Era ousado demais, todo o seu corpo tremia e a boca estava seca. Uma sensação que doía, cheia de agulhas. Até os olhos, belos olhos, muito abertos, pareciam picar. Observando dali do portão de Embarque, o campo de pouso parecia ainda maior, um mundo. Já tinha ido até lá outras vezes, mas só para estudar as possibilidades. Desta, não. Trouxera até a valise com algumas roupas. Mesmo correndo risco de fracasso, tentaria. Meu Senhor do Bonfim!
O aeroporto estava movimentado aquela manhã. Muita gente chegava e mais gente ainda embarcava. O maior tráfego era para o Rio de Janeiro e São Paulo. Homens portando maletas pretas, provavelmente viajando a negócios para outros Estados, casais felizes em suas elegantes roupas de viagem e famílias inteiras, ruidosas, preocupadas com o despacho de malas. Jornalistas entrevistavam e fotografavam um senhor de ares importantes. Devia ser político.
"Um Rosto no Computador", Marcos Rey
(Marcos Rey nasceu no dia 17 de Fevereiro de 1925. Morreu em 1999.)
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domingo, 17 de fevereiro de 2019
sábado, 17 de fevereiro de 2018
Marcos Rey 2
Fácil lembrar. A cena ficara impressa na memória de Muriçoca como um teipe de televisão que se pode rever muitas vezes, mas não conseguia, com desembaraço, transformá-la em palavras. Era um frevo saltitante, gostoso. Lembrava-o Pernambuco, sua terra. Quem sabe um coestaduano, vigia do prédio, desse-lhe uma colher de chá. Como dissera ao delegado, estava sempre tentando. Aspirando forte cheiro de cal, galgou os degraus, não revestidos, de uma escada. Chegou ao primeiro andar. Não viu ninguém. Orientado pela música - agora era um xaxado -, dirigiu-se a um apartamento ainda sem porta. Viu-se numa sala onde se acumulavam sacos de cimento e outros materiais de construção. Parou e bateu palmas. Nenhuma resposta.
"Um Cadáver Ouve Rádio", Marcos Rey
(Marcos Rey nasceu no dia 17 de Fevereiro de 1925. Morreu em 1999.)
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
Marcos Rey
Foi mais ou menos assim que o pequeno Muriçoca, pálido, trêmulo, gaguejando, contou ao delegado distrital, doutor Arruda, depois de tomar um copo de água numa única e febril virada:
- Parei na entrada da construção por causa da chuva. Fiquei lá um tempo e então subi as escadas.
- Por que subiu?
- À procura de emprego, doutor. Estou sempre tentando.
- Você mora numa casa de cômodos perto da obra. Não sabia que está paralisada há muito tempo?
A pergunta agiu como uma prensa: hesitante, Muriçoca pareceu ainda menor e mais desamparado na delegacia. Olhou para o copo vazio sobre a mesa, suplicando mais água. Aquilo era medo.
- Sabia ou não sabia? - exigiu Lima, o investigador que acompanhava o depoimento.
- Sabia - confirmou o rapaz, juntando os punhos, culposamente à espera das algemas.
- Para que então pretendia pedir emprego numa obra abandonada? - perguntou o delegado.
- Ouvi um rádio lá em cima.
"Um Cadáver Ouve Rádio", Marcos Rey
(Marcos Rey, pseudónimo de Edmundo Donato, nasceu no dia 17 de Fevereiro de 1925. Morreu em 1999.)
- Parei na entrada da construção por causa da chuva. Fiquei lá um tempo e então subi as escadas.
- Por que subiu?
- À procura de emprego, doutor. Estou sempre tentando.
- Você mora numa casa de cômodos perto da obra. Não sabia que está paralisada há muito tempo?
A pergunta agiu como uma prensa: hesitante, Muriçoca pareceu ainda menor e mais desamparado na delegacia. Olhou para o copo vazio sobre a mesa, suplicando mais água. Aquilo era medo.
- Sabia ou não sabia? - exigiu Lima, o investigador que acompanhava o depoimento.
- Sabia - confirmou o rapaz, juntando os punhos, culposamente à espera das algemas.
- Para que então pretendia pedir emprego numa obra abandonada? - perguntou o delegado.
- Ouvi um rádio lá em cima.
"Um Cadáver Ouve Rádio", Marcos Rey
(Marcos Rey, pseudónimo de Edmundo Donato, nasceu no dia 17 de Fevereiro de 1925. Morreu em 1999.)
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