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sábado, 5 de junho de 2021

Pedro Nava 10

Aterrissage

Um risco nos íngremes
e queda vertical de reticência de sóis.

Brilhos mica,
facetas duras,
multiplicando a paisagem
como os olhos simultâneos de um inseto

Tropicão, trambolhão
salto
pulo
rodopio
e a bola, espirala, resvala, rebola,
encarola,
desenrola

e de novo
reta como uma bola,

rola...

ROLA
e voa e vai varando vertiginosa o vácuo vago
e assoviiiia fino no espaço oco...

UMA PEDRA ROLOU PELA ENCOSTA DA MONTANHA.

Pedro Nava

(Pedro Nava nasceu no dia 5 de Junho de 1903. Morreu em 1984.)

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Pedro Nava 9

Ventania

O vento veio maluco lá do alto do Bonfim
e veio chorando da tristura do cemitério.

Zuniu na praça do mercado
assuviou as mulatas avenida do comércio
e mexeu na saia delas.
Arrancou folha das árvores
poeira sungou do chão
depois virou
soprou
correu
danou
e entrou feito uma carga na avenida Afonso Pena,

O obelisco cortou ele pelo meio
mas ele foi avuando
e os fios da C.E.V.U. como cordas de viola
vibraram dum som longo
que cobriu Belo Horizonte feito um lamento.

O vento passou desmandado no Cruzeiro
saiu pro campo dobrou a mata
mas de repente
sua disparada pára na parede Serra do Curral
e o bicho stopa mas sapeca no morro um sopapo
que estrala que nem ginipapo
que mão raivosa
chispasse num muro curo.

Co-nhe-ceu papudo?


Pedro Nava

(Pedro Nava nasceu no dia 5 de Junho de 1903. Morreu em 1984.)

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Pedro Nava 8

Poema para Rodrigo Melo Franco de Andrade

Os elevadores estacaram unanimemente
e sem transição vibraram todos os tímpanos.
Depois um choro desmedido
derramou-se pelo edifício.
Mas foi parando aos poucos,
até perder-se em soluços abafados
um a um.
E houve o silêncio.

Eu suspeitei sem a menor malícia
a presença terrível dos arcanjos...
Mas onde?

Todos tinham medo de se fitar,
tanto a verdade fazia esforços
para se manifestar nas fisionomias cor de cinza.

O momento era de uma gravidade infinita
e devia haver uma lucidez inusitada nos homens,
porque todos pressentiram a decepção irremediável...
- enorme como o sentido oculto das coisas inertes
(seu sentido poético!)

E a presença de Deus foi tão absoluta
nas almas retransidas de horror,
que os poetas se sumiram na noite,
tornados de repente inúteis.


Pedro Nava

(Pedro Nava nasceu no dia 5 de Junho de 1903. Morreu em 1984.)

terça-feira, 5 de junho de 2018

Pedro Nava 7

Palíndromo do amigo

Amora, roma:
Amor a Roma.
Amor, aroma:
Amor a Roma.

Pedro Nava

(Pedro Nava nasceu no dia 5 de Junho de 1903. Morreu em 1984.)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Pedro Nava 6

Educação sentimental 

Mariquita fechou o Escrich
e teve vontade dum espanhol
com seu punhal
para matá-la...
 

Pedro Nava

(Pedro Nava nasceu no dia 5 de Junho de 1903. Morreu em 1984.)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Pedro Nava, poeta bissexto

Reflexos

Poça
Pedra
Tibloung
blong

A água espelho rachado
salpica pingos que
são pedras
preciosas
que são vidro
são aço
são água

Pingo
pingou
a floculação de bolhas subiu
a superfície espelho estalou
bolas
borbulhando

CONCÊNTRICOS

anel
os anéis
mais anéis
amassando alongando
uma paisagem que se desloca
centrífuga
tremida
sa-cu-di-da

Brilhos
prata
coriscos
riscos
prismas

Telhados moles aplastam-se misturando-se
às janelas molambos em
oscilações tombos
bambos
rolando
no reflexo imprevisto

Onda
margem
schlapp
plap
plaff

O círculo
abre
afasta-se
fecha
vai
vem
com preguiça
mo-le-men-te

Os telhados bêbados
tentaculizam cumieiras
as chaminés
virguladas
são serpentes
que se imobilizam
devagar
devagar

O polvo de ouro recolhe os braços
desemaranha-os
e como uma pasta
resume-se
bola
SOL

Janelas
parando
parando
paradas
pregadas
no espelho achatado das águas pesadas.
 
