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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

João de Araújo Correia 4

Os dois irmãos, cada um em seu caminho, cismavam na limpidez da noite, no brilho de cada estrela e no silêncio da terra. Silêncio e quietude... Não bulia uma folha, não miava um gato nem ladrava um cão. Morreriam pasmados, aqueles dois desavindos, se o alto céu, cheio de abelhas de oiro, não sussurrasse. Parecia-lhes, salvo seja, que zumbia.

"Outro Mundo", João de Araújo Correia

(João de Araújo Correia nasceu no dia 1 de Janeiro de 1899. Morreu em 1985.)

domingo, 1 de janeiro de 2017

João de Araújo Correia 3

A rapariga começou a chorar. Como se chovesse em terreno seco, assim as lágrimas caíram nos olhos calcinados da frágil criatura. O doutor ficou deslumbrado... Nunca tinha visto chorar uma mulher. Ficou surpreendido com o fulgor dos olhos verdes da moça quando os viu mergulhados na enchente de lágrimas. Talvez lhe passasse pela mente ilustrada uma visão do mar com algas alagadas. Plantou-se diante da moça extasiado. Aquilo não era uma mulher, senão a própria beleza que chorava.

"Contos Bárbaros", João de Araújo Correia

(João de Araújo Correia nasceu no dia 1 de Janeiro de 1899. Morreu em 1985.)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

João de Araújo Correia 2

O Verão, em Trás-os-Montes, é sinónimo de inferno. Cá no Douro porém, no fundo dos caldeirões que apuram o vinho, o inferno refina. Pêro Botelho redobra de malícia. Ferve e referve coisas e pessoas.
Com este calor, o fígado entumece, o apetite foge, o cérebro dormita. Parece que o mundo das ideias, das lembranças, o divertido mundo do conhecimento, parou dentro do crânio. Não se lê uma linha, não se escreve palavra nem cogita assunto. Golilhas de ferro em brasa, movidas por diabinhos, algemam os pulsos.
Toda a gente se sente morrer banhada em suor. (…)
Onde se devia estar bem, nesta hora enjoativa, era em solar ou convento de paredes grossas, com árvores em volta e água a humedecer a terra sem quebranto. Quem dera uma árvore nestes montes, onde a vinha mirra! Seria disputada a soco pelos escalorados. Eles põem-se nus, mas as moscas ferram-lhes, fazendo chagas. Bebem água, sorvem cerveja, mas a barriga incha-lhes, o olhar rola-lhes mortiço.
Nos campos, ceifa-se ao luar. Na vinha, só de manhã se redra. De tarde, o homem da lavoura apenas se aventura em horta onde haja poço. À noite, caça o pulguedo até cair exausto. (…)
Nestas vilórias, à noite, nas arboretas municipais, não bole folha. Debaixo delas, em inóspitos bancos, homens e senhoras, doentes de calor, parece que se odeiam. Não conversam nem riem. Fazem horas.
O Douro é uma estufa. Dentro dela, a vide é flor exigente. Dá uma gota de vinho em troca de um suor ou uma vida. Quem escorropicha no fundo de um cristal, essa gota de néctar, celebra um sacrifício.


"Três Meses de Inferno", João de Araújo Correia 

(João de Araújo Correia nasceu no dia 1 de Janeiro de 1899. Morreu em 1985.)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

João de Araújo Correia

O Inglês tinha-se apaixonado pelo concelho. Amava o planalto como doido. A pouco e pouco, ia-o estudando e fixando. Andava sempre de lápis em punho e objectiva às ordens, pendente de uma correia como útil condecoração.
Naquele domingo, depois de almoçar um bife de vitela, tenro como água, mas um pouco débil, oh, yess, bebeu mais um copo de velho vinho do Porto, glorious wine, e resolveu sair. Sacudiu as moscas, olhou para o Bom Jesus do Monte, que ornava em litografia a sala da pensão, fez duas perguntas à criada que lhe servira a vitela, e saltou à rua - se assim se pode chamar a uma vereda esburacada.

"Folhas de Xisto", João de Araújo Correia

(João de Araújo Correia nasceu no dia 1 de Janeiro de 1899. Morreu em 1985.)