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segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Fiz anos e comi 21 gafanhotos... vivos

Quando fiz 21 anos comi 21 gafanhotos vivos. Obrigaram-me. E não me queixo, embora tenha sido uma canseira andar a apanhá-los um a um no mato, eles aos saltos e eu de cócoras, um sol do caraças, a risota do maralhal, o corpo moído, uma sede que eu sei lá, mas antes isso do que passar o dia inteiro a levar pancada. O dia e a noite. Por outro lado, apesar de ter comido 21 gafanhotos vivos quando fiz 21 anos, passei aqueles dias todos a levar pancada. Aqueles dias e aquelas noites.
Eram assim os Comandos, havia um cuidado muito grande com a nossa alimentação. Por vontade de quem mandava, nós, os desprezíveis instruendos, estaríamos sempre a comer, às mãos desabridas de sargentos e cabos com idade para serem coronéis, com poderes de general, práticas de verdugo descontrolado e tremendas saudades ultramarinas. Consta que, quarenta anos passados, os Comandos ainda são assim. E que às vezes "as coisas correm mal"...
Em 1978 correu mal uma aula de morteiros. Um instrutor jactante e incompetente, como se exige que sejam os instrutores, apontou para o infinito, despoletou a granada e, sem querer, deixou-a escorregar tubo abaixo. Pum! O morteiro só parou em cheio num centro comercial da Amadora, por acaso com pessoas dentro. Sei disto porque estava lá, do lado do morteiro e do instrutor palerma. E, para evitar problemas com a população, não me deixaram vir a casa nesse fim-de-semana.
Quanto aos gafanhotos, fritos e de escabeche talvez marchassem melhor. E depois um golinho de água, por favor...

P.S. - Não fui voluntário.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O foguetão e o peido-mestre

(Onde se fala do sábio Eurico da Fonseca, do obeso Kim Jong-un, dos Comandos, da Amadora e de um morteiro descontrolado)

Não sei se se lembram: Eurico da Fonseca (1921-2000) foi o principal especialista português em astronáutica. Praticamente autodidacta, nomeado investigador por decreto-lei e oficialmente equiparado a professor catedrático, colaborou com a NASA e conheceu os principais responsáveis pelo Programa Apollo. Notabilizou-se, entre nós, como divulgador de assuntos científicos. Na rádio, acompanhou em directo, na então Emissora Nacional, a chegada do homem à Lua e comentou os voos espaciais norte-americanos e soviéticos. Mas era na RTP que eu gostava de o ouver. Ouver, escrevi bem.
Foi com Eurico da Fonseca na televisão que eu aprendi que, quando se fala de um aparelho em forma de vibrador que sobe ao céu deixando atrás de si um fluxo de gás a alta velocidade, se deve dizer foguete e não foguetão. Ele explicava, apenas insinuando, que foguetão é outra coisa, por exemplo coisa gasosa, eventualmente sonora e por norma fedorenta. Isto é: um peido, como muito bem diria o nosso travesso Salvador Vilar Braamcamp Sobral.

Em 2012, a Coreia do Norte do obeso Kim Jong-un comemorou o centenário do nascimento do fundador do país, o avô Kim il-sung, pai de Kim Jong-il (esta família tem uma certa queda para ganhar eleições), com o lançamento de um foguetão, como então diziam as nossas notícias. O mundo ficou num à-rasquismo que só visto. Os EUA barafustaram, a ONU repreendeu, a Rússia e a China torceram o nariz, o que não deixa de ter piada. Vários países da região prepararam-se para a eventualidade de algo correr mal, companhias aéreas cancelaram voos ou mudaram rotas para evitarem o querido foguetão que se chamava Unha-3. A dúvida: e se o foguetão do Gordo não for tão seguro como os foguetões americanos, russos e chineses, que correm sempre bem? E se o foguetão norte-coreano encrava e dá o grandessíssimo peido-mestre mesmo em cima da cabeça, para não ir mais longe, dos vizinhos da Coreia do Sul? Já viram a merda que era?...
Não foi.

Cinco anos passados, a Coreia do Norte do obeso Kim Jong-un lança foguetões um por semana, mas agora as nossas notícias chamam-lhes mísseis, dizem que podem levar bombas a bordo e que conseguem chegar ao Alasca americano, embora por norma caiam como tordos no mar do Japão. Qualquer dia, não...

Em 1978 correu mal uma "aula" de morteiros no nosso Regimento de Comandos. Um instrutor jactante e incompetente, como ainda hoje se exige nos Comandos, apontou para o infinito, despoletou a granada e, sem querer, deixou-a escorregar para dentro do tubo. Pum!, o morteiro só parou em cheio num centro comercial da Amadora... com pessoas por acaso.
Sei disto por estava lá, do lado do morteiro e do instrutor palerma. E não me deixaram vir a casa nesse fim-de-semana.