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segunda-feira, 4 de junho de 2018

Conheço-me de algum lado...

Foto Hernâni Von Doellinger

Devo andar a ficar parecido com alguém. São cada vez mais as pessoas que olham para mim na rua, e eu não estava habituado. Sempre achei que tinha cara de ninguém, tão incógnito e invisível fui toda a minha vida, e não me estou a queixar, constato apenas, porque senstato ainda podia ser pior, se não me engano. Dou um exemplo, por exemplo: chovesse a cântaros e corresse eu em coiro a subir e a descer desalmada e inutilmente as escadas da Arcada, intervalando com três litúrgicas cabeçadas na porta principal do Club Fafense, a verdade é que nem a polícia municipal tomava conta da ocorrência. Era como se eu não existisse, mesmo com o pirilau ao léu. De acordo com as detalhadas notas da minha agenda de 1911, que agora mesmo compulso e sentornozelo, pratiquei esta patusca habilidade cinco ou seis vezes, talvez oito ou nove, os apontamentos estão um bocado esborratados, e só abandonei a modalidade por indicação médica. O médico da caixa sempre me chamou Sr. Serafim porque nunca tomou razoável sentido a quem eu era. Eu próprio quantas e quantas vezes passei por mim sem me conhecer de lado nenhum, não serei portanto o primeiro nem o último a atirar a primeira ou a derradeira pedra à autoridade distraída ou ao serviço nacional de saúde relapso, respectivamente. Serei, por uma questão de princípio, o do meio.
Mas ao que interessa: agora, na rua, espreitam-me de cima a baixo. Faço imediatamente o teste da braguilha, porque a braguilha não engana, mas há muito que eu retirei a braguilha de cotio, só a uso ao fim-de-semana com hífenes e eu ao fim-de-semana com hífenes não saio. Ando portanto intrigado, diria até assaz incomodado, mas estaria a mentir se o dissesse, e eu só minto às quintas-feiras dos anos bissextos, e por isso hoje não digo. Por outro lado, a palavra assaz é particularmente parva.
Fui ao espelho ver o que se passava. Há coisa de dez minutos, fui ao espelho. E faço questão de informar que não me via ao espelho desde 1879, mais ou menos no dia do São Francisco de Regadas, ou desde 1901, por alturas da Senhora das Neves da Lagoa, não tenho bem presente. Fui ao espelho (sei que é a terceira vez que digo que fui ao espelho, e com esta já é a quarta) e aconteceu o seguinte: encontrei-me realmente com um tipo vagamente parecido comigo. Será isso?

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Lugares-comuns 432

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Fafe e o turismo

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

"O turismo em Fafe" é tema para um debate a realizar no próximo sábado, dia 7 de Junho, pelas 21h30, no Club Fafense. Mais uma iniciativa do Club Alfa, dinamizada, como sempre, por Pedro Sousa, que desta vez conta com a participação de Abel Castro, Alberto Baptista, António Daniel, Carla Paredes Castro, Carlos Afonso, Jesus Martinho, Luís Carvalho, Miguel Summavielle e Ricardo Gonçalves.
Na ocasião será apresentado o número seis da revista Alfa.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Fafe discute o turismo

Foto Hernâni Von Doellinger

"O turismo em Fafe" será tema para um debate a realizar no próximo dia 7 de Junho, sábado, pelas 21h30, no Club Fafense. É mais uma iniciativa do Club Alfa, dinamizada, como sempre, pelo irrequieto Pedro Sousa. Participam também Abel Castro, Alberto Baptista, António Daniel, Carla Paredes Castro, Carlos Afonso, Jesus Martinho, Luís Carvalho, Miguel Summavielle e Ricardo Gonçalves.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Mais vale mal acompanhado

Serafim d'Eiteiro tinha uma loja de fazendas em Cima da Arcada, por baixo do Club, e era homem de voz grave e piada fina. Frequentava a sala das traseiras do Peludo, onde, após almoço, se jogavam umas bilharadas iglantónicas. Aquilo era coisa constada, só para artistas diplomados e até metia apostas a dinheiro, reunindo sempre uma pequena multidão de espectadores dados ao palpite e a gozar o parceiro. Em Fafe era assim.
E uma vez foi de mais. Eu era puto e estava lá. Um dos jogadores, desgraçadamente em dia não e alvo único e reiterado da chacota geral, perdeu de repente as estribeiras e, varando com os olhos a plateia ali à roda, atirou, cheio de raiva e perdigotos: Ide todos para o caralho! Todos...
Mas nisto encarou o respeitável comerciante, pessoa de outra idade e estatuto, e resolveu abrir uma honrosa excepção: Todos, não. Faz favor de desculpar, senhor Serafim, não é para si - corrigiu o bilharista azarado e despeitado porém atencioso, botando giz no taco.
Sentado logo à entrada depois do degrau, no canto por baixo do velho rádio dos relatos domingueiros, Serafim d'Eiteiro disfarçou um sorriso maroto atrás do fumo do cigarro sem filtro e respondeu naquela maneira vagarenta de falar que dava ares de sabedoria - Muito obrigado pela deferência, mas aqui sozinho é que não fico. Se o amigo não leva a mal, eu também vou.

O ministro dos Negócios Estrangeiros foi à Alemanha dizer que está "muito orgulhoso" com a "postura dos portugueses" perante a crise. Um elogio que, naquela boca, é um insulto. E eu estou como o Serafim d'Eiteiro. Não quero que Paulo Portas tenha orgulho em mim. Dispenso. Não aceito a consideração de Portas. A falsa consideração de Portas, jogador da política, incomoda-me, faz-me comichão, deve ser do giz. Recuso a deferência. E, se estou lá, exijo ser imediatamente retirado da lista dos portugueses com postura deste ministro impostor.

(Texto escrito e publicado no dia 19 de Setembro de 2012, por toleima política. Tinha o título de "Desarrisquem-me da lista do Portas". Mas façam-me o favor: desleiam o último parágrafo, o Portas não merece, o Portas não interessa para nada. O senhor Serafim d' Eiteiro é que sim, merece e interessa. Por isso torno a ele. A história é verdadeira, uma de muitas do figurão. O apelido "d'Eiteiro" seria uma corruptela de "do Outeiro". Lugar do Outeiro, Antime, donde creio que era este ilustríssimo fafense. Serafim do Outeiro igual a Serafim d'Eiteiro, assim terá decidido o povo, na sua indesmentível sabedoria.)

domingo, 20 de novembro de 2011

O outro Club Fafense

Foto Hernâni Von Doellinger

Eu não sabia, mas Fafe tem dois Clubs Fafenses. O Club que eu não conhecia, e que acaba de ser reanimado após anos de inactividade, era, ao que acabo de saber, "um dos principais pólos culturais da Vila de antanho". Num entre aspas que suponho pertencer à sua actual direcção, fui surpreendido também com a novidade de que esta colectividade (palavra de honra que lhe chamaram colectividade) "proporcionava actividades de entretenimento aos seus sócios, dispondo de um bom bilhar, de uma sala de "jogos lícitos" e de um concorrido bar cujo horário alargado e reputação gastronómica perdurou nas memórias orais dos diversos frequentadores".
O outro Club Fafense, o que eu conheci, não era nada disto, tirando a parte gastronómica e o Joãozinho, de quem ontem nem ouli falar. O Club Fafense que eu conheci e que agora começa a ser desarriscado da História e não merecia, era outra coisa. Para que nos entendamos, sem irmos mais longe: escuteiro não entrava ali.