Mostrar mensagens com a etiqueta Pelópidas Soares. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pelópidas Soares. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 27 de março de 2018

Pelópidas Soares 2

Cristina viera do Quartier Latim, com bolsas de estudos e outras virações para se manter, de família legendária no Estado, de estróinas, poetas, escritores e um tio pintor famoso, itinerante entre Recife-Rio-Paris, para quem Cristina também, dizia-se, serviu de modelo, nuinha, na sua temporada francesa. Ao casamento levou-a a atração do nome Mesquita, símbolo de terras, canaviais, bois, moendas e gente. Esguia e loura, verdes olhos brilhantes, o Dr. Adroaldo Mesquita seguia-lhe os passos, submisso, contrariando os seus próprios princípios.

"Alaursa - Contos", Pelópidas Soares

(Pelópidas Soares nasceu no dia 27 de Março de 1922. Morreu em 2007.)

segunda-feira, 27 de março de 2017

Pelópidas Soares

Inusitada a aventura vivida por Espantalho. Vendo-se, difícil de acreditar. Extraordinária mesmo em gente de alta categoria, mais singular com um tipo reles, simples fumega, asilado de zona - quem diria?
Viera da palha da cana, onde seus ascendentes tinham uma tradição de quatrocentos anos de servidão e miséria. Milagre de sobrevivência contra todo o conceito de calorias, proteínas, sais minerais.
Magro e desengonçado, libertara-se do eito, do sol e da chuva no cambito. Instalara-se na zona que prolonga o canavial, bagaceira humana onde, ainda adolescentes, as mulheres chegam trazendo no corpo e na alma o pelo da palha da cana ou as limalhas das oficinas. Mocinhas analfabetas, dos campos canavieiros ou semialfabetizadas, das sombrias vias operárias. Mesmo assim, elas não chegaram para o bico do Espantalho.
Gestos largos de palhaço, corpo elástico nos trejeitos, alguém gritou, certa noite, na pensão de Ernestina do Cabelão:
- Espantalho!
Risadagem geral, ecoando por todas as bancas, nome preciso e insubstituível, que ficou para sempre, perdendo o nome do batismo.
O que não tinha grande importância: não era registrado em cartório e nunca fora recenseado. Não figurava, portanto, na estatística nacional.


"Alaursa - Contos", Pelópidas Soares

(Pelópidas Soares nasceu no dia 27 de Março de 1922. Morreu em 2007.)