[...] As desenvoltas feirantes, em direitura do tabuleiro da ponte e segurando com a mão esquerda o cabresto da montada, formavam pelotão de guarda avançada aos pedestres que eram romaria. A outra mão apertada contra o regaço a cesta com mimos da horta e do jardim - mudas de couve galega, vagens temporãs, ervilhas de quebrar, pêras de entala, moita de cravinas, gabela de rainúnculos, ramito de amores-perfeitos ou de violetas ou das primeiras rosinhas-de-toucar. Na garupa da garranita tordilha, andilhas e manta listrada, repimpava-se burguezinha afidalgada, bonita de sua pessoa, que amarrou numa guita a penca de meia dúzia de pitas, sustidas do aparelho pela argola do rabicho, acima da retranca e de cabeça para baixo.
- Bom dia, belezinha. Com esses olhos tão lindos vais enfeitiçar meio mundo e a Academia em peso!
- Canté! Já não era muito pouco poder mirá-los nos seus, sequer um instantinho, sem que ninguém nos visse...
"Memórias do Capitão", João Sarmento Pimentel
(João Sarmento Pimentel nasceu no dia 14 de Dezembro de 1888. Morreu em 1987.)
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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
João Sarmento Pimentel 3
Dali passei a Santo Tirso, onde estive homiziado numa quinta toda murada como grande cerca de convento. Uma semana depois fui para a Torre, a velha casa de quando eu era moço e feliz. Só dois dias, e uma antiga criada apavorada, pois a polícia já lá tinha estado e vasculhara tudo, até os gavetões do arcaz da sacristia da capela. Portas e janelas fechadas para que ninguém suspeitasse que alguém dos donos estava ali, era como alma penada a passear pelos salões, quartos, corredor e na varanda à noite, no escuro, ouvindo a água das taças do jardim a chorar baixinho as mágoas da minha desventura.
E os mortos vinham-me à lembrança, também assistiam àquele drama e contavam os desenganos, os sofrimentos, os triunfos por que passaram, pareciam sentados naquelas cadeiras, dormindo nas amplas cadeiras de espaldar, passeando pelas ruas do jardim, as velhas matronas colhendo flores para a capela, onde a Nossa Senhora das Dores, com o filho morto no colo, chorava da injustiça e da crueldade dos homens. Outras vezes aquelas roseiras que vinham até à varanda deram as rosinhas de toucar para enfeitarem o caixão dum pequenito e que a pobre mãe pedia por esmola, lágrimas nos olhos tristes e saudosos, dizendo, entre soluços duma mágoa que só as mães trazem estampadas no rosto quando perdem um filho, que o seu anjinho, assim enfeitado e todo de branco, iria para o céu mais contente, e era até uma graça do Senhor tê-lo levado, pois já não passava mais fome nem frio, como os outros irmãos, que ficaram neste mundo dos "probes".
"Memórias do Capitão", João Sarmento Pimentel
(João Sarmento Pimentel nasceu no dia 14 de Dezembro de 1888. Morreu em 1987.)
E os mortos vinham-me à lembrança, também assistiam àquele drama e contavam os desenganos, os sofrimentos, os triunfos por que passaram, pareciam sentados naquelas cadeiras, dormindo nas amplas cadeiras de espaldar, passeando pelas ruas do jardim, as velhas matronas colhendo flores para a capela, onde a Nossa Senhora das Dores, com o filho morto no colo, chorava da injustiça e da crueldade dos homens. Outras vezes aquelas roseiras que vinham até à varanda deram as rosinhas de toucar para enfeitarem o caixão dum pequenito e que a pobre mãe pedia por esmola, lágrimas nos olhos tristes e saudosos, dizendo, entre soluços duma mágoa que só as mães trazem estampadas no rosto quando perdem um filho, que o seu anjinho, assim enfeitado e todo de branco, iria para o céu mais contente, e era até uma graça do Senhor tê-lo levado, pois já não passava mais fome nem frio, como os outros irmãos, que ficaram neste mundo dos "probes".
