uns ingleses que ainda têm negócios aqui. E minha mãe era Ferreira, dos Ferreiras de Viana do Castello.
- De Viana do Castello?
- Sim, sim. Vossa Reverendíssima também é de lá?
- Não, não, sou ribatejano.
- Ribatejano, hem? Fica distante, fica bem distante.
"Viva o Povo Brasileiro", João Ubaldo Ribeiro
(João Ubaldo Ribeiro nasceu no dia 23 de Janeiro 1941. Morreu em 2014.)
- Reverendíssimo! - respondera Amleto, que, poucos minutos antes, tinha relido, no topo da lista das providências: "Certidão Dutton". Tomou o papel, chegou a fazer-lhe um pequeno rasgão numa das margens, tal a avidez com que o desenrolou, leu em voz alta. - Amleto Henrique Nobre Ferreira-Dutton! Ferreira-Dutton! Não acho Vossa Reverendíssima que soa bem, soa muitíssimo bem?
O padre não respondeu, tentou sorrir outra vez, bateu delicadamente a bainha da manga direita contra os cantos da boca, para enxugar os filetinhos de baba que não paravam de lhe correr das comissuras dos lábios. Mas percebeu que o momento requeria um comentário menos desentusiasmado.
- Sim, sim, tem um belo som. Ferreira-Dupom!
- Não, não, Ferreira-Dutton. Dutton, Dutton, é um nome inglês, não sabe? Do meu pai, John Dutton, John Malcolm Dutton.
- Ah, sim, queira Vossa Excelência desculpar-me, julguei tratar-se de um apelido francês.
- Não, não, inglês. Meu pai era inglês, acho até que parente distante de uns ingleses que ainda têm negócios aqui. E minha mãe era Ferreira, dos Ferreiras de Viana do Castello.
- De Viana do Castello?
- Sim, sim. Vossa Reverendíssima também é de lá?
- Não, não, sou ribatejano.
- Ribatejano, hem? Fica distante, fica bem distante.
"Viva o Povo Brasileiro", João Ubaldo Ribeiro
(João Ubaldo Ribeiro nasceu no dia 23 de Janeiro 1941. Morreu em 2014.)
sexta-feira, 18 de julho de 2014
João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)
Choveu a semana toda e amanheceu um dia tão feio quanto os precedentes. Às cinco da manhã, antes de passar a meia hora costumeira trancado no gabinete diante de uma bacia esmaltada e de um gomil cheio de água alfazemada, areando os dentes e lavando a cabeça, que havia atravessado a noite untada por uma camada espessa de caldo de babosa embaixo da touca para amaciar o cabelo, Amleto Ferreira entreabriu a janela e inspecionou seu jardim com desagrado. Quase sempre escuro sob a fronde emaranhada das árvores, que cobria uma conglomeração cerrada de folhas e ramagens de plantas baixas, o jardim estava ainda mais penumbroso, uma floresta gotejante, grandes bagos de chuva esparrinhando a água dos tanquinhos, onde até mesmo os uapés, as ervas-de-santa-luzia, as damas-do-lago, as jaçanãs, as jipiocas retorcidas como novelos de sucuris e as outras vegetações da água estavam excessivamente molhadas, afogadas na molúria que tornava tudo úmido, escorregadio e lamacento. O martelo contínuo de gotas gordas pingadas das favas dos ingazeiros, sobre as folhas ressonantes dos crótons, cocós e taiobas, reiterava uma espécie de desesperança monótona a um dia que devia ser de festa, e somente as maravilhas, os musgos, os limos, as brilhantinas e demais seres que medram na obscuridade encharcada é que não pareciam mangrados e tristes como as outras plantas. Mundo madefato e sem brilho, em que o colorido das folhagens lembrava adornos de funeral, mundo que trouxe a Amleto um ressentimento redobrado. Decidiu sair para ver o que prometia o tempo, embora não acreditasse que fosse melhorar. Enrolou-se num roupão, agasalhou o pescoço com uma manta de crochê, pôs um barrete na cabeça para não resfriar-se, abriu a porta dos fundos do gabinete, desceu os dois batentes procurando não escorregar, pisou com gosto na alfombra de grama e plantinhas rasteiras, sentiu o pé afundar-se na terra empapada. Não chovia mais, apenas os pingos das árvores continuavam a despencar, às vezes como rajadas de chuva, quando uma lufada agitava as copas. Amleto teve um arrepio de frio, temeu constipar-se, mas assim mesmo resolveu ir até o portão de ferro que dava para o Rosário, para olhar melhor o horizonte e avaliar o clima.
"Viva o Povo Brasileiro", João Ubaldo Ribeiro
(João Ubaldo Ribeiro morreu hoje. Tinha 73 anos e era, se me dão licença, um fafense.)
"Viva o Povo Brasileiro", João Ubaldo Ribeiro
(João Ubaldo Ribeiro morreu hoje. Tinha 73 anos e era, se me dão licença, um fafense.)
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