A ver se me faço compreender: sempre fui praticante de asas e pescoços de frango, de ossos da suã, de iscas de fígado, de caras de bacalhau e de cabeça de pescada, se for inteira. Fui e sou. Sei dar-lhes o valor e as voltas: cá em casa são petiscos. Ainda não necessidade. À fressura (deixem-se lá de malícias) é que nunca mais tornei.
E em miúdo até era eu quem ia ao Talho, a mando da minha mãe, comprar "um quarto de fresura" para a massa do almoço, "se faz favor". Só havia um talho na vila, e por isso era com maiúscula, e não há uma mãe como a minha. Se acham que é lugar-comum, isto da minha mãe, estão redondamente enganados. Perguntem em Fafe, chama-se Alexandrina e vão ficar admirados. Mas a minha mãe hei-de contá-la como deve ser mais lá para diante.
Já sabem que éramos pobres. Comíamos "fresura" porque era o mais em conta que havia aparentado com carne para comermos à semana. Eu aprendi a gostar e gostava sobretudo do rinca-rinca do cano. Já a parte do bofe fazia-me uma certa impressão e ainda hoje sou contra as chiclas. Ao domingo comíamos bife, é preciso que se note, porque a minha mãe tinha artes de ilusionista, truques de economia. A minha mãe fazia comida muito boa e devia ser ministra das Finanças.
A minha mãe passou por muito e diz que o 25 de Abril foi o melhor que aconteceu em Portugal. Isso e os títulos do FC Porto. A minha mãe não admite marcha-atrás. "Pobreza era no tempo do fascismo", diz a minha mãe, e os títulos do Benfica também eram. Mas, ó mãe, deixe lá o relato só por um bocadinho: estamos de volta à "fresura"?
E à moleja (ou moleija se lido em Fafe).
ResponderEliminarLembro-me bem desse tempo Hernâni.
ResponderEliminarFoi durante e após a 1ªGuerra Mundial (tempo dos meus pais). Foi durante e após a 2ª Guerra Mundial, já eu era nascido. Surgiram Salazar e o Cardeal Cerejeira, cuja máxima era: - O Povo para ser humilde, tem de passar fome. Logo a miséria perdurou ao longos dos tempos neste país de PEQUENINOS. Como eu era o mais velho de quatro irmãos, competia-me fazer os recados: um quilo de broa (22 tostões), mas que ao chegar a casa já lhe faltava um bom pedaço. Lembro-me bem do velho, mas verdadeiro conceito de que, quando pobre comprava galinha um dos dois estaria para morrer... etc.
Com a morte do ditador e a implantação da Democracia, pensava eu que, que esses tempos não mais voltariam. Puro engano, a Alemanha continua na sua saga destruidora, só que agora a Arma é uma mulher e as Balas são euros.
Os Salazares reproduziram-se entretanto e agora há um em cada freguesia.