Mostrar mensagens com a etiqueta Império Romano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Império Romano. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

A fama que vem de longe

Constantino
Constantino era um tipo algo bizantino, porém completamente levado da breca. Foi imperador romano nos anos trezentos e o seu nome deu nome à cidade de Istambul, como o próprio nome indica. Andar à pancada era com ele: derrotou Magêncio e Licínio, sovou francos e alanos, visigodos e sármatas. Depois abrandou. Abrandou, e nos inícios do século passado voltou à luta, agora sobretudo contra o Macieira, o 1920, o Croft e o L34. 

Constantino, camisa VII
Tal como o outro, este Constantino também era um tipo algo bizantino e evidentemente levado da breca. Imperou entre 913 e 959, tendo-se celebrado há coisa de três meses o milésimo centésimo sexto aniversário da sua tomada de posse como governante de faz de conta, tinha então oito anos. Para se diferenciar dos restantes Constantinos, que realmente foram mais que as mães, ficou na História como Constantino VII Porfirogénito, que isto de nomes jeitosos era mesmo com ele: filho ilegítimo de Leão VI, o Sábio, e de Zoé Zautsina, casou-se com Helena Lecapena, de quem teve sete filhos: Leão, que morreu jovem, Romano II, futuro imperador, Teodora, que se casou com o imperador João I Tzimisces, e as raparigas Zoé, Ágata, Teófano e Ana, mandadas todas para um convento, consta que Ana e Ágata derivado à simpleza dos nomes próprios e as outras para não se ficarem a rir.
Este Constantino, o Porfirogénito, ou camisa VII para os amigos, ou CPVII na vetusta comunicação social, foi mentor onomástico de Luciana Abreu e Yannick Djaló e inspirou a criação do mais famoso regimento militar dos Estados Unidos da América, o 7.º de Cavalaria, que entrou em vários filmes. Não se atreveu à pancada contra o Macieira, o 1920, o Croft e o L34, mas ainda fez quatro épocas bem boas no Leça FC. 

P.S. - Em 337, faz hoje anos, Constantino II, Constâncio II e Constante I sucederam ao paizinho Constantino original como co-imperadores. O Império Romano foi dividido entre os três augustos.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Ele há lendas e lêndeas

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

Faço ideia: levar à cena a "recriação histórica" de uma lenda deve ser obra desenganada. Porque a lenda, até prova em contrário, conta um acontecimento que nunca aconteceu. Não existiu. E, no entanto, por ser "histórica", a "recriação" implica que ela seja contada rigorosamente tal qual não foi. Estão a ver a real impossibilidade da empreitada?
Pois bem. Durante três dias, a lenda de Caio Carpo foi pormenorizadamente representada no areal da Praia de Matosinhos. A lenda de Caio Carpo é do tempo dos romanos. E eu fiquei a saber que os romanos que por cá andaram eram muito gaiteiros e tamborileiros, tinham WC, electricidade e altifalantes. Foram eles também que inventaram as feiras medievais e ainda nem se suspeitava que ia haver Idade Média.
Aqui que ninguém nos ouve, a lenda de Caio Carpo é um bocado barulhenta, isso é. Mas justifica-se a fanfarrice: prevista e anulada pela Câmara em 2009, por causa da "crise económica", a "recriação histórica" agora erguida é o sinal luminoso de que, pelo menos em Matosinhos, as vacas gordas estão de volta a Portugal.
A esta hora, lá em baixo desfazem-se as tendas. Tenho pena. Na época do Império, Roma marcava no seu calendário 175 dias de jogos e festividades por ano. Pão e circo para o povo. Matosinhos também merecia mais.

Lendas, contava-as bem a minha avó de Basto. Eram lendas mansas, de embalar, metiam mouras encantadas, príncipes, penedos. Penedos de morar, lembro-me bem e eu queria um. Eram contadas à lareira, depois da ceia, com o vermelho do fogo a bailar-nos nas caras espectrais, eu de olhos arregalados e boca aberta, uma e outra vez, como se fosse sempre a primeira. Os efeitos especiais das lendas da minha avó Emília foram muitos anos mais tarde copiados pelo cinema americano. Até aquele  famoso jogo de sombras manipulado pela irrequieta chama da candeia, coisa extraordinária e assustadora - era das lendas da minha avó. E o vinhinho aquecido com uma maçã assada lá dentro também, mas isso parece que os filmes não aproveitaram.
Na manhã seguinte, pela fresca, íamos à lenha ao monte. Eu e e minha avó. E a bó mostrava-me o penedo, o exacto penedo da moura encantada, não havia dúvidas. Ainda por cima, as lendas da minha avó eram verdadeiras.