Mostrar mensagens com a etiqueta Erico Veríssimo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Erico Veríssimo. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Erico Veríssimo 8

Inverno

Na alva neve,
A rígida mancha azul
Da ave morta.

Erico Veríssimo

(Erico Veríssimo nasceu no dia 17 de Dezembro de 1905. Morreu em 1975.)

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Erico Veríssimo 7

Gota de orvalho
na corola dum lírio:
jóia do tempo.


Erico Veríssimo

(Erico Veríssimo nasceu no dia 17 de Dezembro de 1905. Morreu em 1975.)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Erico Veríssimo 6

Serviço consular

Com cartas brancas,
senhor cônsul solta
pombos de papel.


Erico Veríssimo

(Erico Veríssimo nasceu no dia 17 de Dezembro de 1905. Morreu em 1975.)

domingo, 17 de dezembro de 2017

Erico Veríssimo 5

Abre-se uma clareira azul no escuro céu de inverno.
O sol inunda os telhados de Jacarecanga. Um galo salta para cima da cerca do quintal, sacode a crista vermelha que fulgura, estica o pescoço e solta um cocoricó alegre. Nos quintais vizinhos outros galos respondem.
O sol! As poças d'água que as últimas chuvas deixaram no chão se enchem de jóias coruscantes. Crianças saem de suas casas e vão brincar nos rios barrentos das sarjetas. Um vento frio afugenta as nuvens para as bandas do norte e dentro de alguns instantes o céu é todo um clarão de puro azul.
O General Chicuta resolve então sair da toca. A toca é o quarto. O quarto fica na casa da neta e é o seu último reduto. Aqui na sombra ele passa as horas sozinho, esperando a morte. Poucos móveis: a cama antiga, a cômoda com papeis velhos, medalhas, relíquias, uniformes, lembranças; a cadeira de balanço, o retrato do Senador; o busto do Patriarca; duas ou três cadeiras... E recordações... Recordações dum tempo bom que passou, - patifes! - dum mundo de homens diferentes dos de hoje. - Canalhas! - duma Jacarecanga passiva e ordeira, dócil e disciplinada, que não fazia nada sem primeiro ouvir o General Chicuta Campolargo.

"Entrevero", Erico Veríssimo

(Erico Veríssimo nasceu no dia 17 de Dezembro de 1905. Morreu em 1975.)

sábado, 17 de dezembro de 2016

Erico Veríssimo 4

As mãos de meu filho

Todos aqueles homens e mulheres ali na platéia sombria parecem apagados habitantes dum submundo, criaturas sem voz nem movimento, prisioneiros de algum perverso sortilégio. Centenas de olhos estão fitos na zona luminosa do palco. A luz circular do refletor envolve o pianista e o piano, que neste instante formam um só corpo, um monstro todo feito de nervos sonoros.
Beethoven.

Há momentos em que o som do instrumento ganha uma qualidade profundamente humana. O artista está pálido à luz de cálcio. Parece um cadáver. Mas mesmo assim é uma fonte de vida, de melodias, de sugestões - a origem dum mundo misterioso e rico. Fora do círculo luminoso pesa um silêncio grave e parado.
Beethoven lamenta-se. É feio, surdo, e vive em conflito com os homens. A música parece escrever no ar estas palavras em doloroso desenho. Tua carta me lançou das mais altas regiões da felicidade ao mais profundo abismo da desolação e da dor. Não serei, pois, para ti e para os demais, senão um músico? Será então preciso que busque em mim mesmo o necessário ponto de apoio, porque fora de mim não encontro em quem me amparar. A amizade e os outros sentimentos dessa espécie não serviram senão para deixar malferido o meu coração. Pois que assim seja, então! Para ti, pobre Beethoven, não há felicidade no exterior; tudo terás que buscar dentro de ti mesmo. Tão-somente no mundo ideal é que poderás achar a alegria.
Adágio. O pianista sofre com Beethoven, o piano estremece, a luz mesma que os envolve parece participar daquela mágoa profunda.
[...]

"Contos", Erico Veríssimo

(Erico Veríssimo nasceu no dia 17 de Dezembro de 1905. Morreu em 1975.)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Erico Veríssimo 3

- Você é muito menino, ainda não sabe de certas coisas... Mas viver é morrer em prestações. Cada criança que nasce assina com a vida um contrato de compra e venda... e a gente nunca sabe o prazo certo do vencimento. - A sua dissertação fora interrompida por acessos de tosse em que o homenzinho ficava vermelho, engasgado, enquanto sua boca expelia para todos os lados um chuveiro de saliva. Era preciso nada menos de cinco minutos para ele voltar à calma e recomeçar a exposição. - Mas como eu ia dizendo, a criança assina o contrato e o vendedor, que é a Morte, passa a cobrar as prestações anualmente. Cada ano a gente morre um pouco. Quando vai ficando velho, as prestações já não são anuais, e sim semanais. Por fim o contrato se vence. O pior de tudo é que a gente continua sem saber o que comprou... Por acaso você sabe?

