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domingo, 14 de abril de 2019

Aluísio Azevedo 7

Imagine-se um homenzinho de cinco pés de altura sobre um de largo, com uma grande cabeça feia, quase sem testa, olhos fundos, pequenos e descabelado; nariz de feitio duvidoso, boca sem expressão, gestos vulgares, nenhum sinal de barba, braços curtos, peito apertado e pernas arqueadas; e ter-se-á uma ideia do tipo do meu malogrado amigo.

"Polítipo", Aluísio Azevedo 

(Aluísio Azevedo nasceu no dia 14 de Abril de 1857. Morreu em 1913.)

sábado, 14 de abril de 2018

Aluísio Azevedo 6

Tipo destinado a perder-se na multidão, mas que a cada instante se destacava justamente pela sua extraordinária vulgaridade; tipo sem nenhum traço individual, sem uma nota própria, mas que por isso mesmo se fazia singular e apontado; tipo cuja fisionomia ninguém conseguia reter na memória, mas que todos supunham conhecer ou já ter visto em alguma parte; tipo a que homem algum, nem mesmo aqueles a quem o infeliz, levado pelos impulsos generosos de sua alma, prestava com sacrifício os mais galantes obséquios, jamais encarou sem uma instintiva e secreta ponta de desconfiança.
Se em qualquer conflito, na rua, num teatro, no café ou no bonde, era uma senhora desacatada, ou um velho vítima de alguma violência, ou uma criança batida por alguém mais forte do que ela, Boaventura tomava logo as dores pela parte fraca, revoltava-se indignado, castigava com palavras enérgicas o culpado; mas ninguém, ninguém lhe atribuía a paternidade de ação tão generosa. Ao passo que, quando em sua presença se cometia qualquer ato desairoso, cujo autor não fosse logo descoberto, todos olhavam para ele desconfiados, e em cada rosto o pobre Boaventura percebia uma acusação tácita.

"Polítipo", Aluísio Azevedo 

(Aluísio Azevedo nasceu no dia 14 de Abril de 1857. Morreu em 1913.)

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Aluísio Azevedo 5

Suicidou-se anteontem o meu triste amigo Boaventura da Costa.
Pobre Boaventura! Jamais o caiporismo encontrou asilo tão cômodo para as suas traiçoeiras manobras como naquele corpinho dele, arqueado e seco, cuja exiguidade física, em contraste com a rara grandeza de sua alma, muita vez me levou a pensar seriamente na injustiça dos céus e na desequilibrada desigualdade das coisas cá da terra.
Não conheci ainda criatura de melhor coração, nem de pior estrela. Possuía o desgraçado os mais formosos dotes morais de que é susceptível um animal de nossa espécie, escondidos porém na mais ingrata e comprometedora figura que até hoje viram meus olhos por entre a intérmina cadeia dos tipos ridículos.
O livro era excelente, mas a encadernação detestável.

"Polítipo", Aluísio Azevedo 

(Aluísio Azevedo nasceu no dia 14 de Abril de 1857. Morreu em 1913.)

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Aluísio Azevedo 4

No necrotério, onde fui por acaso, encontrei já muita gente; e todos aflitos, e todos agoniados defronte daquele cadáver que parecia com um parente ou com um amigo de cada um deles.
Havia choro a valer e, entre o clamor geral, distinguiam-se estas e outras frases:
Meu filho morto! Meu filho morto!
Valha-me Deus! Estou viúva! Ai o meu rico homem!
Oh, senhores! Ia jurar que este cadáver é o do Manduca!
Mas não me engano! É o meu caixeiro!
Dir-se-ia que este moço era um meu antigo companheiro de bilhar!...
E eu aposto como é um velho, que tinha um botequim por debaixo da casa onde eu moro!
Qual velho, o quê! Conheço este defunto. Era estudante de medicina! Uma vez até tomamos banho juntos, no boqueirão. Lembro-me dele perfeitamente!
Estudante! Ora muito obrigado! Há mais de dois anos chamei-o fora de horas para ir ver minha mulher que tinia de cólicas! Era médico velho!
Impossível! Afianço que este era um pequeno que vendia jornais. Ia levar-me todos os dias a Gazeta à casa. É que a morte alterou-lhe as feições.
Meu pai!
O Bernardino!
Olha! Meu padrinho!
Jesus! Este é meu tio José!
Coitado do padre Rocha!
Pobre Boaventura! Só eu compreendi, adivinhei, que aquele cadáver não podia ser senão o teu, ó triste Boaventura da Costa!
E isso mesmo porque me pareceu reconhecer naquele defunto todo o mundo, menos tu, meu desgraçado amigo.

"Polítipo", Aluísio Azevedo 

(Aluísio Azevedo nasceu no dia 14 de Abril de 1857. Morreu em 1913.)