quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Um Natal mais ou menos

Dá-me para isto ultimamente: pergunto aos meus amigos - "Andas feliz? És feliz?", e não é por causa da crise ou da merda da política ou dos bandalhos que estão no Governo. Nada disso - quero que essa corja de Lisboa se foda, refoda e contrafoda. Aos meus amigos pergunto acerca do coração, dos afectos, do casamento, do divórcio, da mulher, da namorada, da mulher e das namoradas (há quem acumule), dos filhos, dos netos, dos irmãos, dos pais, dos sogros, da saúde, da fé, da filosofia, da poesia, de Deus, dos sonhos, da vida. Falo de bondade, de amor, de compaixão, de vinho. "És feliz? Andas feliz?", é o que pergunto, exactamente da mesma maneira que pergunto em casa, à mesa, se a comidinha está a saber bem.
A vida para ter algum jeito também deve saber bem, não é? Pelo menos é o que eu acho, pratico e digo aos meus amigos, dinheiro à parte e emprego também, que só fazem falta a quem tem. A nós, não - o País já deu baixa de nós, de mim e dos meus amigos. Estamos muito bem assim com isto que nos deixaram em comum: somos tesos encartados, desempregados por conta própria, cidadãos fora de prazo, viva Portugal! Os meus amigos interessam-me muito e por isso é que são sem aspas e sem Facebook. Somos amigos cara a cara, de abraço de carne e osso. Os meus amigos sabem que eu cozinho e são meia dúzia deles. Às vezes frequentam-me a mesa. Percebem o que eu quero dizer quando lhes pergunto, imodesto, se as fanecas eram mesmo assim e nem mais nem menos e se os rojões estão prontos para as olimpíadas. Percebem e respondem com grande selectividade (a selectividade e as retroescavadoras com luzinhas são cá coisas do forno interno). Eram e estão, as fanecas e os rojões, respondem na ponta da língua, sem precisarem de mentir. Mas se lhes pergunto directamente - "És feliz, Natal?", os meus amigos limitam-se a balbuciar um "Mais ou menos" que até parece da minha família.
Vou mandar passar aos meus amigos os competentes atestados de Bombas, esses sublimados militantes do vai-se andando. Eu rasgo o cartão, desarrisco-me.

(Texto escrito e publicado originalmente no dia 30 de Novembro de 2013)

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