As mãos e as mãos
A polpa secreta
Das tuas mãos
Espero-a inteira
Espero-a inteira
Como frutos à beira
Da fome de alguém
Espero-a inteira
Nesta fome que vem
Só das tuas para as minhas mãos
Minhas mãos geladas
Minhas mãos suadas
Em rebentos de cada esforço
Descarnadas mãos
De que já riu a ferrugem das grades
Minhas mãos abertas para que creias
Mãos suadas e novamente suadas
Mãos capazes de enxertar veias
A polpa secreta
Das tuas mãos
Espero-a inteira inteira
"Cancioneiro Geral", Orlando da Costa
(Orlando da Costa nasceu no dia 2 de Julho de 1929. Morreu em 2006.)
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quinta-feira, 2 de julho de 2020
terça-feira, 2 de julho de 2019
Orlando da Costa 3
Poema de Orlando da Costa para Maria Lamas
Porque trazes na voz a voz das companheiras
Companheira te chamamos
Porque no teu olhar se alargam os olhos que semeiam e vigiam
o sol a todas as alturas, o sol dos meninos e das colheitas
Porque nele se tornam mais límpidos os olhos das namoradas
Companheira te chamamos
Porque nele gelam as lágrimas do medo e da dor
Gelam e estalam desfeitas num pranto de calor
Porque nos teus olhos continuam acesos os olhos vendados de encontro às paredes
Porque trazes no peito o sopro das nossas irmãs
O sopro resoluto do trabalho, o verde e dourado sopro que branqueia o pão
O sopro das que amam
E amando crescem e envelhecem ao nosso lado
Das que amam
E amando tombam em cada dia num só momento por milhões partilhado
Porque caminhas na terra dividida
Por uma estrada aberta pelo esforço dos povos
Onde cada presença é um apelo e cada apelo uma conquista
Porque até o sol remoça na neve tranquila dos teus cabelos
E o vento sopra-te com a mesma força que a nós
Companheira te chamamos
Porque as palavras na tua boca
Têm a medida do mundo e a face dos mortais
Porque no teu ventre a fome e a vida se completam
Porque no teu rosto fala o tempo até nós
Mãe te chamaríamos
Companheira te chamamos
"Sete Odes do Canto Comum", Orlando da Costa
(Orlando da Costa nasceu no dia 2 de Julho de 1929. Morreu em 2006.)
Porque trazes na voz a voz das companheiras
Companheira te chamamos
Porque no teu olhar se alargam os olhos que semeiam e vigiam
o sol a todas as alturas, o sol dos meninos e das colheitas
Porque nele se tornam mais límpidos os olhos das namoradas
Companheira te chamamos
Porque nele gelam as lágrimas do medo e da dor
Gelam e estalam desfeitas num pranto de calor
Porque nos teus olhos continuam acesos os olhos vendados de encontro às paredes
Porque trazes no peito o sopro das nossas irmãs
O sopro resoluto do trabalho, o verde e dourado sopro que branqueia o pão
O sopro das que amam
E amando crescem e envelhecem ao nosso lado
Das que amam
E amando tombam em cada dia num só momento por milhões partilhado
Porque caminhas na terra dividida
Por uma estrada aberta pelo esforço dos povos
Onde cada presença é um apelo e cada apelo uma conquista
Porque até o sol remoça na neve tranquila dos teus cabelos
E o vento sopra-te com a mesma força que a nós
Companheira te chamamos
Porque as palavras na tua boca
Têm a medida do mundo e a face dos mortais
Porque no teu ventre a fome e a vida se completam
Porque no teu rosto fala o tempo até nós
Mãe te chamaríamos
Companheira te chamamos
"Sete Odes do Canto Comum", Orlando da Costa
(Orlando da Costa nasceu no dia 2 de Julho de 1929. Morreu em 2006.)
