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domingo, 17 de dezembro de 2017

Lauro Rodrigues

Aleluia

Velho pampa lendário de outras eras,
onde se erguem lúgubres taperas,
tripudiando quais flâmulas de luto:
nessas tardes de junho, ao sol poente,
parece-me que sinto o que tu sentes
quando o silêncio do teu campo escuto...


A brisa nas carquejas do varzedo,
chorando, confessa que tens medo
de enfrentar esta miséria atroz...
E na tristeza sem fim dos corredores
vibram hinos de brados e clamores
contra as algemas da canalha algoz...


Mas não percebes, decrépito campeiro,
que as rondas do abutre carniceiro
grasnam sobre ti funéreo agouro;
que és o braço do "Gigante" que mendiga
e "deitado em berço esplêndido" se obriga
a pedir pão sob um dossel de ouro?...
[...]

 "Senzala Branca", Lauro Rodrigues 

(Lauro Rodrigues nasceu em 1918. Morreu no dia 17 de Dezembro de 1978.)

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Mário Beirão

Aleluia

Se cantas, nasce o dia;
A luz segreda à flor: Ave, Maria! 

Tudo é silêncio, espanto,
Quando vaga no azul o teu encanto...

Passas e deixas no ar
O perfume das rosas de toucar!

Creio em ti, como em Deus;
Viver à tua luz é estar nos Céus!

Verdes enleios de hera
Cingem de amor teu vulto, ó Primavera!

Nos perdidos caminhos,
Voam gorjeios, músicas dos ninhos...

A Terra em névoas de ouro
Ascende a Deus em teu olhar de choro!

Senhora da Harmonia,
Em ti a minha vida principia!

Se voas pela altura,
Gravas no azul a tua formosura! 

Teu voo é um longo adeus:
O caminho das almas para os Céus...

Longe, saudosa, adejas,
E pairas sobre mim... bendita sejas!

Mário Beirão

(Mário Beirão nasceu no dia 1 de Maio de 1890. Morreu em 1965.)

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Pedro Homem de Mello 4

Aleluia!

Dúvida? Não. Mas luz, realidade
e sonho que, na luta, amadurece:
o de tornar maior esta cidade,
eis o desejo que traduz a prece.


Só quem não sente o ardor da juventude
poderá vê-la de olhos descuidados,
Porto, palavra exacta, nunca ilude,

renasce nela a ala dos namorados!

Deram tudo por nós estes atletas,
seu trajo tem a cor das próprias veias
e a brancura das asas dos poetas…


Ó fé de que andam nossas almas cheias,

não há derrotas quando é firme o passo.
Ninguém fale em perder! Ninguém recua…
E a mocidade invicta em cada abraço
a si mais nos estreita. A pátria é sua.

E de hora a hora cresce o baluarte!

Lembro a Torre dos Clérigos às vezes…
Um anjo dá sinal quando ele parte…
São sempre heróis! São sempre portugueses!


E, azul e branca, essa bandeira avança…
Azul, branca, indomável, imortal.
Como não pôr no Porto uma esperança
se "daqui houve nome Portugal"?


Pedro Homem de Mello 

(Pedro Homem de Mello nasceu no dia 6 de Setembro de 1904. Morreu em 1984.)