Fazendo pela vida
O médico deu-lhe dois anos. Ele pediu seis. O médico contrapôs três e que não podia dar mais. Ele exigiu cinco, senão nada feito. O médico disse quatro e não se fala mais nisso. Ele, negócio fechado.
quinta-feira, 13 de novembro de 2025
O roxis e o Sr. António Maneta
quinta-feira, 17 de julho de 2025
O povo quer é sangue
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Acusado de violência doméstica, o político esclareceu que, sim senhor, aviou dois ou três bufardos à mãe dos filhos, três ou quatro vezes, mas sempre no carro, nunca em casa. Portanto, violência rodoviária, quando muito, e exige um pedido de desculpas.
À falta da polícia municipal, que ainda não tinha sido inventada, o bom do Senhor Ferreira via-se à rasca para manter na ordem aquela gente toda e tola que fazia guerra por um lugar na primeira fila, sobretudo mulheres afogueadas e gordas, com os socos e o coração nas mãos ou enrodilhados no avental arregaçado. Faço notar que não foi por distracção que escrevi "a" ambulância. O artigo definido singular é aqui propositado e certo, porque à época, acreditai no que vos digo, os Bombeiros de Fafe tinham apenas uma ambulância, uma velha Skoda 1200 ou 1201 da década de 1950, suponho, uma viatura com carroçaria de aço, pesada, vermelha e carrancuda que regularmente ficava sem travões no meio das descidas mais ingremes e perigosas. Depois chegou a primeira Peugeot, naturalmente de França, como os bebés, e pegou a moda das ambulâncias brancas.
Pois, como dizia, as pessoas de Fafe corriam para as escadas do Hospital, esperavam às vezes horas a fio e regalavam-se de braços decepados e orelhas arrancadas e narizes esborrachados e fémures a céu aberto e pés desfeitos e tripas de fora e miolos ao léu e espinhelas partidas e... - Foi tiro?, Foi facada?, Foi sachola?, Foi o home?, Foi a amante? Foi desastre?, Foi o vinho? Ai que desgraça tão grande! E muitos Uis! e muitos Ais! e muitos Coitadinhos! e muitos Valha-nos Deus! E deixavam-se ficar, no relambório, a dar água sem caneco, num altruísmo tremendo, esquecendo-se da própria vida para falar da vida dos outros, e a benzerem-se na direcção da igreja, que estava ali mesmo a pedi-las, mas sem perder pitada. Vampiros de olhos arregalados, dentes afiados e línguas compridas, pelo menos até aos cotovelos, e os braços cruzados segurando as mamas, iam ao sangue, queriam molhanga, muita, vermelha vermelha como a ambulância que chegava enfim, esbaforida e ganinte. Era um fartote, uma comoção, talvez até desmaios. E nas cozinhas abandonadas e sombrias das casas pobres da vila antiga, os tachos esturricando ao lume pachorrento, azul e resmungão da máquina a petróleo no mínimo...
Agora as pessoas não precisam de ir a correr para as escadas do Hospital. Sentam-se em casa, ligam a televisão e vêem a CMTV. O que se perdeu em calor humano, convívio, ganha-se em Tânia Laranjo.
sexta-feira, 9 de junho de 2023
O espectáculo da desgraça dos outros
Mas o espectáculo. A ambulância saía e o povo corria. O bom do Senhor Ferreira via-se à rasca para manter na ordem aquela gente toda e tola que fazia guerra por um lugar na primeira fila, sobretudo mulheres afogueadas e gordas, com os socos e o coração nas mãos ou enrodilhados no avental arregaçado. Faço notar que não foi por distracção que escrevi "a" ambulância. O artigo definido é aqui propositado e certo, porque naquele tempo, dará para acreditar?, os Bombeiros de Fafe tinham apenas uma ambulância, uma velha Skoda vermelha que regularmente ficava sem travões no meio das descidas. Pois, como dizia, as pessoas de Fafe corriam para as escadas do hospital e regalavam-se de braços decepados e orelhas arrancadas e narizes esborrachados e fémures a céu aberto e pés desfeitos e tripas de fora e miolos ao léu e espinhelas partidas e... - Foi tiro?, Foi facada?, Foi sachola?, Foi o home?, Foi a amante? Foi desastre?, Foi o vinho? Ai que desgraça tão grande! E muitos Uis! e muitos Ais! e muitos Coitadinhos! e muitos Valha-nos Deus! Esqueciam-se ali no relambório, a dar água sem caneco e a benzerem-se na direcção da Igreja Nova, convenientemente ao lado, mas sem perder pitada. Vampiros mirones, iam ao sangue, queriam sobretudo molhanga, muita, vermelha vermelha como a ambulância que chegava enfim, esbaforida e ganinte. Era um fartote! Uma comoção! E nas cozinhas abandonadas e sombrias, os tachos esturricando ao lume pachorrento, azul e resmungão da máquina a pitroil...
