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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Pedro Luís 3

A um pai

Fitando longe os teus passados dias,
vendo tingidas de mortais palores
trêmulas crenças, entre murchas flores,
em pó desfeitas puras alegrias;


em sonho, em riso, em lágrimas dirias:
- "A noite rola fúnebres vapores...
Mas brilha a estrela d'alva! Aos seus fulgores
é verde o campo, o mar tem harmonias".


Era esse filho que adoravas tanto,
na densa névoa da alma entristecida,
azul estrela, da alvorada o canto!


Cedo trocou-se na estação querida
do orvalho a gota em pérola de pranto,
morreu em flor a flor de tua vida.


Pedro Luís 

(Pedro Luís nasceu no dia 13 de Dezembro de 1839. Morreu em 1884.)

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Pedro Luís 2

Graziela 

Onda azul a correr tão vagarosa
Porque choras assim beijando as praias?
Não são virgens de amor as de Sorrento?
Onda azul, onda azul, porque desmaias?
A lua pelos céus corria bela
E a onda murmurava: Graziela!

Brisa macia, que brincais nas folhas
Da verde ramagem tão florida,
Porque não correis por esses campos
Espalhando perfumes, amor, vida?
A lua pelos céus corria bela
E a brisa murmurava: Graziela!

Virgem morena - desse céu de Itália
Porque choras assim? Tanta amargura!
O canto da guitarra é mais suave
Do que um gemido sobre a sepultura:
A lua pelos céus corria bela
E a brisa murmurava: Graziela!...

Pedro Luís

(Pedro Luís nasceu no dia 13 de Dezembro de 1839. Morreu em 1884.)

domingo, 13 de dezembro de 2015

Pedro Luís

O leque de marfim

Ela estava bonita a enlouquecer a gente!
Viva, fresca, feliz... gostei de vê-la assim!
Da música ao murmúrio estremecia ardente
E, rindo, machucava o leque de marfim.


Seus olhos eram negros, veludosos, puros...
Dois abismos! Dois céus! Fitei-os a tremer!
Costumado a trilhar caminhos sempre escuros,
Tenho medo da luz... Meu Deus, eu não quis ver.


Mas ela fascinava... Era um olhar, mais nada...
Rebelde, o coração nessa hora me traiu!
Aos dedos dessa virgem a ânfora sagrada
Entornando perfume à luz do sol se abriu.


Encostei-me ao piano. A chácara viçosa
Entoava das flores lânguida canção.
Eu cismava... - sei lá! - no céu, no mar, na rosa...
E minh’alma se foi nas asas da paixão.


Bem como o viajante em regiões polares
Que recorda chorando o seu torrão natal,
E avista de repente, incendiando os mares,
O divino esplendor da aurora boreal,


Assim eu triste, só, sem sombra d'esperança,
Dos gelos da descrença aonde vim parar
Sondei aquele riso! Amei essa criança,
Foi-me aurora de amor o negrejante olhar.


Brilhe embora uma vez... Banhou-me a luz divina
Vale uma eternidade um dia sempre assim...
Sempre hei de me lembrar da cândida menina
Que rindo machucava o leque de marfim.


Pedro Luís

(Pedro Luís Pereira de Sousa nasceu no dia 13 de Dezembro de 1839. Morreu em 1884.)