sexta-feira, 6 de junho de 2014

Gomes Leal 2

Miserere mei

                       I
Eis-me sentado só, na Rua da Amargura,
Como um mendigo vil, de rota capa escura,
           Sem ter pátria, nem lei.
Desci, mais do que Job, ao lameiro corrupto.
- Ó piedosa Mulher das tranças cor de luto,
           Miserere mei!...
                      
                       II
Por teus olhos subtis, mais raros que as safiras,
As aras poluí, fiz a batina em tiras,
           Minha estola rasguei.
Agora sou Dagnon, Rei das dores insondáveis.
- Ó piedosa Mulher dos olhos admiráveis, 
           Miserere mei!...

                       III
Por teu amor, desci às trevas lacrimosas.
Por teu amor, vaguei nas ruínas leprosas.
           Por ti uivei, chorei,
Nas galés, hospitais, na Insónia, na Demência,
- Ó piedosa Mulher, Senhora da Clemência,
           Miserere mei!...

                       IV
Como Saul, cruzei as estradas devassas.
Nos cardos, nos tojais, nas alfurjas, nas praças,
           Os farrapos larguei
Da minha alma sangrenta, estrelada em martírios.
- Ó piedosa Mulher dos dedos cor dos lírios,
           Miserere mei!...

                       V
Por teu amor, desci às pávidas geenas
Dos não ouvidos ais, das não ouvidas penas.
           Por ti, eu blasfemei.
Por ti eu me estorci nas palhas da enxovia...
- Ó piedosa Mulher, Flor da Melancolia,
           Miserere mei!...

                       VI
Brandam que te ofendi. - Mas os teus olhos castos
mal conheceram como, as mãos postas, de rastos,
           Eu poli e escavei,
Com meus prantos de sangue, as lapas dos retiros.
- Ó piedosa Mulher, Senhora dos Suspiros,
           Miserere mei!...

                       VII
Arrastei-me no pó das solidões tisnadas,
No inferno das galés, nas insónias suadas.
           De nostalgia, uivei,
Como o proscrito infeliz nos grandes gelos russos.
- Ó piedosa Mulher, Senhora dos Soluços,
           Miserere mei!...

                       VIII
O suor empastou meus pálidos cabelos.
Junto ao leito febril, torvo de pesadelos,
           Pai nem Mãe encontrei!
Só teu pranto sorvi, nas angústias agudas...
- Ó piedosa Mulher, Mãe das lágrimas mudas,
           Miserere mei!...

                       IX
Agora, livre enfim dos Ciclos da Loucura,
Já transpondo os portais da Babilónia Escura,
           Mais órfão me encontrei.
Órfão, meu Deus, de ti, dos teus ais, teus cuidados...
- Ó piedosa Mulher, Mãe dos Abandonados,
           Miserere mei!... 

Gomes Leal

(Gomes Leal nasceu no dia 6 de Junho de 1848. Morreu em 1921.)

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