Mostrar mensagens com a etiqueta Lêdo Ivo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lêdo Ivo. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Lêdo Ivo 4

A clandestina

- Quem é esta clandestina
que dentro de mim viaja

e de mim não se separa
mesmo quando estou dormindo

e aparece nos meus sonhos
breve e leve como a neve?

Quem é esta clandestina
doce e branca e feminina

que me segue quando saio
sombra em mim dissimulada

e torna a voltar comigo
colada ao cair da tarde?

Quem é esta clandestina
que de mim não desembarca?

Sou seu trem ou seu navio?
Seu barco ou seu avião?

E sua voz me responde:
- És meu berço e meu jazigo.

Antes mesmo de nasceres
eu já estava contigo.

E sempre estarei em ti
até o fim da viagem.

"Crepúsculo Civil", Lêdo Ivo

(Lêdo Ivo nasceu no dia 18 de Fevereiro de 1924. Morreu em 2012.)

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Lêdo Ivo 3

Duração
 
Toda vida é breve
por mais que ela dure
entre a areia e o vento.

Todo amor é leve
mais leve que a neve
que cai sobre a relva.

Toda vida é treva
por mais que a ilumine
a luz de cem velas.

Todo fruto é amargo:
morde-o a morte com
seu único dente.

Toda eternidade
não dura um minuto
na manhã serena.


"Curral de Peixe", Lêdo Ivo

(Lêdo Ivo nasceu no dia 18 de Fevereiro de 1924. Morreu em 2012.)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Lêdo Ivo 3

O futuro dos corpos
 
Quando não tivermos
mais nenhum desejo
ficaremos juntos
onde estiver Deus


no desfiladeiro
que saqueia as almas
e devolve aos corpos
a nudez final.


Quando apenas formos
o sopro do vento
e a pureza da água


a nossa união
resplandecerá
no céu libertado.


"Crepúsculo Civil", Lêdo Ivo

(Lêdo Ivo nasceu no dia 18 de Fevereiro de 1924. Morreu em 2012.)

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Lêdo Ivo 2

A escavadeira
 
Todo silêncio me incomoda.
Ele sempre omite alguma coisa:
uma traição tramada entre as glicínias
a explicação final sobre a existência ou a inexistência de Deus
o rumor dos ratos no entulho
o choque entre a hélice e o vento no aeroporto desativado.
Mas a manhã irrompe no canteiro de obras e ouço o barulho da escavadeira.
Os homens já acordaram e voltaram a construir e a destruir.
Vão fazer novas casas e novos túmulos.


Na manhã de sol o fusca pára no oitão do motel.
Mais uma vez pênis e vagina vão tentar entender-se
neste mundo de tantos descencontros.
A escavadeira escava e as esteiras avançam na cratera aberta como uma corola.
Visto pelo olhos sonolentos do trocador de ônibus que passa pela avenida

o mundo é uma representação.

"O Rumor da Noite", Lêdo Ivo

(Lêdo Ivo nasceu no dia 18 de Fevereiro de 1924. Morreu em 2012.)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Lêdo Ivo

A queimada

Queime tudo o que puder:
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupas sujas
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência
e anuncia a arteriosclerose

os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.

Seja como os lobos: more num covil
e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.

Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita.

"Poesia Completa 1940 - 2004", Lêdo Ivo

(Lêdo Ivo nasceu no dia 18 de Fevereiro de 1924. Morreu em 2012.)