De novo o silêncio recai. Agora só se ouve o ruído do frincheiro tirando cascalho: é como algo que estivesse arranhando o interior de uma sepultura. A terra escura e úmida vai sendo reunida com o auxílio da mão, e, por fim, é colocada dentro do outro saco. Em alguma parte, há um ruído incessante de água pingando. O novo saco é passado a Joaquim, que se encaminha para a boca do lapeiro e o entrega a Neco. Filó continua a esgravatar as frinchas. Já está quase no fim, mas o velho Justino quer que a piçarra fique totalmente limpa, pois onde há qualquer restinho de cascalho há a probabilidade de se achar o diamante - não se deve facilitar. Vai-se mais um saco, e volta-se a ouvir o ruído do frincheiro - insistente e enervante arranhar. Joaquim pensa que, se a gruna fosse mais espaçosa, não era preciso tanto trabalho: lavariam o cascalho ali mesmo. De repente, o bafo de umidade se torna mais acentuado, ao mesmo tempo que os dois homens escutam o rumor de qualquer coisa que começa a correr. Entreolham-se espantados, e Filó compreende num relance: foi a chuva que desabou lá fora. Tão rápido como o seu pensamento, o fio da minação desliza por entre as pedras e, à luz das candeias, torna-se uma realidade a presença ameaçadora da água.
- Corre, Joaquim! - grita Filó: sabe que, nesse momento, isso é tudo que tem verdadeiramente para fazer.
O outro parece vacilar - não era essa a espécie de morte que imaginara ter. O rumor da água continua a crescer dentro da gruna - fio de água transformando-se em enxurrada. Filó grita de novo:
- Corre, diabo!
"Cascalho", Herberto Sales
(Herberto Sales nasceu no dia 21 de Setembro de 1917. Morreu em 1999.)
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quinta-feira, 21 de setembro de 2017
quarta-feira, 21 de setembro de 2016
Herberto Sales 4
Os sacos e os frincheiros são abandonados, e os dois homens se metem pelo lapeiro adentro - Filó com a candeia na mão e Joaquim na frente, repetindo o grito de alarma. As águas, correndo atrás deles, arrastam consigo o resto do cascalho. Através da fumaça da candeia, Filó enxerga os pés do companheiro. Joaquim pensa em Rita Pandeiro, e imagina que não mais se encontrará com ela. Ela vai saber de sua morte pela boca dos outros. Joaquim vê a morte diante dos olhos, e lembra-se de outros garimpeiros que, indo à procura de cascalho dentro das grunas, de lá foram retirados como postas de carne. Nunca mais verá Rita. Vai morrer, Sinhá do Ouro encomendará a alma dele no velório. A última vez que esteve com Rita foi na semana passada; procura reconstituir o que ela lhe disse antes de sair para o rio, com a gamela de pratos na cabeça. Tudo agora vai terminar, porque a água continua a avolumar-se; mas, de certo modo, sente-se contente por se ter desviado de um bico de pedra - não chegara realmente a acreditar que pudesse passar por ali. Neco vai na frente. A enxurrada se arremete no seu encalço. Para espanto seu, até agora não encontrou nenhum dos companheiros que formavam a fieira para a passagem do saco: era como se alguém houvesse determinado que, a partir daquele instante, só ele, Joaquim e Filó deviam ficar dentro da gruna.
Sente-se apanhado irrevogavelmente na armadilha: ia morrer como um bicho - sem vela nem sentinela - e esse pormenor lhe causava uma espécie de decepção.
"Cascalho", Herberto Sales
(Herberto Sales nasceu no dia 21 de Setembro de 1917. Morreu em 1999.)
Sente-se apanhado irrevogavelmente na armadilha: ia morrer como um bicho - sem vela nem sentinela - e esse pormenor lhe causava uma espécie de decepção.
"Cascalho", Herberto Sales
(Herberto Sales nasceu no dia 21 de Setembro de 1917. Morreu em 1999.)
sábado, 21 de setembro de 2013
Herberto Sales
Começaram a entrar na gruna.
Um bafo de umidade retida os envolve. Filó vai na frente, seguido de perto por Joaquim Boca-de-Virgem e Neo. Seguram a candeia com uma das mãos, e com a outra amparam o corpo para não rolarem pelo lajedo. Agora já é preciso curvarem a cabeça, porque a gruna se torna cada vez mais baixa. Filó é o rompedor. Sua candeia alumia o caminho difícil. Dela se desprende uma fumaça densa, o cheiro do azeite se misturando ao do limo que cobre as pedras. O ar se faz mais pesado, como que palpável. Entre o teto e o chão há apenas uma fenda, como se o caminho tivesse terminado ali. Mas é necessário avançar mais - e Filó avança, agachando-se, a princípio, para logo se estirar de comprido sobre a laje. Se aparecer de súbito uma cobra, uma cabeça-de-patrona ou uma jaracuçu, cuja picada "quando não mata, aleija", ele fará o que todo gruneiro tem obrigação de fazer - de saber fazer. Procurará encandear os olhos da cobra com a luz da candeia, até poder pegá-la pela cabeça com mão firme, esmagando-a contra a pedra. Não há outra saída. Atrás dele, também de rastos, vêm os demais companheiros, com o rosto a um palmo de distância da planta dos pés uns dos outros, formando a fieira por meio da qual se farão chegar os sacos de cascalho à boca da gruna. Os sacos são de algodãozinho, e de pequenas dimensões, porque de outro modo não seria possível movimentarem-se com eles ali. No serviço de gruna, o garimpeiro é obrigado a abolir o carumbé comumente usado para o transporte de cascalho. Filó sabe que, se não pode recuar, em virtude de estarem atrás dele os outros, também não lhe é possível avançar com rapidez: seu peito e suas costas se roçam nas pedras. Vai empurrando a trouxa de sacos e os frincheiros, e calcula já ter avançado uns trinta metros pela gruna adentro. É noite, mas ainda que fosse dia a escuridão da gruna seria a mesma: é qualquer coisa sempre igual, como a eternidade.
"Cascalho", Herberto Sales
(Herberto Sales nasceu no dia 21 de Setembro de 1917. Morreu em 1999.)
"Cascalho", Herberto Sales
(Herberto Sales nasceu no dia 21 de Setembro de 1917. Morreu em 1999.)
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