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domingo, 18 de abril de 2021

Monteiro Lobato 7

Ao luar

Como reconhecer a flor da cerejeira?
Deixando-nos guiar pelo seu perfume.

Céu de outono e coração de mulher
se assemelham;
Em uma noite um e outro
Mudam sete vezes.

Monteiro Lobato

(Monteiro Lobato nasceu no dia 18 de Abril de 1882. Morreu em 1948.)

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Monteiro Lobato 6

Mal se sumiram, Aldrovando abancou-se à velha mesinha de trabalho e deu começo à tarefa de lançar dedicatórias num certo número de exemplares destinados à crítica. Abriu o primeiro, e estava já a escrever o nome de Rui Barbosa, quando seus olhos deram com a horrenda cinca: "Daquele que sabe-me as dores".- Deus do Céu! Será possível?!
Era possível. Era fato. Naquele, como em todos os exemplares da edição, lá estava, no hediondo relevo da dedicatória a Frei Luís de Sousa, o horripilantíssimo "que sabe-me"...
Aldrovando não murmurou palavra. De olhos muito abertos, no rosto uma estranha marca de dor - dor gramatical, inda não descrita nos livros de patologia - permaneceu imóvel uns momentos.
Depois, empalideceu. Levou as mãos ao abdômen e estorceu-se nas garras de repentina e violentíssima ânsia. Ergueu os olhos para Frei Luís de Sousa e murmurou:
- Luís! Luís! Lamma sabachtani!
E morreu.
De quê? Não sabemos, nem importa ao caso. O que importa é proclamarmos aos quatro ventos que com Aldrovando morreu o primeiro santo da gramática, o mártir número um da colocação dos pronomes.
Paz à sua alma.

"O colocador de pronomes", Monteiro Lobato

(Monteiro Lobato nasceu no dia 18 de Abril de 1882. Morreu em 1948.) 

terça-feira, 18 de abril de 2017

Monteiro Lobato 5

Emília estava na sala de Dona Benta, mexendo nos livros. Seu gosto era descobrir novidades - livros de figura. Mas como fosse muito pequenina, só alcançava os da prateleira debaixo. Para alcançar os da segunda, tinha de trepar numa cadeira. E os da terceira e quarta, esses ela via com os olhos e lambia com a testa. Por isso mesmo eram os que mais a interessavam. Sobretudo uns enormes.
Uma vez a pestinha fez o Visconde levar para lá uma escada - certa vez em que Dona Benta e os netos haviam saído de visita ao compadre Teodorico.
Foi um trabalho enorme levar para lá a escadinha. O coitado do Visconde suou, porque Emília, embora o ajudasse, ajudava-o cavorteiramente, fazendo que todo o peso ficasse do lado dele. Afinal a escada foi posta junto à estante, e Emília trepou.
- Segure bem firme, Visconde - disse ela ao chegar ao meio. - Se a escada escorregar e eu cair V. Exa. me paga.
- Não tenha nenhum receio, Senhora Marquesa. Estou aqui agarrado nos pés da bicha como uma verdadeira raiz de árvore. Suba sossegada.
Emília subiu. Alcançou os livrões e pôde ler o título. Era o Dom Quixote de la Mancha, em dois volumes enormíssimos e pesadíssimos. Por mais que ela fizesse não conseguiu nem movê-los do lugar.
- Visconde - disse a travessa criatura, limpando o suorzinho que lhe pingava da testa -, parece que estes livros criaram raiz. Sem enxada não vai. Temos de arrancá-los como se arranca árvore. Vá buscar uma enxada.

"Dom Quixote das Crianças", Monteiro Lobato

(Monteiro Lobato nasceu no dia 18 de Abril de 1882. Morreu em 1948.) 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Monteiro Lobato 4

Aldrovando Cantagalo veio ao mundo em virtude dum erro de gramática. Durante sessenta anos de vida terrena pererecou como um peru em cima da gramática. E morreu, afinal, vítima dum novo erro de gramática.
Mártir da gramática, fique este documento da sua vida como pedra angular para uma futura e bem merecida canonização.
Havia em Itaoca um pobre moço que definhava de tédio no fundo de um cartório. Escrevente. Vinte e três anos. Magro. Ar um tanto palerma. Ledor de versos lacrimogêneos e pai duns acrósticos dados à luz no "Itaoquense", com bastante sucesso.
Vivia em paz com as suas certidões quando o frechou venenosa seta de Cupido. Objeto amado: a filha mais moça do coronel Triburtino, o qual tinha duas, essa Laurinha, do escrevente, então nos dezessete, e a do Carmo, encalhe da família, vesga, madurota, histérica, manca da perna esquerda e um tanto aluada.
Triburtino não era homem de brincadeira. Esgoelara um vereador oposicionista em plena sessão da Câmara e desde aí se transformou no tutu da terra. Toda a gente lhe tinha um vago medo; mas o amor, que é mais forte que a morte, não receia sobrecenhos enfarruscados, nem tufos de cabelos no nariz.

"O colocador de pronomes", Monteiro Lobato

(Monteiro Lobato nasceu no dia 18 de Abril de 1882. Morreu em 1948.) 

sábado, 18 de abril de 2015

Monteiro Lobato 3

Manuelita Rosas, a filha única de Don Juan Manuel Ortiz de Rosas, esse homem de gênio, o mais belo, o mais forte, o mais hábil do seu tempo na América (para nós ainda hoje apenas o "tirano Rozas", com "z", da História do Brasil com "z", de Lacerda), foi um caso notável de reequilíbrio biológico. De Vries, Mendel e outros entendidos em hereditariedade veriam nele uma resultante lógica do ardente punzó materno e do frio azul paterno, formando o mais suave e tranqüilo lilás, graças a um salto regressivo aos avós, Dona Agustina e Don Léon, tipos de fidalgos do século dezoito.
Para definir o caráter e a finura destes ancestrais basta um trecho de carta do pai ao filho, reeleito para uma função governativa: "Amado filho, é de necessidade que venhas ver tua mãe e trates com teus melhores meios de desimpressioná-la dos efeitos que tem causado em sua imaginação a notícia da tua reeleição para o governo. Seus suspiros contínuos me cortam a alma"...
É um "nec plus ultra" de finura século dezoito, suspirar a velha porque o filho subiu ao governo, e alegar o velho, como razão decisiva, esses suspiros que lhe traspassavam a alma...

"Na Antevéspera", Monteiro Lobato 

(Monteiro Lobato nasceu no dia 18 de Abril de 1882. Morreu em 1948.) 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Monteiro Lobato 2

Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.
Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.
Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma - "dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral", dizia o reverendo.
Ótima, a dona Inácia.
Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:

- Quem é a peste que está chorando aí?
Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero.
- Cale a boca, diabo!
No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer...
Assim cresceu Negrinha - magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.
- Sentadinha aí, e bico, hein?


"Negrinha", Monteiro Lobato

(Monteiro Lobato nasceu no dia 18 de Abril de 1882. Morreu em 1948.)

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Monteiro Lobato

- A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais. É, portanto, um pisca-pisca.
O Visconde ficou novamente pensativo, de olhos no teto.
Emília riu-se.
- Está vendo como é filosófica a minha ideia? O Senhor Visconde já está de olhos parados, erguidos para o forro. Quer dizer que pensa que entendeu... A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim, pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre - perguntou o Visconde.
- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?


"Memórias da Emília", Monteiro Lobato 

(Monteiro Lobato nasceu no dia 18 de Abril de 1882. Morreu em 1948.)