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sábado, 22 de maio de 2021

Jorge Barbosa 3

Prelúdio

Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.

Nem setas venenosas vindas do ar
nem gritos de alarme e de guerra
ecoando pelos montes.

Havia somente
as aves de rapina
de garras afiadas
as aves marítimas
de voo largo
as aves canoras
assobiando inéditas melodias.

E a vegetação
cujas sementes vieram presas
nas asas dos pássaros
ao serem arrastados para cá
pelas fúrias dos temporais.

Quando o descobridor chegou
e saltou da proa do escaler varado na praia
enterrando
o pé direito na areia molhada

e se persignou
receoso ainda e surpreso
pensa n'El-Rei
nessa hora então
nessa hora inicial
começou a cumprir-se
este destino ainda de todos nós.

Jorge Barbosa

(Jorge Barbosa nasceu no dia 22 de Maio de 1902. Morreu em 1971.)

domingo, 9 de junho de 2019

Alda Lara 3

Prelúdio

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra desce com ela.

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guizos
nas suas mãos apertadas...

Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
tem voz de noite descendo
de mansinho pela estrada.

... Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada.
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo,
Mãe-Negra...

É que os meninos cresceram,
e esqueceram
as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram pra longe,
quem sabe se hão de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaços,
bem quieta, bem calada...

É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo
de mansinho pela estrada...


Alda Lara

(Alda Lara nasceu no dia 9 de Junho de 1930. Morreu em 1962.)

sexta-feira, 10 de março de 2017

José de Mesquita 3

Prelúdio
 
Eu imagino uma mulher
que eu heide amar e me há de amar,
e que eu, esteja onde estiver,
a todo tempo, hei de encontrar.


À força já de imaginá-la
sinto-a real diante de mim:
vejo-lhe o riso, ouço-lhe a fala...
Já se viu caso extranho assim?

 
Constantemente eu imagino
a hora ditosa dela vir
e, entanto, o meu cruel destino
não ma fez inda descobrir.

 
Em quantas outras julguei dela
ver as feições e me enganei!
Nenhuma era tão meiga e bela
Como essa que eu imaginei!


Às vezes cuido vê-la andando
nas ruas, entre a multidão,
e vivo sempre me enganando
nessa dulcíssima ilusão.


"Poesias - do Amor, da Natureza, do Sonho, da Arte", José de Mesquita

(José de Mesquita nasceu no dia 10 de Março de 1892. Morreu em 1961.)

domingo, 7 de dezembro de 2014

Soledade Summavielle 3

Prelúdio

Antes que o tempo estanque a voz e a vida,
eu volto a cantar.
Não com aquele acento de pureza
prometido nos meus primeiros versos.
Mas sempre com a íntima certeza
desta sinceridade que lhes dou
- espelho de mim mesma -
coisa que o tempo ainda não levou.

"Tumulto", Soledade Summavielle

(Soledade Summavielle nasceu no dia 7 de Dezembro de 1907. Morreu em 2000.)