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sexta-feira, 27 de março de 2020

Ernesto Penafort 4

Momento no bar

A rota azul do teu peito
Guindou-se para o teu ventre
Em certa noite de vento.
Abrigo um sonho perfeito,
Tendo como lastro um  leito,
Que agasalha a noite e o dia.
Nesta hora e em bar ausente
Eu guardo um sonho desfeito
Para o milagre da hora,
Cada instante mais presente
- caravela tendo em frente
O mar azul da agonia. 

Ernesto Penafort

(Ernesto Penafort nasceu no dia 27 de Março de 1936. Morreu em 1992.)

quarta-feira, 27 de março de 2019

Ernesto Penafort 3

A medida do azul

A medida do azul é o estender-se
do olhar por sobre os seres. Esse arguto
perceber que se tem de não mover-se
o objeto - já por ser absoluto.
A medida do azul é ver um luto
contido em toda flor e o abster-se,
cada qual de assumir seu tom enxuto
e noutro que o não seu absorver-se.
A medida do azul, pelo contrário,
não é ver no horizonte o fim do olhar,
mas o ter desta vida aonde chegar,
pois ali tem o mundo o seu ovário:

e o retorno acontece, sempre estável,
eis que o azul é o início do infindável.

"A Medida do Azul", Ernesto Penafort

(Ernesto Penafort nasceu no dia 27 de Março de 1936. Morreu em 1992.)

terça-feira, 27 de março de 2018

Ernesto Penafort 2

Mar acústico

Há mistérios no mar,
As algas nos transmitem seus lamentos.
Há segredos no mar, as praias os recolhem feito conchas.
Há mistérios no mar,
As velas os publicam pelos portos.
Há mistérios no mar,
O vento que os recolhe os revela.
Há segredos no mar,
As gaivotas não sabem, sobressentem.
Há mistérios no mar,
Os búzios nos convidam desvendá-los.

"Azul Geral", Ernesto Penafort

(Ernesto Penafort nasceu no dia 27 de Março de 1936. Morreu em 1992.)

segunda-feira, 27 de março de 2017

Ernesto Penafort

Soneto

enquanto a lua for calada e branca
eu serei sempre o mesmo, este esquisito,
este invisível vulto, apenas visto
quando o vento, de leve, açoita as folhas.
enquanto a lua for calada e branca
eu serei sempre o mesmo, apenas visto
quando um raio de sol morre na lágrima
que se despede de uma folha verde.
eu serei sempre assim, apenas sombra,
apenas visto quando a voz de um gesto
colhe no bosque alguma flor azul.
apenas visto quando em fundo azul
voar a garça (o meu adeus ao mundo?),
enquanto a lua for calada e branca. 

"Azul Geral", Ernesto Penafort

(Ernesto Penafort nasceu no dia 27 de Março de 1936. Morreu em 1992.)