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segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Ary dos Santos 10

Poeta castrado, não! 

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lanzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!


"Resumo", Ary dos Santos

(Ary dos Santos nasceu no dia 7 de Dezembro de 1936. Morreu no dia 18 de Janeiro de 1984.) 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Ary dos Santos 6

O poema original

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.


"Resumo", Ary dos Santos

(Ary dos Santos nasceu no dia 7 de Dezembro de 1936. Morreu em 1984.)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Ary dos Santos 3

Meu camarada e amigo

Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo

As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.

É por dentro desta selva
desta raiva deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.

Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.

Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
- mas um poeta só fala
por sofrimento total!

Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é que eu sofro o meu país.


"Resumo", Ary dos Santos

(Ary dos Santos nasceu no dia 7 de Dezembro de 1936. Morreu em 1984.)

domingo, 7 de dezembro de 2014

Ary dos Santos 2

O poema original

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos    quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

 
"Resumo", Ary dos Santos 


(Ary dos Santos nasceu no dia 7 de Dezembro de 1936. Morreu em 1984.)

sábado, 7 de dezembro de 2013

Ary dos Santos

Soneto presente

Não me digam mais nada   senão morro
aqui   neste lugar   dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer   eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo   os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.
 

"Resumo", J. C. Ary dos Santos

(Ary dos Santos nasceu no dia 7 de Dezembro de 1936. Morreu em 1984.)

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A propósito de um tal 25 de Abril

Foto Hernâni Von Doellinger

O turismo

Visitar este país
até à última gota:

o porco e o Porto
a bola e a bolota
O que é como quem diz
itinerar a derrota.

Tudo tem lugar no mapa
Paris, Washington, Moscovo
Em Itália vê-se o papa

em Lisboa vê-se o povo.

Welcome Bienvenus Salud Willkommen Viva

A sífilis saúda-vos
saúda-vos a estiva
desta carga de heróis em carne viva
nociva mas barata

Vindes matar a sede com uva
beber o sumo de ócio que nos mata.

Desemborcais nos cais
Desembolsais de mais
mas não sabeis
as coisas viscerais
as coisas principais
deste país azul
com mais hotéis do que hospitais
talvez por ser ao sol
talvez por ser ao sul.

Aqui ao pé do mar

bordamos a tristeza
as toalhas de mão
as toalhas de mesa
que levais para casa
Souvenir
deste povo sem pão
que se cose a sorrir.

Aqui ao pé do rio

gememos a saudade
nosso fado submisso
nossa água a correr.

Canção de mal devir
Souvenir Souvenir
deste povo de trégua
que se canta a morrer.

Aqui ao pé do vento

forjamos o lamento
dum país que se vende a peso nos prospectos
tanto de sol ardente
tanto de cal fervente
e uma nódoa de céu nos xailes pretos.

Aqui ao pé do fel

gritamos o segredo
do que parece fácil neste país de luz:
é apenas a fome.
É apenas o medo.
É apenas o sangue.
É apenas o pus.


"Resumo", Ary dos Santos