Pedro Nava

domingo, 5 de junho de 2016

Pedro Nava 4

Se eu soubesse brincar 

Si eu tivesse seis anos si soubesse brincar
pedia ao Menino Jesus que viesse me dar
seus brinquedos coloridos


E ele dava mesmo dava tudo
dava brinquedos variados de todas as cores
brinquedos sortidos
dava bolas lustrosas pra eu soltar de noite e
mandar todas pro céu com minha reza


Dava bolas dava quitanda dava balas
e havia de ficar melado, todo doce de minha baba.


E dava homenzinhos, arvinhas, bichinhos, casinhas
e em minhas mãos ingênuas eu tirava o mundo novinho,
cheiroso de cola e verniz, das caixas nurembergue
pra recomeçar deslumbrando a brincadeira da vida


O Menino Jesus dava tudo si eu fosse menino
si soubesse brincar pra brincar com ele. 


Pedro Nava

(Pedro Nava nasceu no dia 5 de Junho de 1903. Morreu em 1984.)

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Pedro Nava 3

Noturno de Chopin

Eu fico todo bestificado olhando a lua
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin

Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim...
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim...

Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.

Os olhos de você, amor...

O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor...)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.

Pedro Nava

(Pedro Nava nasceu no dia 5 de Junho de 1903. Morreu em 1984.)

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Pedro Nava 2

O defunto

Quando morto estiver meu corpo,
Evitem os inúteis disfarces,
Os disfarces com que os vivos,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.

Não quero caixão de verniz
Nem os ramalhetes distintos,
Os superfinos candelabros
E as discretas decorações.

Quero a morte com mau-gosto!

Dêem-me coroas de pano.
Dêem-me as flores de roxo pano,
Angustiosas flores de pano,
Enormes coroas maciças,
Como enormes salva-vidas,
Com fitas negras pendentes.

E descubram bem minha cara:
Que a vejam bem os amigos.
Que não a esqueçam os amigos.
Que ela ponha nos seus espíritos
A incerteza, o pavor, o pasmo.
E a cada um leve bem nítida
A idéia da própria morte.

Descubram bem esta cara!


Descubram bem estas mãos.
Não se esqueçam destas mãos!
Meus amigos, olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
Em que sexos demoraram
Seus sabidos quirodáctilos?

Foram nelas esboçados
Todos os gestos malditos:
Até os furtos fracassados
E interrompidos assassinatos.


- Meus amigos! olhem as mãos
Que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam! Elas fugiram
Da suprema purificação
Dos possíveis suicídios.

 - Meus amigos, olhem as mãos!
As minhas e as vossas mãos!

Descubram bem minhas mãos!

Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo,
E até mesmo do meu corpo
As partes excomungadas,
As sujas partes sem perdão.

- Meus amigos, olhem as partes...
Fujam das partes,
Das punitivas, malditas partes...

Eu quero a morte nua e crua,
Terrífica e habitual,
Com o seu velório habitual.

- Ah! o seu velório habitual!

Não me envolvam em lençol:
A franciscana humildade
Bem sabeis que não se casa
Com meu amor da Carne,
Com meu apego ao Mundo.

E quero ir de casimira:
De jaquetão com debrum,
Calça listrada, plastron...
E os mais altos colarinhos.

Dêem-me um terno de Ministro
Ou roupa nova de noivo ...
E assim solene e sinistro,
Quero ser um tal defunto,
Um morto tão acabado,
Tão aflitivo e pungente,
Que sua lembrança envenene
O que resta aos amigos
De vida sem minha vida.