"Memórias do Capitão", João Sarmento Pimentel
(João Sarmento Pimentel nasceu no dia 14 de Dezembro de 1888. Morreu em 1987.)
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
João Sarmento Pimentel 2
O automóvel parou ao lado da igreja do Mosteiro de Santa Cruz, onde está agora instalado um café-restaurante e foi, tempos idos há muito, a capela do recolhimento de S. João das Donas enclaustradas. Aquele eruditos cónegos regrantes de Santo Agostinho, vê-se pela vizinhança que não esqueciam a recomendação do seu patrono e grande doutor da Igreja - "se não puderes ser casto, sê cauto". Era bem fácil, ali à mão de semear, salvar as aparências. E nem havia que pular a cerca, já que o jardim da Manga tinha uma porta com aldraba corrediça, dizem, que dava para o claustro do mosteirinho das virtuosas penitentes. É muito natural haver ali também, e nessa mesma porta, a tranca que poderemos chamar da moralidade, e que vedada abusos duma ou da outra das partes. Tenho como certo ficar a tal segurança colocada do lado que dava para o claustro dos frades, mesmo porque quem estabelecia as penitências eram eles, austeros confessores, e não as humildes pecadoras, diletíssimas servas do Senhor...
"Memórias do Capitão", João Sarmento Pimentel
(João Sarmento Pimentel nasceu no dia 14 de Dezembro de 1888. Morreu em 1987.)
"Memórias do Capitão", João Sarmento Pimentel
(João Sarmento Pimentel nasceu no dia 14 de Dezembro de 1888. Morreu em 1987.)
domingo, 14 de dezembro de 2014
João Sarmento Pimentel
Vindo do sul, um miradouro da estrada real mostra de surpresa a "formosa imagem" que é, no dizer de frei Heitor Pinto, "como alma deste reino".
Até nós outros, quando lhe pronunciamos o nome cá dos cafundós do exílio, sentimos mil saudades e recordamos aquela época, já distante para além dos seus oito ou dez lustros, em que todos éramos, senão poetas, prosadores de largo fôlego e contundentes adjectivações, moços dos quinze aos vinte e poucos anos.
Pelas manhãs domingueiras de Abril e Maio íamos aos eirados de Santa Clara namorar a paisagem da cidade soalheira e colorida, alpendrada no outro lado do rio Mondego, e aquelas airosas e risonhas tricanas que passavam a caminho do mercado, xaile cruzado sobre o peito repontão, pernas ao léu, sainha de regueifa na cintura e arregaçada até pelo joelho, a ponta do pé enfiada nos chapins bordados e calcanhar a dar, a dar, na borda da albarda marcando a andadura ligeira do burrico peludo, manhoso e contente. [...]
"Memórias do Capitão", João Sarmento Pimentel
(João Sarmento Pimentel nasceu no dia 14 de Dezembro de 1888. Morreu em 1987.)
Até nós outros, quando lhe pronunciamos o nome cá dos cafundós do exílio, sentimos mil saudades e recordamos aquela época, já distante para além dos seus oito ou dez lustros, em que todos éramos, senão poetas, prosadores de largo fôlego e contundentes adjectivações, moços dos quinze aos vinte e poucos anos.
Pelas manhãs domingueiras de Abril e Maio íamos aos eirados de Santa Clara namorar a paisagem da cidade soalheira e colorida, alpendrada no outro lado do rio Mondego, e aquelas airosas e risonhas tricanas que passavam a caminho do mercado, xaile cruzado sobre o peito repontão, pernas ao léu, sainha de regueifa na cintura e arregaçada até pelo joelho, a ponta do pé enfiada nos chapins bordados e calcanhar a dar, a dar, na borda da albarda marcando a andadura ligeira do burrico peludo, manhoso e contente. [...]
"Memórias do Capitão", João Sarmento Pimentel
(João Sarmento Pimentel nasceu no dia 14 de Dezembro de 1888. Morreu em 1987.)
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