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quarta-feira, 18 de abril de 2018

Monteiro Lobato 6

Mal se sumiram, Aldrovando abancou-se à velha mesinha de trabalho e deu começo à tarefa de lançar dedicatórias num certo número de exemplares destinados à crítica. Abriu o primeiro, e estava já a escrever o nome de Rui Barbosa, quando seus olhos deram com a horrenda cinca: "Daquele que sabe-me as dores".- Deus do Céu! Será possível?!
Era possível. Era fato. Naquele, como em todos os exemplares da edição, lá estava, no hediondo relevo da dedicatória a Frei Luís de Sousa, o horripilantíssimo "que sabe-me"...
Aldrovando não murmurou palavra. De olhos muito abertos, no rosto uma estranha marca de dor - dor gramatical, inda não descrita nos livros de patologia - permaneceu imóvel uns momentos.
Depois, empalideceu. Levou as mãos ao abdômen e estorceu-se nas garras de repentina e violentíssima ânsia. Ergueu os olhos para Frei Luís de Sousa e murmurou:
- Luís! Luís! Lamma sabachtani!
E morreu.
De quê? Não sabemos, nem importa ao caso. O que importa é proclamarmos aos quatro ventos que com Aldrovando morreu o primeiro santo da gramática, o mártir número um da colocação dos pronomes.
Paz à sua alma.

"O colocador de pronomes", Monteiro Lobato

(Monteiro Lobato nasceu no dia 18 de Abril de 1882. Morreu em 1948.) 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Monteiro Lobato 4

Aldrovando Cantagalo veio ao mundo em virtude dum erro de gramática. Durante sessenta anos de vida terrena pererecou como um peru em cima da gramática. E morreu, afinal, vítima dum novo erro de gramática.
Mártir da gramática, fique este documento da sua vida como pedra angular para uma futura e bem merecida canonização.
Havia em Itaoca um pobre moço que definhava de tédio no fundo de um cartório. Escrevente. Vinte e três anos. Magro. Ar um tanto palerma. Ledor de versos lacrimogêneos e pai duns acrósticos dados à luz no "Itaoquense", com bastante sucesso.
Vivia em paz com as suas certidões quando o frechou venenosa seta de Cupido. Objeto amado: a filha mais moça do coronel Triburtino, o qual tinha duas, essa Laurinha, do escrevente, então nos dezessete, e a do Carmo, encalhe da família, vesga, madurota, histérica, manca da perna esquerda e um tanto aluada.
Triburtino não era homem de brincadeira. Esgoelara um vereador oposicionista em plena sessão da Câmara e desde aí se transformou no tutu da terra. Toda a gente lhe tinha um vago medo; mas o amor, que é mais forte que a morte, não receia sobrecenhos enfarruscados, nem tufos de cabelos no nariz.

"O colocador de pronomes", Monteiro Lobato

(Monteiro Lobato nasceu no dia 18 de Abril de 1882. Morreu em 1948.)