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terça-feira, 12 de junho de 2012

Anthony Bourdain deixou-me ficar mal

Gosto do estilo e dos programas de Anthony Bourdain, a estrela de televisão que acaba de se mudar de armas e bagagens para a CNN. Apresentei-o a amigos, recomendei-o aqui. E gosto tanto que, ao princípio da noite de sábado, enquanto quase quatro milhões de portugueses sofriam com a segunda parte do Alemanha-Portugal da RTP, eu entretinha-me a ver na SIC Radical dois episódios do No Reservations, um dos quais dedicado a Macau. Mas fiz mal. Afinal tive um desgosto, já não bastava o da bola.
São episódios recentes, suponho que da temporada de 2011. No de Macau, que é o que para o caso interessa, a certo passo Bourdain quer saber da herança lá deixada pelos portugueses, nomeadamente na gastronomia, e levam-no ao Restaurante Fernando. É casa de açoriano e é ali que o ex-chef mais famoso do mundo vai provar os dois mais notáveis paradigmas da cozinha tradicional açoriana: as tripas à moda do Porto e a carne de porco à alentejana. Não estou a brincar. Eu nunca mais tenha apetite se não foi assim que Anthony Bourdain referiu depois estes dois pratos no seu programa: a dobrada e o porco com amêijoas como invenções dos Açores.
Confundiram-no ou confundiu-se. Em qualquer dos casos, o bom do Tony não fica bem no retrato. Vê-se que se calhar não se prepara, dá para desconfiar que não pesquisa, que não confirma. É uma celebridade, bebe uns copos e faz ele muito bem, fia-se nos informadores locais, assina por baixo e faz ele muito mal. Percebo agora porque é que comeu bifanas em Lisboa.
Curiosamente, até há quem defenda que a carne de porco à alentejana é um prato de origem algarvia, confeccionado, isso sim, com carne de animais alimentados no Alentejo, mas deslocalizá-lo para os Açores é ir longe de mais. É meter muita água pelo meio. Já quanto às famigeradas tripas, fosse Bourdain aos seus arquivos pessoais e teria facilmente descoberto que, dez anos antes, elas lhe tinham sido apresentadas e explicadas no Porto, o local certo e de nascença.
Salvou-se a alcatra, que também saltou para a mesa do restaurante macaense. A alcatra, sim, pode ser entronizada como o grande contributo da cozinha açoriana para o património gastronómico da humanidade. A alcatra honesta, feita por mão sábia e em alguidar experiente, a alcatra do aroma que chama, do gosto como nenhum outro, da carne a desfazer-se na boca. A alcatra de Vitorino Nemésio, da festa e da fartura. Da partilha.
Melhor do que a alcatra, só a alcatra de peixe. Exactamente, alcatra de peixe. Melhor ainda: a alcatra de peixe de um certo sítio em Porto Judeu, não muito longe de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira. Que mais querem saber? O Zé do Boca Negra trata os clientes todos por tu? Trata. Dá raspanetes à freguesia? Dá, mas é a única borla. É sportinguista? É, coitado. Fala pelos cotovelos? Fala, fala. Tem quatro. Quatro em cada braço. E a alcatra de peixe? É um fenómeno ainda maior.

domingo, 14 de agosto de 2011

O adiantado mental no país do atraso de vida

De volta aos peneirentos, um nome a fixar: Pedro Boucherie Mendes. Ouvi-o ontem, sem querer, na Antena 3, o canal humorístico da rádio nacional. E, indo directo ao assunto, o que o cavalheiro afirma, sem falsas modéstias, é que é bom, muito bom, e que ser assim tão bom não lhe custa absolutamente nada, já nasceu com ele. É uma cruz bem leve a que ele carrega, a cruz da excelência.
Boucherie diz e repete que não tem culpa nem se esforça, mas é bom em tudo o que faz e tudo o que faz é bem feito. E revela até, benzendo-se três vezes com água-benta, que está muito feliz por continuar a ser bom - uma vez que não consegue ser de outra maneira -, "mas cada vez pior", nas suas sábias e exactas palavras.
E "cada vez pior" porquê? Porque (explica Boucherie, fazendo o desenho, para que nós cá em baixo percebamos) lhe basta investir 40 a 50 por cento de si próprio para, mesmo assim, estar muito acima de todos os que o rodeiam. Num país "que se nivela por baixo", como assertivamente faz notar, os seus 70 por cento seriam para rebentar com a escala. Portugal não aguentaria. É a tal história do zarolho em terra de cegos...
Mal cheguei a casa, fui logo à procura deste genial Boucherie. Procurei a vacina que ele inventou, e nada. Procurei a cura que ele descobriu, e nada. Procurei a obra de arte que o imortalizou, e nada. Procurei a colónia de leprosos que fundou, e nada. Procurei o cometa que baptizou, e nada. Procurei o tal golo de calcanhar na final do Mundial, e nada. Procurei a sua doutrina económica, e nada. Procurei o seu pensamento filosófico, e nada. Procurei o seu pensamento, e nada. Procurei o Nobel, procurei o Pulitzer, procurei o Óscar, procurei o Acúrsio, e nada, nada, nada, nada. Nada.
O que encontrei foi isto: que Pedro Boucherie Mendes nasceu em 1970 e é o actual director coordenador de conteúdos dos canais temáticos SIC e director-geral da SIC Radical; que foi director da revista FHM, subdirector da revista Maxmen e editor no jornal O Independente; que criticou música e passou pela rádio, participando agora semanalmente no programa "Pedro e Inês", da Antena 3 (cá está); que participou no programa "Prazeres dos Diabos", da SIC; que foi jurado do programa "Ídolos", da SIC, e que terá ficado conhecido pela ironia e pelo sarcasmo dos seus comentários e pela forma como se dirigia aos concorrentes; e que escreveu um livro.
E, perante isto, lembrei-me do mais famoso calceteiro do País. Um português também muito acima e com um currículo mediático-artístico-literário a pedir meças ao de Boucherie, se descontarmos a insignificância dos cargos de direcção. Exactamente: lembrei-me do bom Tino de Rans.