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quarta-feira, 30 de outubro de 2024

E Portugal era em Fafe

Portugal era em Fafe e eu, fafense de rebimba o malho, tinha muito orgulho nisso. Portugal era um larguinho e situava-se na Rua José Ribeiro Vieira de Castro, como quem desce, à esquerda, entre a esquina do Toninho Nacor, o tasco antigo, e o Lombo, por assim dizer e com vossa licença. Morava ali gente de categoria, como, por exemplo, a Rosa do Piroco, o Landinho Queia com a mãe e a Senhora Felicidade, que costurava ao domicílio nas melhores casas da vila e era uma cerzideira tão perfeita que até passava despercebida. Portugal era um terreiro e tinha uma "cabine". A "cabine", segundo me explicaram, guardava e distribuía electricidade. Era uma espécie de almazém. A importância de Portugal, o país inteiro, ser em Fafe meteu-se-me em mim, em pequeno, e eu tinha a compenetrada mania de que era mais do que os outros, os que não eram de Fafe. Esta minha inclinação notou-se particularmente no meu tempo de seminário, onde eu sempre achei que era mais fino do que os outros. Os meninos das outras terras, e tantas eram, de Melgaço até bem abaixo de Braga, incluindo Vizela, detestavam estas minhas peneiras e, para mal dos seus pecados, só muito tarde da vida é que compreenderam que realmente eu era mais fino do que eles. Mas eles não tinham culpa, coitados, era apenas azar. Ninguém escolhe onde nasce, e a verdade é só uma: eles não nasceram em Fafe e portanto não tinham Portugal.
Pois Portugal ainda lá está, em Fafe, que é o seu sítio. O Largo de Portugal. Volvidos tantos anos, não sei se mantém os seus poderes intocados, os poderes que eu sei que Portugal tinha. A envolvência - isto é, Picotalho, Cavadas e tudo - foi escangalhada pelo progresso, que passa ali ao lado armado em auto-estrada a mais de mil à hora. Questão de urbanismo. Os portugalenses serão também certamente outros, gentes de maiores posses e novos saberes. Mas a "cabine" continua, firme e hirta, como castelo altaneiro, quero crer que ainda e sempre ligada ao negócio do retalho energético, alta tensão, perigo de morte. Viva Portugal! Viva Fafe! Abençoada terra que tem um país inteiro num largo dentro de si.

(Publicado originalmente no dia 14 de Dezembro de 2022. O Seminário de Nossa Senhora da Conceição, em Braga, faz 100 anos no próximo dia 14 de Novembro. Sigo com a série de republicações vitaminadas, assinalando a efeméride pela parte que me toca.)

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Era uma vez a Broadway

Foto Hernâni Von Doellinger

Corria o ano de 2016 e a Câmara de Matosinhos aproveitou as comemorações do 25 de Abril para inaugurar a sua Broadway, uma via de ligação dita pedonal entre a Praia de Matosinhos e as imediações da Circunvalação, decalcando o percurso do antigo canal ferroviário que apoiou a construção dos molhes do Porto de Leixões. E a autarquia, então presidida por Guilherme Pinto, chamou-lhe mesmo Broadway, a Broadway de Matosinhos, fez-se placa, subiu a toponímia, e eu, que moro exactamente aqui em Manhattan, mesmo ao lado da coisa, não percebi a americanice, e aliás achei-a uma transatlântica estupidez.
Não sei o que é se passou entretanto nem quando é que aconteceu, mas parece que a Câmara de Matosinhos, actualmente sob a presidência de Luísa Salgueiro, tomou sentido ao ridículo e mudou o nome à Broadway. Até pode ter sido há anos, mas eu só me apercebi ontem, e por isso aqui estou hoje a contar: a Broadway chama-se agora, com todas as tabuletas, Passeio da Praia. Isto aqui em Matosinhos! Em Nova Iorque, não sei se também.

domingo, 30 de outubro de 2011

Matosinhos, sol e saralhotos

Matosinhos à tarde. Sol. O casal descia a rua, em direcção ao mar, puxado pela trela do pequeno cocker. Eis senão quando, porventura desarranjado pelo strogonoff de vitela e leite-creme do almoço, o aflito canídeo arriou as calças e cagou ali mesmo em pleno passeio, com evidente alívio pessoal e grande satisfação dos babados papás. Acabada a obra, a madama, higiene e civismo acima de tudo, foi à carteira e retirou um lenço de papel de um branco imaculado, abriu-o e voltou a dobrá-lo, agora apenas em dois, baixou-se e... limpou o cu ao cão. Depois amarrotou o papel e lançou-o para junto do saralhoto. E lá seguiram os três para o mar e para o sol, dois deles puxados pela trela.
A autarquia agradece. Faz colecção. No brasão de Lisboa figuram corvos, no de Matosinhos deviam desenhar saralhotos.