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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Lourenço Diaféria 2

Para uma garota de quinze anos

Nós a trouxemos para casa logo nos primeiros dias do mês de novembro, faz quinze anos. Tinha o rosto miúdo, um tufo enroladinho de cabelos pretos, e os olhos já prometiam ser o que são hoje: janelas escancaradas sob cílios longos. Chorava nas horas certas. Costumava tomar a última mamadeira da noite, ou largar o peito da mãe, já adormecida, e assim varava a madrugada até as primeiras luzes do dia.
Aprendeu a sorrir com a precocidade das crianças que vão ser alegres, e ficamos surpresos ao ver que o bebê descia do berço e ensaiava os passos na direção dos braços que o aguardavam. Cresceu com jeito de carneirinho: um carneirinho macio que gostávamos de carregar no colo, até que seus pés se desprenderam de todo e buscaram o contato com o chão de cimento, conquistando a gloriosa sujeira da infância.
Depois do banho, penteada, perfume de sabonete, se encolhia junto às minhas mãos e me aquecia com o calor de seu pijama de flanela.
Vejo-a de lancheira cor-de-rosa descobrindo a primeira tarde na escola, jardim onde se reuniam outras crianças de sua idade.
Um dia me trouxe um desenho pintado com todos os lápis de cor que eu lhe havia dado. Eu disse: "Está muito bonito!".
E era verdade.
Ganhou cartilha. Descobriu a música que as letras fazem quando se misturam a outras letras. Fez a primeira composição com tinta, ficou com receio de tirar nota baixa, roeu as unhas, freqüentou uma escola-modelo no Bexiga (magnífico projeto de ensino depois reduzido à expressão mais simples de uma escola como outra qualquer).
Nós a criamos com simplicidade e ternura.
[...]

"Para Uma Garota de Quinze Anos", Lourenço Diaféria 

(Lourenço Diaféria nasceu no dia 28 de Agosto de 1933. Morreu em 2008.)

domingo, 28 de agosto de 2016

Lourenço Diaféria

Nunca deixe seu filho mais confuso que você

De manhã, na copa. O pai mexe o café na xícara. O filho caçula vem da sala, dispara:
- Pai, o que é genitália? O homem volta-se:
- Ge... o quê?
- Genitália.
- Onde é que você tirou isso, da sua cabeça?
- Tá no jornal, pai.
- Genitália, no jornal? Bem, esse assunto não é comigo agora. Já estou atrasado pro trabalho. Cadê sua mãe? Rita! Ritinhaaaaa! Onde é que essa mulher se enfiou? Rita, venha ouvir aqui o que seu filho está aprontando.
Dona Rita desce esbaforida:
- Algum problema, Gervásio?
- Problema nenhum. O garoto está apenas querendo saber o que é genitália. Explique pra ele. Estou de saída.
- Genitália? Eu? Isso é conversa de homem pra homem. Vai dizer que você não sabe?
- Saber eu sei, lógico. Mas há coisas que a gente sabe o que é na teoria, mas fica difícil de explicar na prática.
- Deixa de bobagem.
- Tá bom. Depois, se eu pegar trânsito, quero só ver.
- Pode deixar, pai. Não precisa ficar discutindo você e a mamãe por causa de uma palavra. Eu pergunto pra tia da escola.
- Tá louco? A tia pode pensar mal da gente. Deixa comigo. Presta atenção: genitália é o mesmo que partes pudendas. Genitália é uma coisa muito antiga. Já existia no tempo do seu bisavô. No século passado, quando seu bisavô estava vivo, as pessoas tinham pudor. Elas ocultavam do público certas partes do corpo. Chegavam até ao exagero. As partes que ficavam mais resguardadas formavam, exatamente, a genitália. A genitália eram as partes pudendas.
- O umbigo era genitália, pai?
- Não. Na verdade, não era. Vou tentar explicar melhor. As pessoas tinham vergonha de mostrar o corpo. E uma certa parte do corpo era reservada ao extremo. Não aparecia nem em filme francês. As pessoas chamavam esse território misterioso de vergonhas. Isso é que é a genitália moderna.
- Bumbum é genitália, pai?
- Não. Acho que não estou sendo muito claro. Ritinha, você não quer dar uma mão?
- Não. Assuma.
- Bom, vou pras cabeças. Ahnnn. Hummmm. Abaixe as calças. Mais. Até os tornozelos. Isso. Pronto, tá aí a genitália.
- O umbigo?
- No térreo do umbigo. Que é que você vê embaixo do umbiguinho?
- Pô, pai. Vai dizer que o senhor não sabe o que é isso? É meu bingolim, pai.
- Ta aí. O bingolim é a genitália do homem. 
- Puxa, o senhor podia ter falado antes.
- Na vida, às vezes é preciso usar eufemismos. Por exemplo, a genitália da mulher tem um nome delicado, leve, ágil. Sabe o que estou querendo dizer, não sabe? Começa com b.
- Barata da vizinha?
- Não, filho. Borboleta.

"O Invisível Cavalo Voador - Falas Contemporâneas", Lourenço Diaféria

(Lourenço Diaféria nasceu no dia 28 de Agosto de 1933. Morreu em 2008.)