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Sete Odes do Canto Comum
segunda-feira, 2 de julho de 2018
Orlando da Costa 2
Trago nas mãos o calor
Trago nas mãos o calor
Que deponho a cada instante
No teu rosto que aspira a primavera que se pisa no chão
E espera o outono das folhas e dos caminhos
E desce comigo ao sabor
Que à terra dá cada breve estação
Trago-te o calor e as mãos inteiras
E nos olhos o horizonte dos nevoeiros no enredo das florestas
Das vinhas colhidas pelos amantes reunidos à beira das manhãs
E dos barcos e das pombas em planícies sem trincheiras
Trago para nós a largura das terras e do mar
Onde se perpetue o amor dos homens
Na paz de cada olhar.
"Os Olhos sem Fronteira", Orlando da Costa
(Orlando da Costa nasceu no dia 2 de Julho de 1929. Morreu em 2006.)
Trago nas mãos o calor
Que deponho a cada instante
No teu rosto que aspira a primavera que se pisa no chão
E espera o outono das folhas e dos caminhos
E desce comigo ao sabor
Que à terra dá cada breve estação
Trago-te o calor e as mãos inteiras
E nos olhos o horizonte dos nevoeiros no enredo das florestas
Das vinhas colhidas pelos amantes reunidos à beira das manhãs
E dos barcos e das pombas em planícies sem trincheiras
Trago para nós a largura das terras e do mar
Onde se perpetue o amor dos homens
Na paz de cada olhar.
"Os Olhos sem Fronteira", Orlando da Costa
(Orlando da Costa nasceu no dia 2 de Julho de 1929. Morreu em 2006.)
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domingo, 2 de julho de 2017
Orlando da Costa
Canto civil 1
Este é o meu canto civil
canto cívico graduado
desde um tempo antigo que vivi
entre poemas de aço camuflados e algemas de silêncio
Esse era o tempo do assalto às casernas
mas já então eu escrevia o que devia:
a cartilha da guerrilha do amor e da paz
para ser ensinada à luz das lanternas
nas escolas nas igrejas na parada dos quartéis
Este é o meu canto civil
canto cívico desfardado
escrito a vinte e oito de Abril
do ano passado à noite
de punho cerrado com alegria e sem espanto
canto para ser cantado de dia
por todos por muitos por mim ou por ninguém:
Soldado raso
ao cimo da calçada
em guarda
de flor e farda
a flor que te damos
é pão da madrugada
É pão amassado
sem liberdade
é gesto de guerra
em nome da paz.
É flor de canção
em terra mar e ar
rubra flor popular
num só cano de espingarda
Soldado raso
em sentido na memória
lembra-te de novo e sempre
a flor que te damos
é da terra é do povo
é pão da madrugada.
Orlando da Costa
(Orlando da Costa nasceu no dia 2 de Julho de 1929. Morreu em 2006.)
Este é o meu canto civil
canto cívico graduado
desde um tempo antigo que vivi
entre poemas de aço camuflados e algemas de silêncio
Esse era o tempo do assalto às casernas
mas já então eu escrevia o que devia:
a cartilha da guerrilha do amor e da paz
para ser ensinada à luz das lanternas
nas escolas nas igrejas na parada dos quartéis
Este é o meu canto civil
canto cívico desfardado
escrito a vinte e oito de Abril
do ano passado à noite
de punho cerrado com alegria e sem espanto
canto para ser cantado de dia
por todos por muitos por mim ou por ninguém:
Soldado raso
ao cimo da calçada
em guarda
de flor e farda
a flor que te damos
é pão da madrugada
É pão amassado
sem liberdade
é gesto de guerra
em nome da paz.
É flor de canção
em terra mar e ar
rubra flor popular
num só cano de espingarda
Soldado raso
em sentido na memória
lembra-te de novo e sempre
a flor que te damos
é da terra é do povo
é pão da madrugada.
Orlando da Costa
(Orlando da Costa nasceu no dia 2 de Julho de 1929. Morreu em 2006.)
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