Agora as pessoas não precisam de ir a correr para as escadas do hospital. Sentam-se em casa, ligam a televisão e vêem a CMTV.
sábado, 11 de fevereiro de 2023
O roxis
Quer-se dizer, o Dr. Mota Prego era o nosso especialista em roxis e uma vez ele e o Dr. Antero, se não me engano, trataram-me muito bem de uma clavícula partida que era a minha vaidade na escola e hoje ainda me dói.
P.S. - Hoje é Dia Mundial do Doente. Perdoem-me a recaída...
quinta-feira, 14 de julho de 2022
Ai que desgraça tão grande!
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Quando eu era mocico e a ambulância acudia a um desastre com a sirene em altos berros, as pessoas de Fafe corriam para as escadas do hospital. Ali se plantavam, esperavam, prognosticavam, diagnosticavam, e finalmente assistiam ao espectáculo. Ao vivo. Em casos mais graves e raros, assistiam também ao morto. As escadas do hospital eram um palco de desgraças e caldeirão de emoções, cenário de reality show sem que Portugal sequer soubesse o que isso viria a ser. Eram também muito jeitosas para tirar fotografias de grupo a casamentos, bombeiros em festa e bandas de música, palavra de honra. Eram, portanto, o sítio mais in da vila e só estorvavam naquilo em que deveriam melhor servir, que era carregar macas com feridos e doentes por aqueles degraus acima ou por aqueles degraus abaixo, às vezes de cangalhas até ao chão.
Mas o espectáculo. A ambulância saía e o povo corria. O bom do Senhor Ferreira via-se à rasca para manter na ordem aquela gente toda e tola que fazia guerra por um lugar na primeira fila, sobretudo mulheres afogueadas e gordas, com os socos e o coração nas mãos ou enrodilhados no avental arregaçado. Faço notar que não foi por distracção que escrevi "a" ambulância. O artigo definido é aqui propositado e certo, porque naquele tempo, dará para acreditar?, os Bombeiros de Fafe tinham apenas uma ambulância, uma velha Skoda vermelha que regularmente ficava sem travões no meio das descidas. Pois, como dizia, as pessoas de Fafe corriam para as escadas do hospital e regalavam-se de braços decepados e orelhas arrancadas e narizes esborrachados e fémures a céu aberto e pés desfeitos e tripas de fora e miolos ao léu e espinhelas partidas e... - Foi tiro?, Foi facada?, Foi sachola?, Foi o home?, Foi a amante? Foi desastre?, Foi o vinho? Ai que desgraça tão grande! E muitos Uis! e muitos Ais! e muitos Coitadinhos! e muitos Valha-nos Deus! Esqueciam-se ali no relambório, a dar água sem caneco e a benzerem-se na direcção da Igreja Nova, convenientemente ao lado, mas sem perder pitada. Vampiros mirones, iam ao sangue, queriam sobretudo molhanga, muita, vermelha vermelha como a ambulância que chegava enfim, esbaforida e ganinte. Era um fartote! Uma comoção! E nas cozinhas abandonadas e sombrias, os tachos esturricando ao lume pachorrento, azul e resmungão da máquina a pitroil...
Agora as pessoas não precisam de ir a correr para as escadas do hospital. Sentam-se em casa, ligam a televisão e vêem a CMTV.
P.S. - Publicado originalmente no dia 10 de Fevereiro de 2016. Hoje é Dia Mundial dos Hospitais. Porque é dia de São Camilo, protector dos enfermos e padroeiro dos hospitais.
sábado, 11 de setembro de 2021
O drama, a tragédia, o horror. O sangue...
