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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Filinto de Almeida 2

Funesta

Se passas junto a mim, eu sinto as vagas
Do fundo oceano da paixão, rolando,
Quebrarem-se em meu peito, como quando
Rebentam as do mar nas duras fragas.

Da luz do teu olhar sereno e brando
Toda a minh’alma docemente alagas;
Se por acaso ris-te e se me afagas,
Semiânime julgo-me tombando!

Tens sobre mim a ação misteriosa
Que sobre o aço tem o ímã! Cismo
Que já me empolga a força deliciosa!

Sou presa desse eterno magnetismo!
E quando tu me fitas silenciosa
Sinto que vou rolar num fundo abismo!

"Lírica", Filinto de Almeida 

(Filinto de Almeida nasceu no dia 4 de Dezembro de 1857. Morreu em 1945.)

domingo, 4 de dezembro de 2016

Filinto de Almeida

A raiva de Nise

Ao que eu te digo de carinho e enleio
Respondes irritada e desdenhosa?!
Enfim, o espinho é natural na rosa
E ama a serpe esconder-se em morno seio.


No meio de um mirtal em flor, no meio
De uma seara próvida e viçosa,
Às vezes surge planta venenosa
E sapos coaxam no mais claro veio.


Vênus, a doce e branda, contam poetas,
De onde em onde também se encoleriza;
Nas flores mesmo há cóleras secretas.


Raiva, pois, meu amor pisa e repisa,
Não me arreceio do furor que afetas:
Que é o vendaval? a cólera da brisa.


"Cantos e Cantigas", Filinto de Almeida

(Filinto de Almeida nasceu no dia 4 de Dezembro de 1857. Morreu em 1945.)