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segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Leon Eliachar 5

Um nome qualquer

Encontraram-se depois de mais de dez anos:
- Afonso!
- Hermenegildo!
Abraçaram-se três vezes seguidas, como fazem todos os que não se vêem há muito tempo:
- Lembra-se do Rogério?
- Lembro.
- Morreu a semana passada.
- Coitado.
Conversaram a mesma conversa que conversam os que não se vêem há muito tempo:
- Que tens feito?
- Lutando.  E você?
- Levando a vida.
Quando deram por si, estavam tomando cafezinho em pé, como fazem sempre os que não se vêem há muito tempo:
- Você está mais gordo.
- E você, mais magro.
Foram andando, parando, relembrando incidentes pitorescos, como fazem todos os que não se vêem há muito tempo:
- E aquele mergulho no rio, atrás do internato, lembra-se?
- Se me lembro, quase você morre afogado.
-  foi você quem me salvou, nunca esqueci.
Pararam num ponto de ônibus pra se despedir, ficaram batendo papo mais de meia-hora, como fazem todos os que não se vêem há muito tempo:
- Você casou?
- Casei. E você?
- Mais ou menos. Estou com uma zinha aí mas ela é casada.
- Você nunca quis nada com o casamento, hein, malandro?
- Com essa até que eu casava.
-- Como ela é?
-- Baixotinha, gordota, tem um sinalzinho no rosto, mas eu gosto dela assim mesmo.
Afonso ficou apreensivo:
- Como é o nome dela?
- Cláudia.
Afonso ficou mais curioso:
- Ela tem filhos?
- Dois. Um menino de quatro e uma menina de três.
Afonso só faltou pedir o retrato pra ver, mas não teve coragem. Apressou a despedida:
- Bem, tenho de ir andando, estou atrasadíssimo.
Tomou o ônibus, foi direto para casa. No caminho, foi pensando: "Cláudia... dois filhos... um menino de quatro... uma menina de três... baixotinha... gordota... um sinalzinho no rosto..." era muita coincidência. Quando entrou em casa, só faltou arrancar a porta. Lá estava a mulher no meio da sala, com os dois filhos, baixotinha, gordota, com um sorriso na cara deste tamanho:
- Chegou cedo hoje, hein, Afonso?
Ele estava tremendo de ponta a ponta, quando perguntou:
- Diz depressa o nome de um homem.
- Como?
- Depressa, diz um nome de homem. Um nome qualquer.
Ela nem teve tempo de pensar:
- Hermenegildo.
Ele chegou a cambalear, foi preciso segurar no vão da porta:
- Quem diria, hein?
Sua mulher não entendia nada:
- Mas o que foi, Afonso?  Está sentindo alguma coisa?
Ele foi categórico:
- Estou sim.
- Está sentindo o quê?
Ele arreganhou os dentes:
- Estou sentindo ódio de mim mesmo, por ter salvo aquele desgraçado. Devia ter deixado ele morrer afogado.
Cláudia caiu de bruços e como caiu, ficou, inteiramente desacordada.
O médico disse que era normal.
Estava esperando o terceiro filho.

"A Mulher em Flagrante", Leon Eliachar

(Leon Eliachar nasceu no dia 12 de Outubro de 1922. Morreu em 1987.)

sábado, 12 de outubro de 2019

Leon Eliachar 4

Acho a rosa uma mensagem definitiva, porque custa menos que um telegrama e diz muito mais.

"O Homem ao Zero", Leon Eliachar

(Leon Eliachar nasceu no dia 12 de Outubro de 1922. Morreu em 1987.)

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Leon Eliachar 3

- Comprei um violino.
- Vai estudar?
- Não, quero ver se meu vizinho vende o saxofone.


"O Homem ao Meio", Leon Eliachar

(Leon Eliachar nasceu no dia 12 de Outubro de 1922. Morreu em 1987.)

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Leon Eliachar 2

As flores 

Há dois meses que Iracema recebia flores, sem cartão. Colocava tudo nas jarras, vasos, copos; mesas, janelas, banheiro e até na cozinha. Quando o marido lhe perguntava por que tantas flores, todos os dias, ela sorria:
- Deixe de brincadeira, Epitácio.
Ele não percebia bem o que ela queria dizer, até que um dia:
- Epitácio, acho bom você parar de comprar tanta flor, já não tenho mais onde colocar.
Foi aí que ele compreendeu tudo:
- O quê? Você quer insinuar que não sabia que não sou eu quem manda essas flores?
Foi o diabo, ela não sabia explicar quem mandava, ele não conseguia convencê-la de que não era ele.
- Um de nós dois está mentindo - gritou, furioso.
- Então é você - rebateu ela.
No dia seguinte, de manhã, ele decidiu não sair, pra desvendar o mistério. Assim que as flores chegassem, a pessoa que as trouxesse seria interpelada. Mas não veio ninguém:
- Já são duas horas da tarde e as flores não chegaram, Epitácio. É muita coincidência.
Vai me dizer que não era você.
Ele não tinha por onde escapar. Insinuou muito de leve que a mulher devia ter conhecido alguém na sua ausência. Ela chegou a chorar e se trancou no quarto. A discussão entrou pela noite até o dia seguinte. Epitácio saiu cedo, sem mesmo tomar café. Bateu a porta com força e levou o mistério para o trabalho.
Meia hora depois, a mulher saiu e foi ao florista.
- Como vai, Dona Iracema? A senhora ontem não veio, heim? Aconteceu alguma coisa?
À noite, Epitácio viu as flores e não disse uma palavra, mas a mulher não parou:
- Seu cínico. Bastou você sair para as flores aparecerem e ainda tem coragem de dizer que não foi você.
Nessa noite ele teve insônia.
 

"O Homem ao Zero", Leon Eliachar

(Leon Eliachar nasceu no dia 12 de Outubro de 1922. Morreu em 1987.)

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Leon Eliachar

Dicionário de bolso

- ADIAR - é essa atitude que estamos sempre tomando daqui a pouco.
- BUZINA - é esse ruído que irrita o motorista da frente quando o de trás já está irritado.
- CABOTINO - é esse sujeito que consegue transformar qualquer assunto numa autobiografia.
- TÉCNICO - sujeito que se especializa em não entender nada de apenas uma matéria.
- ZAROLHO - sujeito que tira uma pequena para dançar e saem as duas.
- Datilógrapha conservadora é a que não se conphorma com a ortographia moderna.
- Dalitófraga estrábica é a que passa o dia inreito trocadno as lestra e as síbalas.
- Datilgfa pregç n/ precis nem compl as plavras.
- Datilógrafa de kolunixta çossial tem de comtar mezmu é com a revizãu.

"O Homem ao Quadrado", Leon Eliachar

(Leon Eliachar nasceu no dia 12 de Outubro de 1922. Morreu em 1987.)