- Meus, amigos, lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,

Deste pobre terrível morto
Que vai se deitar para sempre
Calçando sapatos novos!
 

Que se vai como se vão
Os penetras escorraçados,
As prostitutas recusadas,
Os amantes despedidos,
Como os que saem enxotados
E tornariam sem brio
A qualquer gesto de chamada.

Meus amigos, tenham pena,
Senão do morto, ao menos
Dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
Sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
E olhai os vossos também.


 Pedro Nava 

(Pedro Nava nasceu no dia 5 de Junho de 1903. Morreu em 1984.)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Pedro Nava

A cozinha mineira, pouco abundante nos pratos de sal, que ficam nas variações em torno do porco, do toucinho, da couve, do feijão, do fubá e da farinha - é de uma riqueza extraordinária em matéria de sobrepastos. Hoje tudo mudou e minguou. Mas lembro-me bem da mesa de minha avó materna, em Juiz de Fora, onde a Inhá Luísa, da cabeceira, podia olhar a ponta dos meninos e das compoteiras, de que havia, ao jantar, umas quatro ou cinco repletas de doce. Menos, era penúria.
E que doces... Os de coco e todas as variedades, como a cocada preta e a cocada branca, a cocada ralada ou em fita, a açucarada no tacho, a seca ao sol. Baba-de-moça, quindim, pudim de coco. Compota de goiaba branca ou vermelha, como orelhas em calda. De pêssego maduro ou verde cujo caroço era como um espadarte no céu-da-boca. De abacaxi, cor de ouro; de figo, cor de musgo; de banana, cor de granada; de laranja, de cidra, de jaca, de ameixa, de marmelo, de manga, de cajá-mirim, jenipapo, turanja. De carambola, derramando estrelas nos pratos. De mamão maduro, de mamão verde - cortado em tiras ou passado na raspa. Tudo isto podia apresentar-se cristalizado - seco por fora, macio por dentro e tendo um núcleo de açúcar quase líquido.
Mais. Abóbora, batata roxa, batata doce em pasta vidrada ou pasta seca. Calda grossa de jamelão, amora, framboesa, araçá, abricó, pequiá, jaboticaba. Canjica de milho-verde tremendo como seio de moça e geléia de mocotó rebolando como bunda de negra. Mocotó batido, em espuma que se solidifica - para comer frio. Pamonha na palha - para comer quente, queimando os dedos. Melado. Tudo isto variando de casa para casa, segundo os segredos de suas donas e as invenções de suas negras - se desdobrando em outros pratos, se multiplicando em novos. Dos aristocráticos, com receitas pedindo logo de saída trinta e seis gemas, aos populares, como o cuscuz (só fubá, só açúcar, só vapor d'água e tempo certo) e como a "plasta" de São João del Rei (só fubá, só rapadura, só amendoim e ponto exato) - que tem esse nome pelo seu aspecto de bosta de boi, do emplastro que forma no tabuleiro quando cai da colher de pau.
E a abóbora da noite de São João? Era aberta por cima, esvaziada dos fiapos e caroços, cheia de rapadura partida, novamente tampada, embrulhada em folhas de bananeira e enterrada a dois palmos de fundo, debaixo das grandes fogueiras. Aí ficava duas, três horas e quando saía dessa moqueada, tinha cheiro de cana queimada e gosto ainda mais profundo que o das castanhas. Comia-se no fim das festas de junho bebendo crambambali e cantando até cair ao pé das brasas que morriam. O crambambali é bebida sagrada - um quentão legitimamente centro de Minas. A receita? Uma travessa cheia de pinga, rodelas de limão, lascas de canela e rapadura. Toca-se fogo na cachaça e deixa-se esquentar bastante. Apagar, coar e servir em canequinhas de gomo de bambu.

"Baú de Ossos", Pedro Nava

(Pedro Nava nasceu no dia 5 de Junho de 1903. Morreu em 1984.)