Quando eu era mocico e a ambulância acudia a um desastre com
a sirene em altos berros, as pessoas de Fafe corriam para as escadas do
hospital. Ali se plantavam, esperavam, prognosticavam, diagnosticavam, e
finalmente assistiam ao espectáculo. Ao vivo. Em casos mais graves e raros,
assistiam também ao morto. As escadas do hospital eram um palco de desgraças e
caldeirão de emoções, cenário de reality show sem que Portugal sequer soubesse o que isso viria
a ser. Eram também muito jeitosas para tirar fotografias de grupo a
casamentos, bombeiros em festa e bandas de música, palavra de honra. Eram,
portanto, o sítio mais in da vila e só estorvavam naquilo em que deveriam melhor
servir, que era carregar macas com feridos e doentes por aqueles degraus acima
ou por aqueles degraus abaixo, às vezes de cangalhas até ao chão.
Mas o espectáculo. A ambulância saía e o povo corria. O bom
do Senhor Ferreira via-se à rasca para manter na ordem aquela
gente toda e tola que fazia guerra por um lugar na primeira fila, sobretudo mulheres
afogueadas e gordas, com os socos e o coração nas mãos ou enrodilhados no
avental arregaçado. Faço notar que não foi por distracção que escrevi
"a" ambulância. O artigo definido é aqui propositado e certo, porque,
naquele tempo, dará para acreditar?, os Bombeiros de Fafe tinham apenas uma
ambulância, uma velha Skoda vermelha que regularmente ficava sem travões no
meio das descidas. Pois, como dizia, as pessoas de Fafe corriam para as escadas
do hospital e regalavam-se de braços decepados e orelhas arrancadas e narizes
esborrachados e fémures a céu aberto e pés desfeitos e tripas de fora e miolos
ao léu e espinhelas partidas e... - Foi tiro?, Foi facada?, Foi sachola?, Foi o
home?, Foi a amante? Foi desastre?, Foi o vinho? E muitos Uis! e muitos Ais! e
muitos Coitadinhos! e muitos Valha-nos Deus! Estavam ali no relambório, a dar
água sem caneco e a benzer-se na direcção da Igreja Nova, mas sem perder
pitada. Vampiros mirones, iam ao sangue, queriam sobretudo molhanga, muita,
vermelha vermelha como a ambulância que chegava enfim, esbaforida e ganinte.
Era um fartote! Uma comoção!...
Agora as pessoas não precisam de ir a correr para as escadas
do hospital. Sentam-se em casa, ligam a televisão e vêem na CMTV.
P.S. - Publicado originalmente no dia 10 de Fevereiro de 2016.
quarta-feira, 26 de maio de 2021
O drama, a tragédia, o horror. O sangue...
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Quando eu era mocico e a ambulância acudia a um desastre com
a sirene em altos berros, as pessoas de Fafe corriam para as escadas do
hospital. Ali se plantavam, esperavam, prognosticavam, diagnosticavam, e
finalmente assistiam ao espectáculo. Ao vivo. Em casos mais graves e raros,
assistiam também ao morto. As escadas do hospital eram um palco de desgraças e
caldeirão de emoções, cenário de reality show sem que Portugal sequer soubesse o que isso viria
a ser. Eram também muito jeitosas para tirar fotografias de grupo a
casamentos, bombeiros em festa e bandas de música, palavra de honra. Eram,
portanto, o sítio mais in da vila e só estorvavam naquilo em que deveriam melhor
servir, que era carregar macas com feridos e doentes por aqueles degraus acima
ou por aqueles degraus abaixo, às vezes de cangalhas até ao chão.
