E uma vez foi de mais. Eu era puto e estava lá. Um dos jogadores, desgraçadamente em dia não e alvo único e reiterado da chacota geral, perdeu de repente as estribeiras e, varando com os olhos a plateia ali à roda, atirou, cheio de raiva e perdigotos: Ide todos para o caralho! Todos...
Mas nisto encarou o respeitável comerciante, pessoa de outra idade e estatuto, e resolveu abrir uma honrosa excepção: Todos, não. Faz favor de desculpar, senhor Serafim, não é para si - corrigiu o bilharista azarado e despeitado porém atencioso, botando giz no taco.
Sentado logo à entrada depois do degrau, no canto por baixo do velho rádio dos relatos domingueiros, Serafim d'Eiteiro disfarçou um sorriso maroto atrás do fumo do cigarro sem filtro e respondeu naquela maneira vagarenta de falar que dava ares de sabedoria - Muito obrigado pela deferência, mas aqui sozinho é que não fico. Se o amigo não leva a mal, eu também vou.
O ministro dos Negócios Estrangeiros foi à Alemanha dizer que está "muito orgulhoso" com a "postura dos portugueses" perante a crise. Um elogio que, naquela boca, é um insulto. E eu estou como o Serafim d'Eiteiro. Não quero que Paulo Portas tenha orgulho em mim. Dispenso. Não aceito a consideração de Portas. A falsa consideração de Portas, jogador da política, incomoda-me, faz-me comichão, deve ser do giz. Recuso a deferência. E, se estou lá, exijo ser imediatamente retirado da lista dos portugueses com postura deste ministro impostor.
(Texto escrito e publicado no dia 19 de Setembro de 2012, por toleima política. Tinha o título de "Desarrisquem-me da lista do Portas". Mas façam-me o favor: desleiam o último parágrafo, o Portas não merece, o Portas não interessa para nada. O senhor Serafim d' Eiteiro é que sim, merece e interessa. Por isso torno a ele. A história é verdadeira, uma de muitas do figurão. O apelido "d'Eiteiro" seria uma corruptela de "do Outeiro". Lugar do Outeiro, Antime, donde creio que era este ilustríssimo fafense. Serafim do Outeiro igual a Serafim d'Eiteiro, assim terá decidido o povo, na sua indesmentível sabedoria.)