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terça-feira, 4 de maio de 2021

Branquinho da Fonseca 7

Restauração

Se me vierem procurar: não estou. Quando me fecho em casa
é para ser só eu: delicado e brutal, humilde e altivo,
sacrificado e egoísta: o bem e o mal: humano! Sem atitudes seguidas.
- Abaixo a Continuação
Quero estar só diante de mim sem disfarces nem conveniências!
Ora todos sabem que para conviver é necessário ser alguma coisa os outros.
Estou cansado! Deixem-me descansar! Deixem-me ser só eu durante um dia
e depois vereis como hei-de agradar-vos, como de mãos nas mãos
me beijareis o rosto e chamareis - Irmão!...

Branquinho da Fonseca 

(Branquinho da Fonseca nasceu no dia 4 de Maio de 1905. Morreu em 1974.) 

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Branquinho da Fonseca 6

Naufrágio

A rua cheia de luar
Lembrava uma noiva morta
Deitada no chão, à porta
De quem a não soube amar.

Já não passava ninguém...
Era um mundo abandonado...
E à janela, eu, tão Além,
Subia ressuscitado...

Vi-me o corpo morto, em cruz,
Debruçado lá no Fundo...
E a alma como uma luz
Dispersa em volta do mundo...

Mas, à tona do mar morto,
Um resto de caravela
Subia... E chegava ao porto
Com a aragem da janela.


"Mar Coalhado", Branquinho da Fonseca 

(Branquinho da Fonseca nasceu no dia 4 de Maio de 1905. Morreu em 1974.)

sábado, 4 de maio de 2019

Branquinho da Fonseca 5

Castanheiros, irmãos!

Ó castanheiros de folhas de ouro,
Carregados de ouriços que são ninhos
Onde as castanhas dormem como noivos!

Troncos abertos,

Casas abertas,
Ao vosso abrigo
Dormem os pobres,
Pegam no sono,
Passam as noites
Quando cai neve!

Peitos vazios,
Escancarados,
Sem nada dentro,
Nem coração!
Dais lume, calor
E dais sustento para a mesa,
E dais o mais que eu não sei!...

Ó castanheiros de folhas de ouro,
Apenas sou vosso irmão
Em que a terra vos criou
E criou-me a mim também;
Em que vós ergueis os braços
Suplicantes para os céus
E eu também levanto os meus...

Ah! Castanheiros, mas eu
Grito e vós ficais calados!
Seremos, por isto só,
Irmãos? Seremos? Não sei:
Vós tendes roupas de rei,
Eu tenho roupas de Job;
Vós só gritais quando o vento
Vos abre a boca e fustiga:
Então ergueis um clamor...
- Não calo nunca no peito
A dor do meu sofrimento
E nunca chego a dizê-la,
Nem há ninguém que me diga.

Ó castanheiros de folha de ouro,
Não,
Eu não sou vosso irmão!...


"Mar Coalhado", Branquinho da Fonseca 

(Branquinho da Fonseca nasceu no dia 4 de Maio de 1905. Morreu em 1974.)

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Branquinho da Fonseca 4

O arquipélago das sereias

Ó nau Catrineta
Em que andei no mar
Por caminhos de ir,
Nunca de voltar!

Veio a tempestade
Perder-se do mundo,
Fez-se o céu infindo,
Fez-se o mar sem fundo!

Ai como era grande
O mundo e a vida
Se a nau, tendo estrela,
Vogava perdida!

E que lindas eram
Lá em Portugal
Aquelas meninas
No seu laranjal!

E o cavalo branco
Também lá o via
Que tão belo e alado
Nenhum outro havia!

Mundo que não era,
Terras nunca vistas!
Tive eu de perder-me
Pra que tu existas.

Ó nau Catrineta
Perdida no mar,
Não te percas ainda,
Vem-me cá buscar!


"Mar Coalhado", Branquinho da Fonseca 

(Branquinho da Fonseca nasceu no dia 4 de Maio de 1905. Morreu em 1974.)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Branquinho da Fonseca 3

Lago 

Com duas tábuas fiz
O barco onde navego
E onde sou tão feliz
Que nunca chego...

Vou sonhando e cantando,
Tão alto, que não sei se o mar e o céu vão bons
Ou se vão mal...

Só quero ir sempre andando
E reparando
Nas diferenças
Da paisagem sempre igual...

"Mar Coalhado", Branquinho da Fonseca 

(Branquinho da Fonseca nasceu no dia 4 de Maio de 1905. Morreu em 1974.)

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Branquinho da Fonseca 2

As viagens 

Antes seja afastado do que já alcancei que o seja daquilo para que vou.
A posse é um declínio.

Antes um pássaro a voar que dois na mão.
Dois pássaros na mão são o que já não falta.
Um pássaro a voar: é ir com os olhos a voar com ele;
ir sobre os montes, sobre os rios, sobre os mares;
dar a volta ao mundo e continuar;
é ter um motivo de viver - é não ter chegado ainda.

Branquinho da Fonseca 

(Branquinho da Fonseca nasceu no dia 4 de Maio de 1905. Morreu em 1974.)

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Branquinho da Fonseca

Não gosto de viajar. Mas sou inspector das escolas de instrução primária e tenho a obrigação de correr constantemente todo o País. Ando no caminho da bela aventura, da sensação nova e feliz, como um cavaleiro andante. Na verdade lembro-me de alguns momentos agradáveis, de que tenho saudades, e espero ainda encontrar outros que me deixem novas saudades. É uma instabilidade de eterna juventude, com perspectivas e horizontes sempre novos. Mas não gosto de viajar. Talvez só por ser uma obrigação e as obrigações não darem prazer. Entusiasmo-me com a beleza das paisagens que valem como pessoas, e tive já uma grande curiosidade pelos tipos rácicos, pelos costumes, e pela diferença de mentalidade do povo de região para região.
Num país tão pequeno, é estranhável tal diversidade. Porém não sou etnógrafo, nem folclorista, nem estudioso de nenhum desses aspectos e logo me desinteresso. Seja pelo que for, não gosto de viajar. Já pensei em pedir a demissão. Mas é difícil arranjar outro emprego equivalente a este nos vencimentos. Ganho dois mil escudos e tenho passe nos comboios, além das ajudas de custo. Como vivo sozinho, é suficiente para as minhas necessidades. Posso fazer algumas economias e, durante o mês de licença que o Ministério me dá todos os anos, poderia ir ao estrangeiro. Mas não vou. Não posso. Durante este mês quero estar quieto, parado, preciso de estar o mais parado possível. Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez! Para pensar bem é preciso estar quieto.


"O Barão", Branquinho da Fonseca

(Branquinho da Fonseca nasceu no dia 4 de Maio de 1905. Morreu em 1974.)