Mas o espectáculo. A ambulância saía e o povo corria. O bom
do Senhor Ferreira via-se à rasca para manter na ordem aquela
gente toda e tola que fazia guerra por um lugar na primeira fila, sobretudo mulheres
afogueadas e gordas, com os socos e o coração nas mãos ou enrodilhados no
avental arregaçado. Faço notar que não foi por distracção que escrevi
"a" ambulância. O artigo definido é aqui propositado e certo, porque,
naquele tempo, dará para acreditar?, os Bombeiros de Fafe tinham apenas uma
ambulância, uma velha Skoda vermelha que regularmente ficava sem travões no
meio das descidas. Pois, como dizia, as pessoas de Fafe corriam para as escadas
do hospital e regalavam-se de braços decepados e orelhas arrancadas e narizes
esborrachados e fémures a céu aberto e pés desfeitos e tripas de fora e miolos
ao léu e espinhelas partidas e... - Foi tiro?, Foi facada?, Foi sachola?, Foi o
home?, Foi a amante? Foi desastre?, Foi o vinho? E muitos Uis! e muitos Ais! e
muitos Coitadinhos! e muitos Valha-nos Deus! Estavam ali no relambório, a dar
água sem caneco e a benzer-se na direcção da Igreja Nova, mas sem perder
pitada. Vampiros mirones, iam ao sangue, queriam sobretudo molhanga, muita,
vermelha vermelha como a ambulância que chegava enfim, esbaforida e ganinte.
Era um fartote! Uma comoção!...
Agora as pessoas não precisam de ir a correr para as escadas
do hospital. Sentam-se em casa, ligam a televisão e vêem na CMTV.
P.S. - Publicado originalmente no dia 10 de Fevereiro de 2016.
sábado, 28 de abril de 2018
O reality show começou em Fafe
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Quando eu era mocico e a ambulância acudia a um desastre com a sirene em altos berros, as pessoas de Fafe corriam para as escadas do hospital. Ali se plantavam, esperavam, prognosticavam, diagnosticavam, e finalmente assistiam ao espectáculo. Ao vivo. Em casos mais graves e raros, assistiam também ao morto. As escadas do hospital eram um palco de desgraças e caldeirão de emoções, cenário de reality show sem que Portugal sequer soubesse o que isso viria a ser. Eram também muito jeitosas para tirar fotografias de grupo a casamentos, bombeiros em festa e bandas de música, palavra de honra. Eram, portanto, o sítio mais in da vila e só estorvavam naquilo em que deveriam melhor servir, que era carregar macas com feridos e doentes por ali acima ou por ali abaixo, às vezes de cangalhas até ao chão.
Mas o espectáculo. A ambulância saía e o povo corria. O bom do Senhor Ferreira via-se à rasca para manter na ordem aquela gente toda e tola que fazia guerra por um lugar na primeira fila, sobretudo mulheres afogueadas e gordas, com os socos e o coração nas mãos ou enrodilhados no avental arregaçado. Faço notar que não foi por distracção que escrevi "a" ambulância. O artigo definido é aqui propositado e certo, porque, naquele tempo, dará para acreditar?, os Bombeiros de Fafe tinham apenas uma ambulância, uma velha Skoda vermelha que regularmente ficava sem travões no meio das descidas. Pois, como dizia, as pessoas de Fafe corriam para as escadas do hospital e regalavam-se de braços decepados e orelhas arrancadas e narizes esborrachados e fémures a céu aberto e pés desfeitos e tripas de fora e miolos ao léu e espinhelas partidas e... - Foi tiro?, Foi facada?, Foi sachola?, Foi o home?, Foi a amante? Foi desastre?, Foi o vinho? E muitos Uis! e muitos Ais! e muitos Coitadinhos! e muitos Valha-nos Deus! Estavam ali no relambório, a dar água sem caneco e a benzer-se na direcção da Igreja Nova, mas sem perder pitada. Vampiros mirones, iam ao sangue, queriam sobretudo molhanga, muita, vermelha vermelha como a ambulância que chegava enfim, esbaforida e ganinte. Era um fartote! Uma comoção!...
Agora as pessoas não precisam de ir a correr para as escadas do hospital. Sentam-se em casa, ligam a televisão e vêem na CMTV.
P.S. - Fui a Fafe e verifiquei, com desgosto, que ainda há algumas árvores. Espero que a Câmara faça o que lhe compete: é cortá-las pela raiz, sem dó nem piedade, é queimar flores, sementes e plantas, para acabar de vez com a raça. As árvores são piores que javalis imaginários ou perdizes amestradas. E não fogem ao tiro. Viva a solução final e a Volta a Portugal! Fafe livre de árvores, já!