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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Carlos de Oliveira 5

Cantiga do ódio

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.

Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.

E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?


"Mãe Pobre", Carlos de Oliveira

(Carlos de Oliveira nasceu no dia 10 de Agosto de 1921. Morreu em 1981.)

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Carlos de Oliveira 3

Soneto

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.


"Mãe Pobre", Carlos de Oliveira

(Carlos de Oliveira nasceu no dia 10 de Agosto de 1921. Morreu em 1981.)

sábado, 10 de agosto de 2013

Carlos de Oliveira

O viandante 

Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia,
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.


"Mãe Pobre", Carlos de Oliveira

(Carlos de Oliveira nasceu no dia 10 de Agosto de 1921. Morreu em 1981.)