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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Urbano Tavares Rodrigues 6

Mulheres do Alentejo

Mulheres do Alentejo
Com papoilas nos olhos
São primaveras erguidas
Contra os bastões contra as balas
Oculto o rosto
Seus negros chapéus descidos
Frene ao sol
O claro choro nas mãos
Com bagos de amanhã.
São cor de terra
Cor de trabalho
Cor da habituação à dor.
Nossa Pátria do sofrimento
E do valor
Meu sinal de luz
Em toda a palavra que escrevo
Meu território do regresso e do futuro
Minha praia de secura
Percorrida pelo ódio e pelo pânico
Eis o ardente povo torturado
Esperança viva de um sonho feito carne
Mulheres searas fontes azinheiras
Nossa esperança, ainda em flor e fruto
No vermelho das feridas deste País de Abril

 
Urbano Tavares Rodrigues

(Urbano Tavares Rodrigues nasceu no dia 6 de Dezembro de 1923. Morreu em 2013.) 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Urbano Tavares Rodrigues 5

Dois poemas de amor e vida

I
Rosa vibrante dos subterrâneos
de uma nova resistência
desabrochas
com a luz do dia
sempre ao meu lado
o rosto e o seio
irradiando
o fogo jovem da paixão
dá-me essa água
da felicidade
que nos teus olhos brilha
Quero o sumo dos teus lábios
Entrar no jardim do teu corpo
é o esplendor da vida.

II
Nas folhagens do azul
mais luminoso
encontro a música silenciosa
do teu primeiro sorriso
e lembro
depois
o automóvel cortando a noite
a tua boca fremente
a tua mão na minha
Lisboa a madrugar

no renascer do mundo

"Horas de Vidro", Urbano Tavares Rodrigues

(Urbano Tavares Rodrigues nasceu no dia 6 de Dezembro de 1923. Morreu em 2013.)  

domingo, 6 de dezembro de 2015

Urbano Tavares Rodrigues 4

Pela janela aberta entra uma lufada de calor, o sopro bárbaro deste Julho que até dilata as portas e greta as paredes. Todo o bairro sua um sono de pequena morte. Do fundo do tempo e desse calor vêm uns dedos enormes, em brasa, angustiar a face sonâmbula da mulher que se senta em frente do juiz, puxando para baixo a saia indiscreta de seda rosada.
O inspector descobre então as delicadas veias daquelas pernas ainda jovens, que a crueza do sol também atormenta.
A respiração da cidade atroada pela zanga permanente dos cláxons tem um cheiro meridional a jasmim, a peixe frito e ao obscuro vinho do crime. Na calma relativa daquele bairro residencial, o DIAP fervilha de interrogatórios, depoimentos, passos e empurrões nos corredores e muita desgraça aviada.
- Sandra Carvalhal Henriques?
- Sim.
- Sr.ª engenheira, a senhora não se dá bem com o seu marido?
- Por que me faz essa pergunta, sr. inspector?
- Tem o direito de não responder. De resto, nem é indispensável que responda. Só estou a tentar compreender esta embrulhada toda.
- Pois, se quer que lhe diga, até me dou bem com o meu marido. Quase nunca discutimos, vivemos em boa harmonia. Só que... Apeteceu-me ter uma amizade colorida. Ou nem isso: um encontro bonito. Se desse certo... Foi uma amiga que me falou em usar a
internet... É mais prático. E é anónimo.
- A senhora é engenheira informática?
- Sim.
- Isso agora é moda? Essas conversas preliminares, esses encontros?
- Não sei se é moda, faz-se.
- E deu certo?
- Mais ou menos.

 
"O Eterno Efémero", Urbano Tavares Rodrigues

(Urbano Tavares Rodrigues nasceu no dia 6 de Dezembro de 1923. Morreu em 2013.)

sábado, 6 de dezembro de 2014

Urbano Tavares Rodrigues 3

Destino

I
Trago na fonte
e estrela do fogo
da minha revolta
Nunca aceitaria qualquer tirania
nem a do dinheiro
nem a do mais justo ditador
nem a própria vida eu aceito...
tal como ela é
com todas as promessas
do amor e da juventude
e a parda doença
de envelhecer
a morte em cada dia
antecipada

II
Na mais lebrega alfurja
ou na cama de folhas macias
da floresta
onde a chuva te adormeceu
há sempre um idamante de sol
cujos raios te penetram de
ventura
ao sonhares a palavra
liberdade

III
Quando a terra poluída
tiver sorvido
toda a água dos lagos e das
fontes
hei-de levar o meu fantasma
até ao porto sonoro
onde a esperança cai a pique
sobre o mar dos desejos sem limite

"Horas de Vidro", Urbano Tavares Rodrigues

(Urbano Tavares Rodrigues nasceu no dia 6 de Dezembro de 1923. Morreu em 2013.)  

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Urbano Tavares Rodrigues 2

Disse-te um dia

Disse-te um dia
que havia de dar-te uma estrela
tão real como os sonhos
do rio Guadalquivir
e o perfume adolescente
do teu corpo
a ondular na aurora de Sevilha
Não foste comigo a Barcelona
ver as pesadas corolas e os mosaicos
de La Pedrera
mas espera-me no aeroporto
de nunca antes
o rumor febril dos teu olhos
onde aprendi
que o tempo não existe
Mas a vida pode ser
também mágoa escura
bem sabes
Por isso te prendo
as mãos sobre as ancas
para não fugirmos mais um do outro
e bebo todo o sol e afinal o tempo
nos teus lábios.

"Horas de Vidro", Urbano Tavares Rodrigues

(Urbano Tavares Rodrigues nasceu no dia 6 de Dezembro de 1923. Morreu este ano, em Agosto.)

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013)

Primavera

A Primavera vem dançando
com os seus dedos de mistério e turquesa
Vem vestida de meio dia e vem valsando
entre os braços dum vento sem firmeza


Nu como a água o teu corpo quieto e ausente
Só este inquieto esvoaçar do teu sorriso
Loiro o rosto o olhar não sei se mente
se de tão negro e parado é um aviso
do destino que me fixa finalmente


Ai, a Primavera vai passando
com os seus dedos de mistério e de turquesa
Segue Primavera vai cantando
Que será do nosso amor nesta praia de incerteza


"Horas de Vidro", Urbano Tavares Rodrigues