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domingo, 11 de novembro de 2012

Carapau assado entre couves

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

Ora aqui fica uma excelentíssima alternativa ao escandaloso bife de todos os dias. Carapau na brasa. O "entre couves", que fui eu que inventei, creio que até confere um certo toque de nouvelle cuisine e classe ao prato tradicional. O carapau médio estava a dois euros o quilo na passada sexta-feira e dá para um regimento. O bife, há que tempos que não sei a como está. Para melhor informação, é favor perguntar à Senhora Dona Maria Isabel Torres Baptista Parreira Jonet.

sábado, 10 de novembro de 2012

Portugal quase 2013: de volta à fressura

Há pelo menos uma grande superficie do Porto que está a vender fressura às pessoas como se fosse para dar de comer aos cães. Mas é para a mesa das pessoas. As pessoas andam com fome e pedem a fressura. Nas lojas de congelados, as cabeças de pescada foram cortadas ao meio e as caras de bacalhau saem como pãezinhos quentes. As pessoas, que andam com fome e nunca na vida cozinharam (e não sabem cozinhar), agora olham para umas postas esquisitas, perguntam "que peixe é este?, é bom para quê?", os funcionários dos frigoríficos fazem o papel respectivo, inventam no momento um nome qualquer para o peixe e dizem que "é bom para o forno, para fritar, para a brasa, para estufar, para caldeirada, é bom, muito bom", e o peixe é um merda mas as pessoas querem acreditar que é bom, muito bom, porque é multifunções e muito mais barato do que o peixe a sério e estão com fome. E levam. E são levadas. E está bem: o polvo e as lulas agora são potas. Filhos da puta que nos puseram assim. Nos talhos, o fígado para iscas e os ossos da suã são hits nacionais. Os pescoços de frango também e as asas é um ar que se lhes dá. As pessoas estão sem dinheiro e têm fome. As pessoas não têm emprego e as que têm trabalham para pagar impostos.
A ver se me faço compreender: sempre fui praticante de asas e pescoços de frango, de ossos da suã, de iscas de fígado, de caras de bacalhau e de cabeça de pescada, se for inteira. Fui e sou. Sei dar-lhes o valor e as voltas: cá em casa são petiscos. Ainda não necessidade. À fressura (deixem-se lá de malícias) é que nunca mais tornei.
E em miúdo até era eu quem ia ao Talho, a mando da minha mãe, comprar "um quarto de fresura" para a massa do almoço, "se faz favor". Só havia um talho na vila, e por isso era com maiúscula, e não há uma mãe como a minha. Se acham que é lugar-comum, isto da minha mãe, estão redondamente enganados. Perguntem em Fafe, chama-se Alexandrina e vão ficar admirados. Mas a minha mãe hei-de contá-la como deve ser mais lá para diante.
Já sabem que éramos pobres. Comíamos "fresura" porque era o mais em conta que havia aparentado com carne para comermos à semana. Eu aprendi a gostar e gostava sobretudo do rinca-rinca do cano. Já a parte do bofe fazia-me uma certa impressão e ainda hoje sou contra as chiclas. Ao domingo comíamos bife, é preciso que se note, porque a minha mãe tinha artes de ilusionista, truques de economia. A minha mãe fazia comida muito boa e devia ser ministra das Finanças.

A minha mãe passou por muito e diz que o 25 de Abril foi o melhor que aconteceu em Portugal. Isso e os títulos do FC Porto. A minha mãe não admite marcha-atrás. "Pobreza era no tempo do fascismo", diz a minha mãe, e os títulos do Benfica também eram. Mas, ó mãe, deixe lá o relato só por um bocadinho: estamos de volta à "fresura"?

(Escrevi e publiquei este texto no passado dia 20 de Outubro. Repito-o hoje, para informação da Senhora Dona Maria Isabel Torres Baptista Parreira Jonet.)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Em defesa da Senhora Dona Isabel Jonet

A verdade é esta: tenho andado a escrever acima das minhas possibilidades. E entro hoje mesmo em regime de poupança. Sobre o que penso a respeito da pobreza e dos pobres em Portugal e do que pensa, diz e faz este Governo ignorante e cínico a respeito da pobreza e dos pobres em Portugal, já escrevi aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
Outra coisa: as televisivas declarações da Senhora Dona Maria Isabel Torres Baptista Parreira Jonet a respeito da pobreza e dos pobres em Portugal foram apenas uma parvoíce. Nada que justifique a histérica lapidação que por aí vai. Mas é o que eu digo: as parvoíces são como as cerejas. Temos é de nos habituar a comer só os caroços. E apenas aos domingos.