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domingo, 16 de maio de 2021

Ronald de Carvalho 8

Epigrama
 
Enche o teu copo, bebe o teu vinho,
enquanto a taça não cai das tuas mãos...
Há salteadores amáveis pelo teu caminho.
Repara como é doce o teu vizinho,
repara como é suave o olhar do teu vizinho,
e como são longas, discretas, as suas mãos...
 
Ronald de Carvalho 

(Ronald de Carvalho nasceu no dia 16 de Maio de 1893. Morreu em 1935.)

sábado, 16 de maio de 2020

Ronald de Carvalho 7

Écloga tropical 

Entre a chuva de ouro das carambolas
e o veludo polido das jabuticabas,
sobre o gramado morno,
onde voam borboletas e besouros,
sobre o gramado lustroso
onde pulam gafanhotos de asas verdes e vermelhas,


Salta uma ronda de crianças!
O ar é todo perfume,
perfume tépido de ervas, raízes e folhagens.


O ar cheira a mel de abelhas...

E há nos olhos castanhos das crianças
a doçura e o travor das resinas selvagens,
e há nas suas vozes agudas e dissonantes
um áureo rumor de flautas, de trilos, de zumbidos
e de águas buliçosas...


"Epigramas Irônicos e Sentimentais", Ronald de Carvalho 

(Ronald de Carvalho nasceu no dia 16 de Maio de 1893. Morreu em 1935.)

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Ronald de Carvalho 6

Filosofia 

A realidade é apenas
um milagre da nossa fantasia...

Transforma numa Eternidade
o teu rápido instante de alegria!
Ama, chora, sorri... e dormirás sem penas,
porque foi bela a tua realidade.


"O Espelho de Ariel", Ronald de Carvalho  

(Ronald de Carvalho nasceu no dia 16 de Maio de 1893. Morreu em 1935.)

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Ronald de Carvalho 5

Epigrama

Enche o teu copo, bebe o teu vinho,
enquanto a taça não cai das tuas mãos…


Há salteadores amáveis pelo teu caminho.
Repara como é doce o teu vizinho,
repara como é suave o olhar do teu vizinho,


e como são longas, discretas, as suas mãos…


Ronald de Carvalho

 
(Ronald de Carvalho nasceu no dia 16 de Maio de 1893. Morreu em 1935.)

terça-feira, 16 de maio de 2017

Ronald de Carvalho 4

O mercado de prata, de ouro, de esmeralda

Cheira a mar! cheira a mar!
As redes pesadas batem como asas,
As redes úmidas palpitam no crepúsculo.
A praia lisa é uma cintilação de escamas.

Pulam raias negras no ouro da areia molhada,
O aço das tainhas faísca em mãos de ébano e bronze.
Músculos, barbatanas, vozes e estrondos, tudo se mistura,
Tudo se mistura no criar da espuma que ferve nas pedras.

Cheira a mar!

O corno da lua nova brinca na crista da onda.
E entre as algas moles e os peludos mariscos,
Onde se arrastam caranguejos de patas denticuladas
E onde bole o óleo gelatinoso das lulas flexíveis,
Diante de rede imensa na noite carregada de estrelas,
Na livre melodia das águas e do espaço,
Entupido de ar, profético, timpânico,
Estoura orgulhosamente o papo dum baiacu...


"Jogos Pueris", Ronald de Carvalho

(Ronald de Carvalho nasceu no dia 16 de Maio de 1893. Morreu em 1935.)

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Ronald de Carvalho 3

O canto que me ensinaste 

O canto que me ensinaste foi virgem e livre:
todas as águas balançaram nele,
todos os ventos murmuraram nele,
todos os perfumes se impregnaram nele.

Foi como um voo,
foi como um voo longo, longo,
um voo todo verde no teu sol todo de ouro, no teu ar todo azul;
o canto virgem, o canto livre que me ensinaste.

"Jogos Pueris", Ronald de Carvalho

(Ronald de Carvalho nasceu no dia 16 de Maio de 1893. Morreu em 1935.)

sábado, 16 de maio de 2015

Ronald de Carvalho 2

Sabedoria
 

Enquanto disputam os doutores gravemente
sobre a natureza
do bem e do mal, do erro e da verdade,
do consciente e do inconsciente;
enquanto disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o momento!


Faze da tua realidade
uma obra de beleza


Só uma vez amadurece,
efêmero imprudente,
o cacho de uvas que o acaso te oferece…


"Epigramas Irônicos e Sentimentais", Ronald de Carvalho

(Ronald de Carvalho nasceu no dia 16 de Maio de 1893. Morreu em 1935.)

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Ronald de Carvalho

... E o veleiro partiu... para os longes, no Poente,
e o cais, poeirento e bom, ficou triste e vazio...
- A Saudade da luz e a Saudade da gente,
A invernia do olhar, e os nervos sem estio -

E eu me deixei ficar, contemplativamente,
olhos cheios de Sol, de outro flavo e sadio...
- Na fluida limpidez da tarde transparente
Setembro havia posto um colorido frio...

E o veleiro partiu, de velas soltas, no alto,
para a glória do Mar, na paisagem violeta
do Outono, entre calhaus e cimos de basalto...

E, com ele, foi, também, panda, num desvario
de asas brancas, para o ar, uma última goleta...
- E o cais, poeirento e bom, ficou triste e vazio...

"Os Sonetos Íntimos", em "Luz Gloriosa", Ronald de Carvalho

(Ronald de Carvalho nasceu no dia 16 de Maio de 1893. Morreu em 1935.)