"O Resto É Silêncio", Erico Veríssimo

(Erico Veríssimo nasceu no dia 17 de Dezembro de 1905. Morreu em 1975.)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Erico Veríssimo 2

Só agora Amaro acredita que a Primavera chegou: de sua janela vê Clarissa a brincar sob os pessegueiros floridos. As glicínias roxas espiam por cima do muro que separa o pátio da pensão do pátio da casa vizinha. O menino doente está na sua cadeira de rodas; o sol lhe ilumina o rosto pálido, atirando-lhe sobre os cabelos um polvilho de ouro. Um avião cruza o céu, roncando - asas coruscantes contra o azul nítido.
Amaro sente no rosto a carícia leve do vento. Infla as narinas e sorve o ar luminoso da manhã.
Não há dúvida: a Primavera chegou. Os pessegueiros estão floridos, as glicínias se debruçam sobre o muro, o menino doente já mostra no rosto magro a sombra dum sorriso.
- Lindo! - exclama Amaro interiormente.

E se tentasse exprimir em música o momento milagroso? Quem sabe? Clarissa ainda corre sob as árvores. Grita, sacode a cabeleira negra, agita os braços, pára, olha, ri, torna a correr, perseguindo agora uma borboleta amarela.
Longe, lampeja um pedaço do rio. Mais longe ainda, a sombra azulada dos morros. E por cima de tudo, a porcelana pura do céu.

Amaro caminha para o piano. Seus dedos magros batem de leve nas teclas. Duas notas tímidas e desamparadas: mi, sol... Mas a mão tomba desanimada. O olhar morto passeia em torno, vê as imagens familiares: a cama desfeita, os livros da noite, empilhados sobre o mármore da mesinha-de- cabeceira, a escrivaninha com papéis em desordem; nas paredes brancas, a máscara mortuária de Beethoven e o espelho oval por cima da pia, o espelho que rebrilha, reflectindo na superfície lisa o semblante dum homem triste...

"Clarissa", Erico Veríssimo

(Erico Veríssimo nasceu no dia 17 de Dezembro de 1905. Morreu em 1975.)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Erico Veríssimo

Pouco antes das nove horas dessa mesma manhã alguns automóveis pararam à frente do cemitério e deles apearam as autoridades municipais e uma meia dúzia de homens desses em geral designados pelos jornais como "pessoas gradas". Tanto as autoridades como os médicos do departamento de higiene local tinham as cabeças cobertas por máscaras contra gases lacrimogêneos. Aproximaram-se dos sete caixões e examinaram os defuntos, um a um. O Mendes - facilmente reconhecível pela sua altura, apesar da máscara, tomava notas numa caderneta. Os médicos fizeram um exame perfunctório nos cadáveres, reconfirmaram-lhes os óbitos, e ordenaram fossem todos sepultados sem tardança.
Postos ao corrente dos últimos acontecimentos, as quatro filhas e os quatro genros de Quitéria Campolargo haviam chegado a tempo para a cerimônia do sepultamento da anciã. Não houve discursos. O Pe. Gerôncio sussurrou uma breve oração ao pé do féretro. Os familiares da defunta receberam novos abraços de pêsames à frente do suntuoso mausoléu de mármore dos Campolargos. Um amigo da família - sujeito proverbialmente curioso - chamou à parte o genro veterinário e, numa espécie de corredor entre dois túmulos de alvenaria, manteve com ele um breve diálogo:
- É verdade mesmo, nosso amigo, que D. Quitéria atirou as suas mais belas jóias no vaso sanitário e puxou a corrente?
- É verdade - confirmou o genro - mas por sorte nossa o cano entupiu e conseguimos recuperar o broche, o colar, os brincos e a pulseira. Infelizmente perdemos o anel com o solitário...
- Logo a jóia de maior valor! - lamentou o amigo da família, sacudindo a cabeça, penalizado. - E dizer-se que essa preciosidade se foi Uruguai abaixo, misturada com todas as porcarias da população de Antares. ... É uma ironia da sorte.
- O que é que vai se fazer? - suspirou o veterinário.
- Mas não perca a esperança, meu caro. Deus é grande. Contrate um escafandrista para mergulhar perto dos canos de despejo da cidade. A jóia é pesada, pode ter ficado cravada na areia do fundo do rio. Pense nisso. Contrate um escafandrista e confie na Providência Divina.

"Incidente em Antares", Erico Veríssimo

(Erico Veríssimo nasceu no dia 17 de Dezembro de 1905. Morreu em 1975.)